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 Missão Reciclada

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Beau

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Mensagens : 26
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MensagemAssunto: Missão Reciclada   Sex Jan 05, 2018 3:16 pm







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Observação Antes da Leitura:
 

Apoiava a mão numa espécie de balcão enquanto me levantava com um pouco de dificuldade, minha cabeça doía fortemente e a minha visão embaçada só se recuperou ao estar totalmente em pé.  Observei o local, vazio aparentemente, mas com vários destroços indicando que uma batalha havia acontecido recentemente ali. Que lugar era aquele? Como eu tinha ido parar lá? Eram perguntas que eu não sabia como responder por causa da dor que latejava sem parar. Avistei uma pia atrás do balcão, para onde me dirigi e abri a torneira para lavar o rosto. O primeiro flashback veio no momento que a água fria tocou minha pele.

Lá estava ele: grande, gordo e pesado. O ciclope, filho de Arges, ao qual estava procurando. Aquele que roubara o item de Ares. O bar estava cheio de seus capangas, que tinham mais cara de idiota que o poderoso chefão. Eu, sentado no banco do balcão, com uma capa que cobria todo o meu corpo e um largo capuz para esconder meu rosto em meio aos panos. Estava nervoso, nervoso o suficiente para cometer a burrada a seguir:

— Então, aquele é o big boss que roubou Ares?

Pra quê eu falei aquilo? O monstro magrelo ao meu lado avançou para cima de mim sem dar tempo de respirar. Caímos juntos no chão, embolando até próximo as mesas. Outros capangas entenderam  o que acontecia e rapidamente pularam em cima de nós. Aos poucos eu era sufocado com o peso deles enquanto recebia alguns socos e arranhões. Estava curvado no chão, com as costas para cima, sem conseguir ativar nenhum dos equipamentos. Mais uma vez, o instinto tomou conta de minhas ações, de alguma forma uma energia dentro de mim sempre sabia como agir nesses momentos em que não conseguia raciocinar direito.

Minhas asas se abriram vorazmente, lançando todos os capangas que estavam em cima de mim para longe, alguns caíram em cima de móveis, quebrando-os com o impacto. Saltei e planei na mesma hora, observando os que se levantaram para avançar contra mim novamente. Antes que pudessem me atingir, voei o mais alto que consegui dentro daquele local e concentrei toda energia em meu corpo, que brilhou de forma intensa um vermelho forte.

Os capangas que tentavam me atacar agora gritavam como se seu corpo estivesse em chamas e tampavam os olhos para evitar o brilho. Eles fugiram do local, derrubando tudo que viam pela frente, queriam se livrar daquela ardência em seus corpo. Logo o brilho finalizou e eu voltei a tocar os pés no chão. Olhei imediatamente na direção onde estava o ciclope e não restava uma alma se quer. Ele aproveitou a confusão para fugir.

Só o que restou foi um garoto, que estava escondido todo esse tempo atrás do balcão. Era o atendente dali, provavelmente era forçado a trabalhar pelo monstrão. Ele me olhou assustado e estendeu a mão com um copo de vidro com uma bebida transparente, talvez vodka. Eu não iria machucá-lo, ele parecia inocente. Agradeci com a cabeça e peguei o copo para tomar dois goles seguidos. É ele só parecia inocente mesmo. Minha vista embaçou.


Meu olhar foi direto até o local onde o ciclope estivera sentado, assim que a água terminou de escorrer pelo meu rosto. Minha cabeça ainda latejava, mas aos poucos diminuía. Apoiei o braço no batente da pia enquanto observava a água cair da torneira para o ralo. Certo, eu sabia o que tinha acontecido ali. Mas porquê eu estava atrás desse tal item?

Foi então que o outro flashback surgiu, antes mesmo de lavar o rosto mais uma vez. Nele, mostrava uma conversa minha com o próprio deus da guerra, onde ele dizia que eu lhe devia uma, depois de ter atrapalhado o encontro dele com Afrodite uma vez. De fato, ajudei Hefesto com isso, mas não sabia que ele tinha conhecimento da minha participação. O barbudo contou toda a história que aconteceu cinco anos atrás. Assim que terminou de dar as indicações da missão desapareceu. O tempo acelerou até que eu tivesse uma visão profética do local onde estava naquele momento.

Agora tudo fazia um pouco mais de sentido. Lavei os rostos algumas vezes pronto para sair e continuar a busca pelo tal objeto, quando ouvi barulhos de pneus do lado de fora do bar. As luzes do farol invadiu o estabelecimento através de uma janela quebrada no meio da confusão. Ao julgar pelo som dos passos nas pedras, com certeza tinha mais de uma pessoa ali. E eu estava certo. Os três integrantes da seita derrubaram a porta de entrada de uma vez. Fazendo um grande barulho ecoar no local e a poeira subir durante a derrubada,o que ajudou para que eu me escondesse atrás do bar antes de ser visto.

— Parece que a briga foi boa — Comentou uma voz feminina.

— Acha que ainda tem alguém aqui?

— Vamos descobrir.

E os passos eram possíveis de ouvir novamente. Desta vez dava para distinguir o salto alto dela do barulho das botinas dos outros dois. Eu precisava sair dali sem ser visto, ou então não conseguiria completar a missão. Prendi a respiração quando a luz azul de uma lanterna passou próximo ao local onde me escondia, provavelmente aquela luz tinha algum diferencial da de lanterna comum. Recuei o Maximo que consegui, batendo sem perceber em um copo de vidro que virou de lado, fazendo barulho suficiente para chamar a atenção deles.

— Shit — Falei baixo na mesma hora que mais duas luzes encontravam a que já estava lá. Os passos ficavam cada vez mais perto. O suor escorria pela lateral do meu rosto. Parecia que a minha respiração tinha parado de vez. Até que finalmente as grandes unhas vermelhas apareceram na borda do balcão, antes do rosto afilado surgir em seguida.

— Um pulguento!

Aquela era uma das habilidades dos guardiões que eu mais gostava: o metamorfismo. Antes de ela olhar o local onde eu me escondia, aproveitei para me transformar em vira-lata de cor acinzentada, com aparência acabada para combinar com o local. Eu lati em sua direção, um latido rouco e forte. A mulher de cabelos vermelhos fez uma careta de nojo em minha direção e voltou sua atenção para os companheiros. Aproveitei para sair dali de baixo e andar de quatro patas para um local onde pudesse vê-los.

— Não tem ninguém aqui. Foram mais rápido que nós — Afirmou a mulher enquanto chutava um copo com sua bota pontuda de salto.

— E para onde foram? — Perguntou o mais alto deles.

— Não sei, mas se continuar aqui dentro mais um minuto, pegarei alguma doença.

A mulher falou ao mesmo tempo em que se dirigia até a porta por onde entraram, voltando a fazer a expressão de nojo ao passar do meu lado. Rosnei em sua direção e esperei que os três saíssem para segui-los até o lado de fora. Sentei sobre quatro patas em baixo de um grande carvalho que tinha na entrada, observando-os partirem em sua Range Rover preta. Esperei que eles desaparecessem de minha visão para então retornar a forma humanoide com um sorriso no rosto.

A brisa gélida da noite refrescava o carvalho ao lado, balançando suas folhas ao passar por elas. Enfiei a mão dentro da jaqueta de couro preta que usava por baixo da capa, retirando de dentro do bolso interior, um espelho de mão adornado em ouro. Nunca imaginei que aquele presente de natal fosse me ser útil em algum momento. Após descobrir acidentalmente como funcionava, sabia exatamente como utilizaria ele ali. Após pensar sobre a história contada pelo deus da Guerra, o espelho mostrou a imagem de um garoto de cabelos pretos. O espelho não tinha me mostrado o ciclope que eu achava estar com o objeto roubado de Aros, mas sim um possível semideus com os olhos escuros.

Entendi na hora de que se tratava do demônio de Nyx que matou o filho da guerra anos atrás. Então minha ida até o bar tinha sido em vão, o item já estava sob posse do seguidor de Nyx novamente. Ele era grosso, gritava com um outro menino mais baixo que ele, que mostrava respeito pelo líder abaixando a cabeça durante a gritaria. A imagem ia se afastando, mostrando a sala em que estavam até mostrar a casa esverdeada na rua deserta e a frente da padaria que ficava ao lado. As imagens sumiram logo em seguida. Mas aquilo era o suficiente para saber onde encontrá-lo. Sabia a localização daquela padaria. Era uma antiga que ficava próxima ao Zoológico de Denver. Guardei o espelho antes de abrir as asas para voar até o local.

O voo não demorou muito, afinal não era muito longe de onde o bar estava. Aterrissei em frente a casa vista pelo espelho, voltando a esconder as asas ao tocar os pés no chão. A porta estava trancada, não teria como entrar por ali. Deia volta nela até encontrar a janela que dava na cozinha semiaberta. Tentando não fazer muito barulho, a abri o suficiente para atravessar e adentrar a suposta residência do demônio. Todos os ambientes estavam escuro, a única fonte de luz que iluminava o corredor próximo a cozinha vinha de um quarto no fim dele. Provavelmente o escritório que tinha avistado.

O silêncio permanecia ali, indicando que o semideus não gritava mais com o seu capanga, como o espelho tinha mostrado. Um clima estranho pairava o ar, me fazendo arrepiar a cada passo que dava na direção do quarto iluminado. Estava tudo muito quieto demais. Quando toquei na porta, para abri-la e olhar dentro do cômodo, fui atingido por uma forte pancada na nuca que me forçou a cair no chão e avistar sapatos pretos antes da visão escurecer de vez.

{...}

— Você realmente acha que eu não sabia da sua chegada?

A voz rouca do garoto invadia meus ouvidos no momento em que eu acordava do desmaio. Tentei levar a mão até o local da batida na nuca, mas algo me impediu. Foi então que percebi a situação em que estava: preso em uma cadeira, com os pés amarrados na parte de baixo do móvel e as mãos amarradas para trás. Minha visão já estava perfeita novamente e pude observar os dois demônios me encarando com sorrisos amarelados. Na mesma hora tentei ativar os anéis em meus dedos para transforma-los em correntes, mas não havia nada lá.

— Tá procurando isso aqui? — O garoto mais baixo falou apontando para a mesa ao seu lado, onde estavam todos meus equipamentos, inclusive a capa que não tinha nada de especial ,que usava apenas para disfarçar mesmo.

— O que vocês querem?

— O que nós queremos? — O demônio principal riu — Isso é o que nós perguntamos a você, semideus.

— Você tem algo que não lhe pertence — Enquanto falava, meus olhos pararam em cima de um medalhão de outro que o garoto de olhos negros usava em seu pescoço. No centro do objeto, a imagem de uma cabeça de javali parecia me observar o tempo todo. Era isso. Aquele animal era o símbolo do Deus!

— Então o velhote não esqueceu disso? — Ele perguntou enquanto segurava a corrente de ouro em seu pescoço, confirmando o que tinha imaginado há pouco sobre o item — Ele é meu por direito, eu matei seu filho e peguei para mim.

Fiquei calado. Como ele conseguia falar em morte como sendo algo tão normal? Os seguidores de Nyx eram tão ruins assim? Eu queria bater nele o mais forte que conseguisse, não por causa de Ares, mas pela índole que ele aparentava ter. Talvez ele só aprendesse quando sentisse na pele o que faz os outros passarem. “Aprende com a dor”. Ou será que esse ditado só funciona com pro amor?

O outro garoto, que posteriormente descobri se chamar Gary durante uma conversa dele com o demônio principal, andou até um canto da sala e acendeu um cigarro com um isqueiro. Era a minha oportunidade de fazer algo. Eles podiam ter pego meus equipamentos, mas eu ainda tinha meus truques. Gary então passou o acendedor para seu companheiro, indicando que o outro logo acenderia um cigarro também.

Dito e feito. O de olhos sombrios posicionou o cigarro em sua oca e começou a riscar o isqueiro para produzir fogo e acender o fumo. Exatamente o que eu precisava: fogo. Concentrei o olhar para o equipamento e esperei que a primeira pequena chama aparecesse para dar início ao meu plano. Foquei a energia na pequena chama azulada, aumentando-a rapidamente e lançando-a contra o rosto do inimigo. Gary correu até seu parceiro para ajudá-lo.

— Por favor, me concedam sua benção.

Orei baixo, antes de tentar puxar os braços e as pernas para torar as cordas que me prendiam. Minha prece tinha sido ouvida. A força que possuía fora aumentada de uma hora para outra. Permitindo que conseguisse romper as cordas. Pensei em correr até os equipamentos, mas era melhor aproveitar a chance que tinha: com uma corrida e um salto, caí com tudo sobre Gary, acertando sua nuca em cheio com uma cotovelada, apagando-o no chão e devolvendo o ataque que me receberam quando cheguei ali.

O outro avançou para cima de mim na mesma hora, já que o fogo em seu rosto já tinha desaparecido, embora a queimadura continuasse. Em suas mãos agora estavam garras afiadas,que cortaram meu braço esquerdo causando arranhões. Segurei-o pelos ombros impedindo-o de se aproximar mais e joguei o corpo para trás, caindo junto com ele.

— IDIOTA!

Ele bradou durante a queda. Utilizei da perna esquerda para afastá-lo e conseguir me levantar. Mas antes que pudesse realizar outro movimento de ataque,  três esferas de energia negra vieram em minha direção. Desviei de apenas uma, sendo acertado pelas outras duas e lançado para longe contra a parede. Ainda durante o movimento de batida na parede, avistei quando o demônio avançou em minha direção, imediatamente conjurei uma barreira mágica de cor alaranjada que impediu a sua passagem.

A barreira iria segurá-lo durante o tempo que eu precisava para me levantar após a queda e recuperar os itens de volta, retirando-os da mesa onde estavam. Assim que peguei todos ativei a Nebula no momento exato que o semideus destruiu a barreira. As quatro pontas afiadas da arma avançaram contra o homem, desferindo-lhe alguns golpes antes de se enroscarem por todo o corpo dele igual ao ataque de uma cobra.  

— Você nunca acabará comigo! — Ele gritava enquanto tentava se soltar das correntes.

— E quem disse que eu farei isso? — Um sorriso perverso surgiu em meus lábios. Eu não iria matá-lo, longe de mim fazer aquilo. Mas o entregaria para o deus e ele decidiria o destino daquele pobre coitado.

Movimentei os dedos ao mesmo tempo em que controlava o ar ao redor dele. Impedindo que tal elemento chegasse em suas narinas, criando um vácuo no semideus por causa do desvio que fazia das correntes de ar. Aquela maldade só durou alguns segundos, o suficiente para ele suspirar sufocado e seus olhos revirarem, indicando o desmaio.

Gary continuava desacordado no chão. Mas era questão de tempo até ele se levantar. Aproveitei para colocá-lo sentado na mesma cadeira que me colocaram anteriormente. Amarrando-o da mesma forma, com umas cordas que encontrei no canto da sala. Ele já começava a demonstrar que acordaria, quando me afastei,criando um glifo de fogo ao seu redor.

— Está vendo esse circulo vermelho a sua volta? — Perguntei enquanto ele abria os olhos e observava o em torno — Você está bem no meio dele. Uma movimentação se quer e sua alma queimará até no submundo.

Seus olhos arregalados foram a última coisa que vi antes de dar meia volta e caminhar para fora da casa, controlando as correntes para trazer o demônio desacordado logo atrás. Eu até que tinha talento pra maldade. Soltava uma risada rápida com o pensamento, enquanto parava na beira da calçada do local. Eu precisava levá-lo até Ares e só tinha uma maneira de fazer aquilo: Assobiei o mais alto e agudo que conseguisse. Retirei um dracma do bolso enquanto esperava o táxi velho parar na minha frente. Abaixei, olhando para as três irmãs cegas que dirigiam o veículo.

— Empire state, o mais rápido que conseguirem.

Equipamentos:
 

Poderes e Habilidades:
 

Habilidades Ativas do Demonio de Nyx:
 

Duplicador:
 


Kyra
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Abramov Levitz

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MensagemAssunto: Re: Missão Reciclada   Qui Ago 23, 2018 1:48 am


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Abramov Levitz

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MensagemAssunto: Re: Missão Reciclada   Sab Ago 25, 2018 5:52 am

THEFROZENLAKE
A agitação da cidade de Nova York era observada pelo semideus que repousava na escadaria de emergência de um prédio residencial aleatório. À noite era mais fácil para ele se manter camuflado e quieto - precisava descansar, ainda que fosse mais resistente que os meros mortais. Sobre sua roupa simples estava apenas a jaqueta de couro preta que o aquecia em meio ao clima gélido da madrugada.

Apoiando-se em seu perfume inebriante para continuar escondido, Gideon permitiu que as pálpebras cansadas de seus olhos se fechassem e então cochilou. De tão exausto, seu cochilo rapidamente se tornou um sono profundo e com este veio o sonho. Nele, o rapaz vagava por uma vastidão branca e sem fim. O chão não estava coberto de neve, mas não parecia ser feito de terra ou pedra. Era como um limbo. Confuso, ele seguiu sem rumo por alguns minutos. Estava relaxado naquele ambiente isolado, no fim das contas.

Em determinado momento, a branquidão do chão deu lugar a uma superfície congelada e transparente. Na verdade, não era possível ver exatamente o que tinha embaixo de seus pés, mas um cintilar forte e cegante denunciava a presença de algo igualmente precioso à sua causa. Interessado em saber do que se tratava aquela visão, o demônio percebeu a repentina comparência de outro alguém.

Ou, naquele caso, de uma divindade.

Minha senhora — Cox se ajoelhou tão depressa quanto o brilhar das estrelas no manto escuro que cobria Nyx.

— Meu escolhido — a deusa cumprimentou. Ela nunca soava de maneira carinhosa, mas tinha um ar afetuoso mesmo assim - como uma mãe que ama seus filhos e os trata de maneira rígida para os por na linha. — Há algo que preciso que faça. Sei que já o designei para uma outra tarefa, mas isso é de mesma urgência.

O semideus se levantou e manteve a boca calada. Não era mal-educado para interromper a própria matrona.

— Vá ao Maine e traga minha coroa, Gideon — ordenou antes de desaparecer.

De supetão, o demônio acordou e percebeu que já estava amanhecendo. A sensação que teve foi de que apenas poucos minutos tinham se passado durante o sonho, contudo aquela ilusão tinha durado muito mais do que o que aparentara. Seus olhos estavam ardidos por conta luz solar forte contra eles e quando os coçou, ardeu ainda mais pela remela seca. Apesar de revigorado, aquele momento definitivamente não poderia ser considerado como "acordar com o pé direito".

Não quando o barulho do caminhão de lixo o despertou por completo.

Apressado como só, o meio-sangue disparou escadaria abaixo até que voltou às ruas de Nova York. Não sabia ao certo o que exatamente estava procurando, muito menos como iria para outro estado, mas sabia que sua líder era exigente e provavelmente esperava que aquela tarefa fosse cumprida com ímpeto. Assim, optou pelo mais seguro e rápido: ônibus.

A rodoviária central da metrópole estava constantemente lotada com os mais diversos tipos de pessoas. A cidade que nunca dormia era destino final de centenas de carros e estes chegavam e saíam de lá a todo instante. Dessa forma, não foi tão difícil para o semideus se misturar em meio à multidão e usar seu charme natural para conseguir um lugar na janela em direção ao seu destino. Mamon tinha sua retaguarda, então dinheiro nunca era problema para alguém que podia ter o ouro que quisesse na palma da mão.

Camuflado com o odor especial, o meio-sangue seguiu viagem em paz até o norte de Vermont, quando o primeiro sinal de perigo apareceu. Tendo recém se envolvido em confusão com a Seita, Gideon estava sendo procurado sob o nome de "Zero". Sua aparência era uma mistério em grande parte, todavia um esboço detalhado já estampava alguns cartazes e dava direção aos perseguidores. Então, quando ele reconheceu a movimentação estranha dos agentes no portão de desembarque, agiu.

Ardiloso, o demônio esperou todos saírem do ônibus para usar a viagem pelas sombras sem ser notado. Ele era capaz de ir para qualquer lugar com aquele poder, mas temia acabar desaparecendo pelo uso abusivo. Assim, mentalizou o banheiro público da rodoviária e apareceu lá. Para sua sorte, uma das cabines estava vazia e foi exatamente nela em que surgiu. Local oportuno, pois a vontade de vomitar quase o fez usar o vaso ali mesmo.

Com alguns minutos de recuperação e revitalização, Cox mudou a aparência para uma mais desleixada e beirando ao status de "sem teto", no intuito de se misturar aos moradores de rua da região. Muitos deles, inclusive, margeavam o local em busca de comida ou dinheiro. Uma estratégia que poderia ser considerada baixa, mas que servira perfeitamente para a situação.

Impedido de embarcar em qualquer ônibus ou transporte público interestadual, Giddy parou em uma lanchonete aleatória para se alimentar. O capeta que o acompanhava estava inquieto e ansioso, murmurando dizeres a respeito de um ditado envolvendo um ladrão que roubava ladrões. Mamon queria vingança daquele que roubara um dos fragmentos de Moros antes que ele pudesse colocar as mãos no item. Entretanto, a dupla ainda precisava seguir as ordens de Nyx primeiro.

Dois dias após o início da jornada, Gideon ainda estava em Vermont sentindo o cerco fechar. Ele não conhecia aquele estado e muito menos a cidade em que estava. Fraco por conta da viagem nas sombras, acabou se envolvendo em uma breve confusão ao usar o charme erroneamente em um comerciante. A confusão chamou a atenção de uma harpia e esta espalhou a presença do semideus para todos os seus contatos na metrópole.

E então a caçada estava iniciada.

Zero só ficou sabendo do seu descobrimento quando foi atacado em um beco por dois cães infernais. Apesar do susto inicial, ele conseguiu lidar com as bestas sem muita dificuldade. Todavia, cerca de uma hora depois, quando um lestrigão o encontrou em um cruzamento e arremessou um extintor de incêndio em sua direção, se tocou de que algo estava errado.

Sendo perseguido tanto pela Seita quanto por monstros, o filho de Eros precisou pensar muito em como sair daquele lugar. Mamon queria que ele voltasse a viajar pelas sombras, mas o garoto sabia que era arriscado demais. Teimoso como só, o grego encarou todas as criaturas que se colocaram em seu caminho por mais três dias. Três dias sem descanso ou paz, dormindo e acordando em locais aleatórios para evitar ser pego desprevenido.

Quando o fim da primeira semana havia chegado, Nyx avisara através de um sonho que o prazo estava acabando. Gideon não poderia se prolongar mais naquela cidade. Teria de sair dali de uma maneira ou de outra. Continuar enfrentando os monstros, por mais fracos que pudessem ser, culminaria no esgotamento de suas energias e consequentemente morte. Passar direto pela Seita também. Viajar pelas sombras, em uma probabilidade altíssima, igualmente.  

Preciso arriscar tudo, pra conseguir tudo — comentou sozinho, olhando-se no espelho do banheiro de um bar.

Escolher uma das opções provavelmente fora uma das mais difíceis decisões da vida do demônio. Suicídio era o pior dos pecados de acordo com os ensinamentos cristãos, mas não era ele o desvirtuado que havia renunciado o restante de sua inocência em prol da ganância? Ou seja, o ato soara apenas como mais um capítulo da vida inconsequente de Gideon Cox. E sua escolha? A mais lógica:

Uma passagem para o Maine. Qualquer cidade, por favor — pediu à vendedora, de volta à rodoviária.

O plano para passar pela Seita era simples, embora cheio de riscos e sem um final firme. O semideus sabia que todos os ônibus seriam parados nas dividas do estado, então ele sentou no último assento colado na janela. Em seu disfarce, era apenas um jovem adulto cansado e sonolento. A mulher sentada ao seu lado parecia não suspeitar de nada - até porque não havia o que suspeitar.

Quando o veículo chegou na blitz imensa que parava a grande rodovia, o coração do legado começou a acelerar. Ele só teria uma chance e, se seus cálculos estivessem errados, aquele poderia ser seu fim. Assim que os olhos entreabertos do olimpiano flagraram o agente da Seita que havia adentrado o meio de transporte para inspeção, sua ação foi feita.

Abusando das capacidades possessivas da trupe da deusa primordial, Zero deixou seu corpo transcender ao físico e possuiu o homem. A sensação de estar em outro corpo foi estranha e diferente. Mesmo mover as mãos parecia um comando a parte, como estar assistindo a seu personagem através de um jogo. O momento de confusão foi rápido, pois Mamon - que o acompanhara por serem um só -, o lembrou do tempo limite.

— Tudo limpo — o possuído disse ao seus companheiros, quando desceu do ônibus.

Gideon assistiu através de outros olhos sua carona desaparecer pouco a pouco na estrada. Poucos minutos depois, quando já não conseguia manter a conexão, sentiu o corpo do mortal fraquejar e então tudo apagou. No mesmo instante seus olhos se abriram novamente e ele se viu de volta ao próprio corpo. O acordar foi tão súbito que um breve grito escapou por entre seus lábios, o que assustou a mulher sentada ao lado que não esperava o rapaz sonolento agir daquela forma. Mesmo com o constrangimento no final, ele havia conseguido despistar a organização.

Vitória.

Temporária.

Quando o enviado da noite enfim alcançou o estado destino, deparou-se com toda uma mobilização por parte da Seita na rodoviária. O ocorrido com o possuído com toda a certeza resultou em um alerta de atenção naquela região, pois ele nunca tinha visto tantos soldados inimigos reunidos em um só lugar. E o pior de tudo, ninguém estava autorizado a descer dos ônibus, ou seja, escapar pelas sombras novamente não era uma opção.

"Hora do show, criança", Mamon riu da situação, curioso para saber como seu escolhido sairia daquela armadilha.

Na hora em que dois agentes subiram no ônibus de Gideon, ele rapidamente ativou o primeiro selo. Medo se espalhou pelos mortais e os agitou, dando início à confusão. A mulher sentada ao lado do meio-sangue foi uma das primeiras a se levantar, o que permitiu que este se deitasse no vão entre os bancos. Quietinho ali, ele ativou a invisibilidade para ganhar tempo despercebido e, sem se mover, evocou o poder sobrenatural para sair dali através das sombras.

Diferente da última vez, o legado de Hades não teve tanta sorte ou controle de seu destino. Ao surgir ao lado de uma das cabines de telefonema escondidas próxima à bilheteria principal, todos ali presentes repararam na esquisitice. A gritaria que deu segmento ao surgimento repentino chamou a atenção tanto dos soldados quanto dos monstros na região.

Perdido, Cox correu em direção à rua empurrando tudo e todos pela frente. Esperto, sabia que seus inimigos armados não atirariam ali correndo o risco de atingir inocentes. Só que o mesmo não podia ser dito sobre os monstros. Uma dracaenae que estava de passagem percebeu a movimentação e tentou interceptar a corrida do semideus. Contudo, ele saltou por cima dela e rolou após a queda. Sem domínio do rolamento, acabou esbarrando em uma lixeira e se enrolou.

Atrapalhado, o demônio abriu o segundo selo e colocou todos uns contra os outros. Caos em cena. Um dos soldados da Seita tentou capturar o rapaz por trás, mas este deu uma cotovelada em sua barriga para se soltar e invocou Destemor, as espadas gêmeas, para retalhá-lo em um giro para trás. Em seguida, chutou a lixeira caída ao lado para cima da dracaenae e disparou em sentido à liberdade de novo.

Uma barreira humana de soldados já tinha cercado grande parte da saída norte, a qual dava direto na cidade. Giddy viu o que o esperava e deu meia-volta. Ao se virar, um cão infernal disfarçado saiu das sombras de uma criança e saltou em cima dele. A mordida em seu braço direito quase o fez largar uma das espadas, mas a mão livre cravou a lâmina no animal e o matou.

A mulher meio-cobra ainda estava viva e tentou capturar o semideus com uma rede boleadeira. Ágil como só, o moreno ativou as asas e ganhou altitude afim de escapar do projétil. Escolha errada. No ar, ele foi um alvo fácil para as armas de fogo e então uma chuva de tiros teve início. O demônio instintivamente usou as asas para se proteger, mas um dos tiros atingiu seu ombro esquerdo.

Ferido, ele caiu no chão e assistiu a todos se atacarem e discutirem. Não fossem os selos da discórdia agindo sobre os mortais e monstros, teria sido pego naquele instante. Não obstante, uma menininha o encarou e sorriu. Ela parecia reluzir em meio ao cenário, como se fosse uma aparição ou uma intervenção divina. Em sua cabeça, uma coroa de papoulas recaía sobre os fios castanhos e encaracolados.

Convicto de que aquele era mesmo o sinal de sua deusa, Gideon se levantou e correu como pôde em direção à criança. A menina passou pela bilheteria e seguiu em direção ao estacionamento de ônibus. Recorrendo à invisibilidade novamente, ele manteve-se despercebido na medida do possível (afinal, o que não faltava era distração para os outros). A caminhada pelos veículos deu em um matagal e, após correr pelo mato, os dois alcançaram um pequeno rio.

Espera! — tentou gritar para a garota, mas esta continuou a correr em sentindo conjunto à correnteza.

Zero ousou seguir a figura infantil, mas seus ferimentos o impossibilitaram de continuar e logo a perdeu de vista. Já era fim de tarde quando o demônio se encostou em uma das árvores para descansar, após horas seguindo o rio. A cápsula enfiada em sua carne precisava se retirada, porém o risco de remover o projétil sem equipamentos decentes era alto.

Arriscando a própria vida, Gideon usou as próprias garras para alcançar a bala na parte fronta do ombro. Com a ponta delas, retirou o objeto de dentro do corpo e então o jogou na água. Um grito gutural assustou os pássaros da região, pela dor tamanha da remoção. Com as mãos sobre um pedaço da camisa que tinha rasgado para estancar o sangramento, ele se arrastou até a parte interna que beirava o riacho para se acolher nas sombras de início de noite.

Aquele era o oitavo dia desde o início da missão e, ao mesmo tempo em que parecia estar perto de seu destino, não sabia para onde seguir. As instruções tinham sido claras: ir ao Maine e recuperar a coroa. Mas àquela altura ele já estava lá e o paradeiro do lago congelado, onde supostamente o artefato estaria, era desconhecido.

Quando menos percebeu, seus olhos começaram a pesar e o sono o pegou. Exausto e fraco por conta do sangue perdido, o aliado de Nyx adormeceu por algumas horas até que o barulho dos cães o acordou. Alarmado, ele notou que o ferimento já tinha se fechado por conta da cura sobrenatural e que os agentes estavam na sua cola.

A geada da divisa com o Canadá já caía de maneira forte quando o semideus voltou a correr pela floresta densa. A perseguição com direito a latidos, lanterna e gritos durou por longos minutos. Gideon estava cansado e, não fosse a aura noturna que aumentava seus atributos físicos, provavelmente teria caído de exaustão.

Em determinado momento, quando os soldados do governo já estavam na cola do fugitivo, o chão de terra com galhos deu lugar a um grande ringue de patinação. Ou pelo menos foi a primeira impressão que o demônio teve. Toda a superfície do solo era branca e lisa. Pisar era perigoso, pois sem fricção adequada nas solas dos pés ou controle corporal avançado qualquer um poderia derrapar e cair.

O lago congelado — sussurrou, incrédulo.

Ele sabia que, no meio mágico, encontros predestinados aconteciam com mais frequência que o esperado. Objetos especiais que iam até seus escolhidos, ou locais que apareciam para quem necessitasse. Todavia, aquele caso fora específico e perfeito demais. A oportunidade de agarrar o item e fugir estava ao alcance do meio-sangue, mas sua ganância mais uma vez falou mais alto.

Disposto a eliminar a oposição primeiro, as asas de morcego apareceram nas costas do filho de Eros e então ele planou. Como uma figura divina no céu escuro em meio ao nada, aqueles eram os pecadores e o anjo caído o carrasco.

"Faça-os pagar", Mamon pregou na mente do rapaz.

Uma chuva de espinhos contrapôs a chuva de balas e projéteis dos dos tipos caíram sobre a superfície do lago. Ao abrir a boca, o capeta expeliu uma névoa negra e esta cobriu todo o cenário. Com os agentes cegos, Zero, que enxergava normalmente, mergulhou e fez seu banquete reluzente. Ao fim do nevoeiro, inúmeras estátuas de ouro brilharam para desespero dos sobreviventes.

Mesmo com a desvantagem e medo, os mortais treinados para aquilo continuaram a atirar. Foi praticamente impossível para eles conseguir atingir um tiro que fosse, devido à velocidade alta do demônio de asas - e, para complementar, quando alguma cápsula conseguia atingir a direção certa, os tentáculos surgiam para levar o tiro no lugar.

O maior momento de tensão foi quando Giddy repetiu o mergulho e um dos homens desviou de seu toque. Ao contrário, este que tocou o garoto ao puxá-lo pelo pé. O puxão derrubou o semideus e o deixou vulnerável - além de dolorido pela pancada contra o gelo. Caído, ele fechou as asas para se proteger dos ataques físicos e então as abriu com força máxima para empurrar os agressores.

De pé em um salto, o grego atirou mais espinhos com os membros de morcego e matou quase todos seus oponentes. Somente um deles restou de pé, ferido demais para segurar qualquer arma, mas persistente o suficiente para falar.

— O que é você — o homem perguntou, em uma mistura de bravura por continuar a encarar o demônio e temor devido ao mesmo ato.

O que sou eu? — Avareza assumiu o controle do corpo. — Eu sou a razão de vocês mortais acordarem todo dia. Eu sou o sentido do mundo, o combustível da vida. Eu sou aquilo que te fez vir atrás de mim, mesmo sabendo que seria sua sentença de morte — um sorriso demoníaco foi exibido ao fim do discurso, seguido pelo bote que matou o último mortal de pé.

Sangue, cadáveres e ouro decoravam o lago congelado. Gideon sentiu os ferimentos da batalha de maneira intensa, mas a escuridão que não o abandonava nunca fez a dor passar. Seu sangue negro parou de escorrer e então o brilho chamou a atenção do enviado de Nyx. Em meio ao caos e morte, a figura da coroa reluzia abaixo da espessa camada de gelo.

Cox usou toda a sua força para quebrar uma parte do gelo e então, destemido, mergulhou. A água gelada fez com que seu corpo quente da batalha sofresse um choque térmico. Por um minuto inteiro ele afundou sem controle das ações, segurando a respiração ao máximo. A morte pareceu seu fim quando subiu novamente, dando graças ao oxigênio por poder respirar.

Tremendo e traumatizado, ele xingou o nada por não conseguir alcançar o que queria ali embaixo. Aquela não seria a primeira vez em que seu objetivo escaparia bem diante de seus olhos. Não obstante, seria a última. Em um momento de lucidez e inteligência, o daemon se lembrou da garotinha que o guiara para fora do perigo na rodoviária. A tiara que ela carregava na cabeça tinha sido a mensagem que precisava para distingui-la.

Eu vejo você — Giddy se virou para uma das árvores que beiravam o lago e, em seu topo, a coroa de papoulas cintilava pendurada entre os galhos.

Com o item em mãos, o demônio entrou novamente na floresta e, lá, acendeu uma fogueira. Em uma prece silenciosa, breve e objetiva, ele jogou o item sagrado nas chamas e o assistiu ser consumido por estas. Aquela era a maneira grega de dedicar algo aos deuses e, ao mesmo tempo, a mais rápida de entregar-lhes algo.

Tão rápido quanto a fumaça que ascendeu aos céus, o demônio desapareceu na escuridão do local. Em seu rastro, apenas sangue e ouro. Uma combinação comum nos termos mundanos e que parecia tecer as ações obscuras de Gideon Cox, como em:

As crônicas de sangue e ouro.

Arma utilizada:
 

habilidades - demônio de nyx:
 

Habilidades - Filho de Eros:
 

Habilidades - Legado de Hades:
 

 

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MensagemAssunto: Re: Missão Reciclada   Qui Set 06, 2018 5:46 am

God ends Here
"Pensando em conseguir de uma só vez todos os ovos de ouro que a galinha poderia lhe dar, ele a matou e a abriu apenas para descobrir que não havia nada dentro dela."
— Esopo


O padre recitava os nomes sem intervalo, jogando para os fiéis a rápida e passageira chance de pescar aquele que o acometesse. A missa que parecia não ter fim abrigava incontáveis cristãos durante a tarde chuvosa de seis de setembro. Era possível ouvir o som dos carros no transito de Nova York mesmo dentro da igreja, mas isso não parecia incomodar ninguém ali dentro com exceção de uma pessoa.

Gideon estava sentado na terceira fileira mais próxima do altar. Com um robe preto cobrindo todo seu tronco, seus cabelos negros caíam sobre suas mãos juntas para a reza. O momento de quase silêncio para os pedidos e bons votos era aproveitado por ele, que sussurrava de olhos fechados seus anseios e pensamentos positivos.

Aquela era a missa de sétimo dia da morte de Margareth, a ex-agente da Seita que havia sido assassinada pelo demônio ali presente. Postado ao lado do viúvo, o jovem adulto se passava como o perfeito sobrinho distante que tinha recém descoberto a tia já quando a tinha perdido para todo o sempre. E ele era excepcional naquilo. Desde as lágrimas aos murmúrios de lamento pela perda, consolando seu tão alegado e querido tio naquele momento de infortúnio.

Ainda que empenhado em conquistar a confiança do homem, pois julgava que ele ainda era uma conexão com a organização governamental, a voz em sua cabeça não o deixava em paz. Desde o encontro com Moros, o deus do destino, quando Cox havia perdido todas as lembranças e sido varrido da memória global, aquela entidade não tinha saído de seu encalço. Ela o instigava a se comportar de maneira diferente. O encorajava a realizar atos impensáveis. Sussurrava desejos até então desconhecidos a ele.

Mesmo ali, em meio a uma missão, ela não o deixava em paz.

— Olhe ao seu redor. Veja como reluz — a voz da entidade referia-se ao dourado da decoração da paróquia.

Como uma igreja tradicional e inspirada no movimento cultural gótico, que perdurou-se até o advento do Renascimento Italiano, os adornos e detalhes tridimensionais folheados a ouro eram o maior destaque do local. Até mesmo as pinturas a óleo eram emolduradas em ouro e os vitrais dos janelões tinham seus acabamentos em mesmo material.

— Não é lindo? — ela perguntou bem no cantinho de sua mente.

A resposta era óbvia: sim. No entanto, ele não se sentia atraído por nada daquilo. Em verdade, pouco se importava com os valores daquelas peças ou o que elas poderiam lhe garantir. Mister M, como a entidade gostava de ser chamada, estava junto do semideus a mando de Nyx para vigiá-lo e guiá-lo durante a nova etapa de sua jornada, mas havia algo extra. Uma conexão entre ambos, motivo pela qual a deusa escolhera aquela dupla em específico. Só que mesmo o visitante não conseguia entender o que os conectava.

Eram como dois opostos: um cheio de desejos e cobiças e o outro vazio de ânsias e apegos.

Entrarei em contato assim que possível, tio — o meio-sangue beijou a mão do viúvo, conforme se despediu deste na entrada da igreja. Não podia arriscar andar por aí acompanhado do mortal, então se aproveitou do fluxo de pessoas pós-missa para sumir logo após a despedida.

Naquela noite, Gideon sonhou com um local até então desconhecido para ele. Sem lembranças dos dias anteriores àquele, o sonho foi recebido com surpresa pelo rapaz que não sabia como se portar em um. A obviedade de que não se tratava de uma realidade ficou clara nas paredes escuras e psicodélicas do corredor, todavia as sensações eram reais demais para se duvidar.

Uma voz sedutora instigava o jovem a caminhar em sua direção. Ela dizia que o que ele procurava estava atrás da porta ao fim do corredor, mas o que estava escrito na mesma porta o deixou arrepiado. "Deus termina aqui" era uma referência clara a uma passagem bíblica de Apocalipse, na ala secreta de uma abadia onde outrora demônios foram invocados.

Ver aquilo fez com que o coração do semideus acelerasse. Um medo sem igual tomou conta de todo seu corpo e seus membros estremeceram. Ele não se recordava de ser tão religioso assim, contudo aquela citação havia de fato mexido com seu âmago. Mesmo temoroso, seus passos rumaram em direção ao proibido e, quando encostou na madeira entalhada, a porta se abriu e com uma ventania forte o sugou para a escuridão.

— Ei. Você não pode ficar aqui — um porteiro velho acordou o garoto do pesadelo.

Deitado sobre o concreto do terraço de um prédio aleatório, o meio-sangue abriu os olhos de supetão pela claridade do amanhecer. Sua respiração estava pesada e o suor do nervosismo tinha encharcado a camiseta que vestia por baixo do robe. Atordoado, ele virou a cabeça para o lado e reparou no mortal que o estava enxotando daquele lugar.

Se fosse Gideon em plena consciência, uma simples desculpa embebida em charme bastaria. Porém, havia alguém mais junto dele naquele momento. Mister M lembrou ao menino de que ele tinha o direito de estar ali. De que o não ter nada era revoltante e que aquela era a prova maior de que o poder movia o mundo. Então por um momento o grego foi movido pelo interesse. Aquele lugar, por mais tosco e desaconchegante que fosse, era dele e o velho não o tomaria de si.

Eu posso ficar onde eu quiser, porque em breve o mundo será nosso novamente — respondeu com um sorriso sombrio antes de usar os poderes de Hades para sufocar o homem até a morte.

O barulho das sirenes da polícia já estavam desparecendo no fundo quando o demônio se perdeu novamente em meio às ruas da cidade. Estava se sentindo estranho sobre o assassinato, como se fazer o certo parecesse errado. Ou seria o contrário? A incerteza sobre tudo o que fazia parecia ser a única certeza em sua vida - além de Nyx, claro.

Focar na deusa e seu objetivo maior deu uma direção ao semideus que não sabia para onde seguir. De olhos fechados em um beco, ele se concentrou na voz de Moros. De acordo com o deus, bastava que o receptáculo se concentrasse na escuridão para encontrar onde estavam as flechas. Três delas estavam espalhadas ao redor do país. Fragmentos do poder maior do deus do destino, que tinha sido estilhaçado com o passar do tempo.

Gideon era o receptáculo do deus menor, não diretamente pois mesmo sendo um demônio carregar toda a essência de uma divindade era demais, então com a ajuda dele estava em busca de reagrupar as fontes de seu poder e por o plano da Noite em prática. Sendo aquele o ponto final antes de estagnar nas décadas, a primeira flecha estava em algum lugar daquela metrópole.

Paróquia de São Peter — falou em voz alta o que leu na visão.

Um pequeno calafrio percorreu a espinha de Zero. Até algumas horas antes ele tinha tido um pesadelo envolvendo um local "sagrado" e estava atrás de outro local de mesmo cunho. Porém, Mister M interrompeu o momento e lembrou ao garoto de que havia um encontro marcado com Ellioth em uma cafeteria próxima. Seria prudente de sua parte comparecer, para não perder contato com seu "infiltrado" e comprometer a missão paralela. De acordo com isso - e levemente assustado com o destino posterior -, ele rumou em direção ao tal encontro.

Já na cafeteria, Cox aguardou por dez minutos antes de receber o homem à mesa. O viúvo, que apesar de não muito velho, tinha rugas por toda a testa mesmo quando sereno. Contudo, durante o encontro, uma fricção exagerada em sua epiderme era evidente pela constante expressão de preocupação. Gideon conversou sobre o futuro do "tio" e de como as coisas andavam, mas não pôde evitar notar que algo estava errado.

Os nespressos do tipo ristretto pedidos por ambos estavam esfriando na mesa enquanto a conversa fluía. O meio-sangue reparou na inquietude das mãos de sua companhia, que continuava a mexer no café com a colher sem parar. A movimentação dentro da loja de frente para o Central Park estava escassa mesmo para o primeiro horário do dia. Entretanto, somente quando ele viu pelas vidraças que substituíam as paredes frontais o carro preto parar lá fora, entendeu o que estava acontecendo.

Há algo que queira me contar, tio? — indagou de maneira calma, seguido por uma golada única e finalizadora na bebida fria.

— N-não — o homem engoliu em seco. No instante depois, um casal suspeito adentrou o local e se sentou ao balcão.

Sei que está mentindo — disparou sem firulas ou simpatia, o que deu ainda mais convicção à sua afirmação.

— Eles disseram coisas absurdas a seu respeito. Que você estava me enganando — se apoiou sobre a mesa e colocou a mão à boca para sussurrar — que era um deles.

Um deles? — levantou a cabeça para olhar o outro de cima.

— S-sim. Uma — Ellioth se engasgou — uma das aberrações.

O diálogo foi interrompido por um sacar rápido de armas por parte do casal recém-chegado. Gideon já previa aquilo, então quando ameaçado pelos dois, desapareceu em um piscar de olhos sem deixar rastros. A bendita invisibilidade de Eros caiu como uma luva para a situação. Invisível, o semideus considerou correr para os fundos da cafetaria, mas a entidade o impediu. Ela estava agitada e furiosa. Queria que ele mostrasse aos agentes da Seita em posse de quem estava o controle daquela situação.

E ele mostrou aos insolentes.

Ao romper o primeiro selo, Zero transferiu todo o medo acumulado dentro dele para seus inimigos. O alívio causado por isso deixou a sensação de observar as pessoas no recinto em pânico ainda melhor. Mesmo os membros da organização não resistiram à aura e abaixaram as armas. O demônio se aproveitou disso para correr em direção a eles (já que sua invisibilidade não era perfeita e se mover acabava denunciando sua imagem). Com o garfo que vinha junto dos talheres das mesas, ele espetou um dos olhos da mulher e a derrubou.

A brutalidade da cena espantou todos os mortais ali presentes com exceção dos envolvidos na confusão. Giddy inutilizou um de seus oponentes, mas o outro reagiu à ação. Recorrendo à arma de fogo, o homem disparou duas vezes contra o jovem adulto. O primeiro tirou atingiu o ombro esquerdo do alvo de raspão e o segundo foi protegido por um tentáculo negro.

— O-o que — Ellioth assistia ao combate abaixado sobre a mesa.

Sinto muito, tio. Não queria que você soubesse essa pequena verdade a meu respeito — ele debochou com um sorriso largo estampado no rosto.

Os tentáculos surgiram a partir das costelas do daemon e se esticaram para agarrar o agente armado. O toque da mucosa do membro intensificou o medo no mortal e o deixou agonizando enquanto sufocava no apertão. A entidade riu na mente do garoto, completamente entretida e satisfeita com a posse do poder em meio ao momento. Entretanto, a mulher ferida conseguiu pegar a arma novamente e, mesmo cega de um olho e caída no chão, atirou no meio-sangue.

A bala atingiu a coxa direita de Gideon e ele mordeu a língua instintivamente. Só não caiu ali mesmo porque conseguiu se apoiar no balcão. O sangue do demônio ferveu e ele se virou como pôde para também agarrar a mulher e a sufocar com os tentáculos. Se continuasse assim seria capaz de torturar ambos antes de os matar, mas as portas do carro preto fora da cafeteria se abriram e mais pessoas desceram delas. Mister M tomou controle da situação e fez com que o legado de Hades abrisse o segundo selo.

Todos na região começaram a se estranhar, movidos pela desconfiança súbita e isso os distraiu. Mesmo os agentes da Seita, que eram aliados entre si, perderam tempo com discussões bobas. Aquela era a oportunidade perfeita de sequestrar um deles, pensou. A ganancia fez com que ele tentasse arrastar o homem que já estava em seus tentáculos.

— Você não vai conseguir levar ele, fuja — Ellioth tentou alertar, ainda compadecido e provavelmente louco por defender o semideus.

Não! Eu preciso dele — sua voz soou demoníaca demais, como se não fosse o garoto respondendo sozinho.

E não era.

O efeito do segundo selo não perduraria por muito tempo. O ferimento a bala tinha enfraquecido o meio-mortal demais e continuar usando os tentáculos apenas forçava ainda mais a ferida. Ainda assim, Zero tentou ao máximo e, somente quando viu os outros agentes entrando na cafeteria, fugiu. Com a ajuda das sombras dos fundos do estabelecimento, ele viajou por elas até um armazém seguro na mesma cidade.

Havia muita poeira no grande salão e a luz solar entrava muito fracamente pelos vãos entre as janelas. Aquele lugar era utilizado pelos demônios de Nyx sempre que precisavam se esconder pela região, contudo ele encontrava-se desativado há um bom tempo. Os equipamentos para cuidados médicos ainda estavam lá, conforme avisado pela deusa, mas era difícil para ele - com toda a fraqueza do momento -, realizar os procedimentos adequados.

Vou morrer por sua causa — culpou a voz em sua cabeça, enquanto se olhava no espelho para tentar retirar a cápsula da coxa.

— Você que insistiu em tentar arrastar um deles — ela respondeu de maneira calma.

Porque você me disse para fazer isso! — vociferou, segurando as lágrimas por conta da dor de mexer na própria carne.

— Eu não disse nada. A iniciativa partiu de você, meu apreciado — e era verdade. Tão verdade, que Giddy se tocou de que não tinha mesmo a escutado falar nada naquele momento.

Um sentimento de culpa o impediu de continuar o tratamento. Frustrado, ele se jogou no colchão velho ao chão e fechou os olhos. Já não reconhecia as próprias ações, tampouco sabia a quem atribuí-las. Era difícil para manter a sanidade com tantos pensamentos diversos na cabeça. Para piorar, ainda tinha a incerteza sobre quem de fato era.

— Seus batimentos estão ficando fracos. Você se arriscou demais ao viajar pelas sombras assim — ela voltou a falar — seu corpo está parando de reagir e agora virá o sono. Reaja ou morra, Gideon.

As palavras atingiram o semideus da mesma maneira que o tiro: forte e rápida. Movido pela vontade de viver, ou melhor, sobreviver, o helênico se levantou como pôde e continuou o que tinha de fazer. A escuridão ambiente ajudava no processo de cura, já que como legado do rei do submundo e demônio, ela o curava. Todavia, todo o processo de pressão nos músculos, remoção de projétil e esterilização foi difícil.

Mister M auxiliou seu protegido no que deveria fazer, instruindo-o com seu saber vasto e antigo. Por sorte havia o que enrolar ao redor da coxa para manter a ferida fechada. Fora de perigo, Zero se permitiu descansar por algumas horas. Em seu descanso, acabou caindo no sono novamente e dessa vez sonhou com algo diferente.

A época parecia ser outra, uma muito antiga a julgar pelas construções rústicas e a vestimenta das pessoas na rua. Gideon estava andando sem destino pelo chão de terra quando foi parado por uma garota. Ela segurou em sua mão e o arrastou para longe dali. O idioma em que ela falava não lhe era conhecido, mas seu sorriso era tão belo e convincente que bastava.

Os dois correram pelos grandes portões da cidade e depois por um campo florido. Atravessaram um bosque denso e um rio raso. Depois, o caminho de terra surgiu novamente e deu em um castelo acinzentado. O jovem percebeu que havia algo familiar naquele castelo, como se o conhecesse de algum lugar. Quando prestou atenção, ainda ao longe, notou que na verdade aquilo era uma abadia.

Lá dentro, eles atravessaram os corredores por onde as freiras caminhavam silenciosamente. Foi somente nessa parte que ele percebeu que desde a cidade, onde o sonho começara, que não havia som. Sem conseguir parar de ser arrastado pela mão, ele olhou de canto de olho os grandes salões laterais onde as noviças realizavam seus votos.

A boca do meio-sangue se abriu para protestar contra aquilo, mas nem mesmo ele conseguia se ouvir. Todo o cenário religioso trouxe a si lembranças até então perdidas. Flashes de cenas onde ele, mais novo, brincava pelo pátio de uma igreja. Uma figura estranha o observava sentada em um banco próximo. Era uma mulher. Seu rosto estava embaçado e a criança não conseguia focar nela. O momento transitava entre a primeira e a terceira pessoa, o que o enlouquecia.

Quando fez toda a força para se soltar da menina que o arrastava, viu que estava no mesmo corredor de antes. A porta com o dizer satânico e pesado o aguardava. Não tinha para onde correr. Não havia o que fazer. Desesperado, o rapaz fechou os olhos e literalmente rezou para que aquilo parasse.

— Tolinho, Deus não vai te proteger aqui — uma voz masculina estranha o arrepiou todo e então o sonho acabou.

Acordado e suando de maneira descontrolada novamente, Cox abriu as cortinas que cobriam as janelas do armazém e percebeu que já era noite. Sua perna ainda estava dolorida, mas a cura sobrenatural já tinha dado jeito na maior parte da cicatrização. Pela primeira vez em dias, o erote se sentiu sozinho de fato. A entidade parecia ter sossegado em sua cabeça, o que tornava o silêncio agradável - embora ele passasse a sensação de ainda estar no sonho.

No banho, toda a sujeira do dia escorreu por sua pele e escorreu pelo ralo. Aquele era o momento mais humano e frágil do daemon desde a maldição da memória. Ele tentou chorar. Chorar por conta do medo, das incertezas e das coisas ruins que fizera, mas não conseguiu. Quando colocou a mesma roupa, comeu um dos biscoitos que havia comprado na cafeteria e, antes que pudesse fazer qualquer outra coisa, ouviu o barulho do portão sendo forçado.

Alguém o tinha descoberto ali. Sem perder tempo, Gideon saiu pela janela dos fundos e fugiu. Não era possível para ele andar com velocidade, já que sua coxa ainda estava machucada. Assim, andou como pôde até um diner aleatório onde se sentou para comer. Na televisão, a notícia da confusão na cafeteria de mais cedo estampava todos os noticiários. As câmeras não tinham conseguido pegar o rosto do semideus, mas ainda assim era perigoso continuar por ali.

Determinado a cair fora daquela cidade, ele decidiu ir até seu destino final para se livrar de Nova York de uma vez por todas. Moros já tinha dito para onde ir e como chegar lá, então bastou que Cox colocasse todo seu temor de lado para pegar um táxi. Durante o trajeto, o taxista começou a conversar sobre a rixa entre a Uber e os táxis. Um papo completamente relevante para o mortal, mas tedioso para o semi-imortal. Somente um trecho da conversa foi relevante:

— Por isso que não acredito mais nesse governo — o motorista disse — a única coisa em que se pode ter fé é o dinheiro.

Gideon não conseguiu evitar a risada. — Com isso eu concordo.

Ao fim do trajeto, uma igreja antiga e bela estava postada em um terreno baldio. A área estava para construção de algum edifício moderno, mas a paróquia provavelmente era a única coisa no caminho da obra. Seu exterior era todo cinza, com pilastras adornadas em ouro e carmesim. A escadaria na frente dava em uma grande porta imensa, a qual parecia trancada por dentro.

Após ter enrolado o taxista que acreditava apenas no dinheiro - e que ironicamente caiu na ladainha do filho de Eros -, o daemon subiu os degraus. Uma ventania forte agitou o robe do menino e fez com que a temperatura caísse. Ele sentiu, ainda ali fora, que uma energia muito poderosa o aguardava dentro daquele lugar.

Só não tinha certeza se era exatamente o que procurava.




vitu



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Última edição por Abramov Levitz em Qui Set 13, 2018 2:45 am, editado 5 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: Missão Reciclada   Sex Set 07, 2018 5:31 am

WHATTHEFUCKEVER.
O cheiro do pelo molhado e encardido do pequeno lobo gigante era forte. Suas pegadas sujas manchavam todos os corredores do palácio por onde passavam. Na boca do animal, um pedaço de osso roído grande demais era arrastado pelo chão enquanto saliva escorria pelos espaços entre os dentes. Mais duas criaturas da mesma raça, só que maiores, corriam atrás daquele filhote. Estavam no encalço do item carregado por este.

Gideon se deparou com a perseguição enquanto se perdia pelos corredores do palacete. Tendo recém-chegado à base, ele mal sabia o caminho de volta para seu quarto. Inclusive, não fosse o conhecimento do evento que estava acontecendo, teria julgado as criaturas à sua frente como inimigas.

Os lobos pararam assim que viram o semideus. O menor de todos se viu encurralado entre o homem e seus agressores, na divisa entre o desconhecido e a provável morte certa. A entidade aliada do meio-sangue reparou que havia algo diferente naquele fugitivo, o que levantou observações.

Apesar do visual acabado, o pequeno animal não parecia estar passando fome. Tampouco seus dentes necessitavam daquele objeto para roer, considerando o quão afiados eles eram. A conclusão mais lógica então foi de que aquele item era especial para o pequenino, provavelmente muito valioso.

Ei, movam-se ordenou aos lobos maiores, usando de sua Mania de Domador para fazer a ordem valer.

Os alvos de seu poder deram meia volta e sumiram pelos corredores escuros novamente, mas o fugitivo permaneceu. Mister M soube naquele momento o que acontecia entre o bicho e o osso. Era mais que um simples sentimento de posse, e uma cobiça.

Tá tudo bem, não vou te machucar o semideus se abaixou e alinhou o olhar de ambos. Precisava fazer o bichinho confiar no que dizia, então não havia porque mentir.

O lobo manteve-se estático em uma posição alarmante por mais alguns instantes. Quando finalmente percebeu que de fato não tinha um inimigo no rapaz, avançou um pouco em sua direção. Giddy estendeu a mão direita para o outro e este sentiu o cheiro de sua pele sem largar o osso - literalmente.

De perto, o meio-sangue notou as feridas no couro do animal. Julgou então que o filhote provavelmente tinha sido resgatado de alguma situação ruim, assim como proposto pelo evento de treino com as mascotes. Ele só não sabia se aquele pequeno indivíduo em específico já tinha um dono.

Posso te ajudar a carregar isso? manteve a mão estendida conforme pediu pela autorização.

Não fosse sua aura de influência sobre animais, seu pedido provavelmente teria sido negado. Contudo, graças a ela, o filho de Eros pôde segurar o osso pesado. Os olhos do filhote brilharam quando viram a cena. Uma profunda confiança se findou entre os dois naquele instante e a entidade riu em sua própria realidade, divertida com a relação.

Com o semideus à frente sendo observado de perto, o lobinho rumou novamente em direção ao centro do palácio. Gideon não ousou olhar para trás ou então quebraria a confiança imposta sobre ele. Dessa forma, limitou-se a dialogar enquanto tentava achar o caminho certo.

Em fato, Cox nunca tinha se interessado por animais de estimação anteriormente. Entretanto, considerando que não sabia se antes de ter a memória apagada ele tivera um, cedeu ao desejo do outro demônio em sua cabeça.

Vamos precisar de um nome para você, ou então não vão acreditar que estamos juntos disse, curioso se o canídeo entendia tudo o que ele falava.

A entidade sussurrou um nome na mente do jovem adulto. Um nome que parecia bobo demais para se levar a sério, como uma versão fajuta de algum cachorro famoso. Todavia, ele remetia ao deus grego da fortuna e, como bem tinha aprendido antes, era uma das traduções perdidas de um outro nome importante.

Ploutos falou em voz alta, decidido.

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MensagemAssunto: Re: Missão Reciclada   Qui Set 13, 2018 3:19 am

GODENDSHERE
"Pensando em conseguir de uma só vez todos os ovos de ouro que a galinha poderia lhe dar, ele a matou e a abriu apenas para descobrir que não havia nada dentro dela."
— Esopo


O padre recitava os nomes sem intervalo, jogando para os fiéis a rápida e passageira chance de pescar aquele que o acometesse. A missa que parecia não ter fim abrigava incontáveis cristãos durante a tarde chuvosa de seis de setembro. Era possível ouvir o som dos carros no transito de Nova York mesmo dentro da igreja, mas isso não parecia incomodar ninguém ali dentro com exceção de uma pessoa.

Gideon estava sentado na terceira fileira mais próxima do altar. Com um robe preto cobrindo todo seu tronco, seus cabelos negros caíam sobre suas mãos juntas para a reza. O momento de quase silêncio para os pedidos e bons votos era aproveitado por ele, que sussurrava de olhos fechados seus anseios e pensamentos positivos.

Aquela era a missa de sétimo dia da morte de Margareth, a ex-agente da Seita que havia sido assassinada pelo demônio ali presente. Postado ao lado do viúvo, o jovem adulto se passava como o perfeito sobrinho distante que tinha recém descoberto a tia já quando a tinha perdido para todo o sempre. E ele era excepcional naquilo. Desde as lágrimas aos murmúrios de lamento pela perda, consolando seu tão alegado e querido tio naquele momento de infortúnio.

Ainda que empenhado em conquistar a confiança do homem, pois julgava que ele ainda era uma conexão com a organização governamental, a voz em sua cabeça não o deixava em paz. Desde o encontro com Moros, o deus do destino, quando Cox havia perdido todas as lembranças e sido varrido da memória global, aquela entidade não tinha saído de seu encalço. Ela o instigava a se comportar de maneira diferente. O encorajava a realizar atos impensáveis. Sussurrava desejos até então desconhecidos a ele.

Mesmo ali, em meio a uma missão, ela não o deixava em paz.

— Olhe ao seu redor. Veja como reluz — a voz da entidade referia-se ao dourado da decoração da paróquia.

Como uma igreja tradicional e inspirada no movimento cultural gótico, que perdurou-se até o advento do Renascimento Italiano, os adornos e detalhes tridimensionais folheados a ouro eram o maior destaque do local. Até mesmo as pinturas a óleo eram emolduradas em ouro e os vitrais dos janelões tinham seus acabamentos em mesmo material.

— Não é lindo? — ela perguntou bem no cantinho de sua mente.

A resposta era óbvia: sim. No entanto, ele não se sentia atraído por nada daquilo. Em verdade, pouco se importava com os valores daquelas peças ou o que elas poderiam lhe garantir. Mister M, como a entidade gostava de ser chamada, estava junto do semideus a mando de Nyx para vigiá-lo e guiá-lo durante a nova etapa de sua jornada, mas havia algo extra. Uma conexão entre ambos, motivo pela qual a deusa escolhera aquela dupla em específico. Só que mesmo o visitante não conseguia entender o que os conectava.

Eram como dois opostos: um cheio de desejos e cobiças e o outro vazio de ânsias e apegos.

Entrarei em contato assim que possível, tio o meio-sangue beijou a mão do viúvo, conforme se despediu deste na entrada da igreja. Não podia arriscar andar por aí acompanhado do mortal, então se aproveitou do fluxo de pessoas pós-missa para sumir logo após a despedida.

Naquela noite, Gideon sonhou com um local até então desconhecido para ele. Sem lembranças dos dias anteriores àquele, o sonho foi recebido com surpresa pelo rapaz que não sabia como se portar em um. A obviedade de que não se tratava de uma realidade ficou clara nas paredes escuras e psicodélicas do corredor, todavia as sensações eram reais demais para se duvidar.

Uma voz sedutora instigava o jovem a caminhar em sua direção. Ela dizia que o que ele procurava estava atrás da porta ao fim do corredor, mas o que estava escrito na mesma porta o deixou arrepiado. "Deus termina aqui" era uma referência clara a uma passagem bíblica de Apocalipse, na ala secreta de uma abadia onde outrora demônios foram invocados.

Ver aquilo fez com que o coração do semideus acelerasse. Um medo sem igual tomou conta de todo seu corpo e seus membros estremeceram. Ele não se recordava de ser tão religioso assim, contudo aquela citação havia de fato mexido com seu âmago. Mesmo temoroso, seus passos rumaram em direção ao proibido e, quando encostou na madeira entalhada, a porta se abriu e com uma ventania forte o sugou para a escuridão.

— Ei. Você não pode ficar aqui — um porteiro velho acordou o garoto do pesadelo.

Deitado sobre o concreto do terraço de um prédio aleatório, o meio-sangue abriu os olhos de supetão pela claridade do amanhecer. Sua respiração estava pesada e o suor do nervosismo tinha encharcado a camiseta que vestia por baixo do robe. Atordoado, ele virou a cabeça para o lado e reparou no mortal que o estava enxotando daquele lugar.

Se fosse Gideon em plena consciência, uma simples desculpa embebida em charme bastaria. Porém, havia alguém mais junto dele naquele momento. Mister M lembrou ao menino de que ele tinha o direito de estar ali. De que o não ter nada era revoltante e que aquela era a prova maior de que o poder movia o mundo. Então por um momento o grego foi movido pelo interesse. Aquele lugar, por mais tosco e desaconchegante que fosse, era dele e o velho não o tomaria de si.

Eu posso ficar onde eu quiser, porque em breve o mundo será nosso novamente respondeu com um sorriso sombrio antes de usar os poderes de Hades para sufocar o homem até a morte.

O barulho das sirenes da polícia já estavam desparecendo no fundo quando o demônio se perdeu novamente em meio às ruas da cidade. Estava se sentindo estranho sobre o assassinato, como se fazer o certo parecesse errado. Ou seria o contrário? A incerteza sobre tudo o que fazia parecia ser a única certeza em sua vida - além de Nyx, claro.

Focar na deusa e seu objetivo maior deu uma direção ao semideus que não sabia para onde seguir. De olhos fechados em um beco, ele se concentrou na voz de Moros. De acordo com o deus, bastava que o receptáculo se concentrasse na escuridão para encontrar onde estavam as flechas. Três delas estavam espalhadas ao redor do país. Fragmentos do poder maior do deus do destino, que tinha sido estilhaçado com o passar do tempo.

Gideon era o receptáculo do deus menor, não diretamente pois mesmo sendo um demônio carregar toda a essência de uma divindade era demais, então com a ajuda dele estava em busca de reagrupar as fontes de seu poder e por o plano da Noite em prática. Sendo aquele o ponto final antes de estagnar nas décadas, a primeira flecha estava em algum lugar daquela metrópole.

Paróquia de São Peter falou em voz alta o que leu na visão.

Um pequeno calafrio percorreu a espinha de Zero. Até algumas horas antes ele tinha tido um pesadelo envolvendo um local "sagrado" e estava atrás de outro local de mesmo cunho. Porém, Mister M interrompeu o momento e lembrou ao garoto de que havia um encontro marcado com Ellioth em uma cafeteria próxima. Seria prudente de sua parte comparecer, para não perder contato com seu "infiltrado" e comprometer a missão paralela. De acordo com isso - e levemente assustado com o destino posterior -, ele rumou em direção ao tal encontro.

Já na cafeteria, Cox aguardou por dez minutos antes de receber o homem à mesa. O viúvo, que apesar de não muito velho, tinha rugas por toda a testa mesmo quando sereno. Contudo, durante o encontro, uma fricção exagerada em sua epiderme era evidente pela constante expressão de preocupação. Gideon conversou sobre o futuro do "tio" e de como as coisas andavam, mas não pôde evitar notar que algo estava errado.

Os nespressos do tipo ristretto pedidos por ambos estavam esfriando na mesa enquanto a conversa fluía. O meio-sangue reparou na inquietude das mãos de sua companhia, que continuava a mexer no café com a colher sem parar. A movimentação dentro da loja de frente para o Central Park estava escassa mesmo para o primeiro horário do dia. Entretanto, somente quando ele viu pelas vidraças que substituíam as paredes frontais o carro preto parar lá fora, entendeu o que estava acontecendo.

Há algo que queira me contar, tio? indagou de maneira calma, seguido por uma golada única e finalizadora na bebida fria.

— N-não — o homem engoliu em seco. No instante depois, um casal suspeito adentrou o local e se sentou ao balcão.

Sei que está mentindo disparou sem firulas ou simpatia, o que deu ainda mais convicção à sua afirmação.

— Eles disseram coisas absurdas a seu respeito. Que você estava me enganando — se apoiou sobre a mesa e colocou a mão à boca para sussurrar — que era um deles.

Um deles? levantou a cabeça para olhar o outro de cima.

— S-sim. Uma — Ellioth se engasgou — uma das aberrações.

O diálogo foi interrompido por um sacar rápido de armas por parte do casal recém-chegado. Gideon já previa aquilo, então quando ameaçado pelos dois, desapareceu em um piscar de olhos sem deixar rastros. A bendita invisibilidade de Eros caiu como uma luva para a situação. Invisível, o semideus considerou correr para os fundos da cafetaria, mas a entidade o impediu. Ela estava agitada e furiosa. Queria que ele mostrasse aos agentes da Seita em posse de quem estava o controle daquela situação.

E ele mostrou aos insolentes.

Ao romper o primeiro selo, Zero transferiu todo o medo acumulado dentro dele para seus inimigos. O alívio causado por isso deixou a sensação de observar as pessoas no recinto em pânico ainda melhor. Mesmo os membros da organização não resistiram à aura e abaixaram as armas. O demônio se aproveitou disso para correr em direção a eles (já que sua invisibilidade não era perfeita e se mover acabava denunciando sua imagem). Com o garfo que vinha junto dos talheres das mesas, ele espetou um dos olhos da mulher e a derrubou.

A brutalidade da cena espantou todos os mortais ali presentes com exceção dos envolvidos na confusão. Giddy inutilizou um de seus oponentes, mas o outro reagiu à ação. Recorrendo à arma de fogo, o homem disparou duas vezes contra o jovem adulto. O primeiro tirou atingiu o ombro esquerdo do alvo de raspão e o segundo foi protegido por um tentáculo negro.

— O-o que — Ellioth assistia ao combate abaixado sobre a mesa.

Sinto muito, tio. Não queria que você presenciasse isso ele debochou com um sorriso largo estampado no rosto.

Os tentáculos surgiram a partir das costelas do daemon e se esticaram para agarrar o agente armado. O toque da mucosa do membro intensificou o medo no mortal e o deixou agonizando enquanto sufocava no apertão. A entidade riu na mente do garoto, completamente entretida e satisfeita com a posse do poder em meio ao momento. Entretanto, a mulher ferida conseguiu pegar a arma novamente e, mesmo cega de um olho e caída no chão, atirou no meio-sangue.

A bala atingiu a coxa direita de Gideon e ele mordeu a língua instintivamente. Só não caiu ali mesmo porque conseguiu se apoiar no balcão. O sangue do demônio ferveu e ele se virou como pôde para também agarrar a mulher e a sufocar com os tentáculos. Se continuasse assim seria capaz de torturar ambos antes de os matar, mas as portas do carro preto fora da cafeteria se abriram e mais pessoas desceram delas. Mister M tomou controle da situação e fez com que o legado de Hades abrisse o segundo selo.

Todos na região começaram a se estranhar, movidos pela desconfiança súbita e isso os distraiu. Mesmo os agentes da Seita, que eram aliados entre si, perderam tempo com discussões bobas. Aquela era a oportunidade perfeita de sequestrar um deles, pensou. A ganancia fez com que ele tentasse arrastar o homem que já estava em seus tentáculos.

— Você não vai conseguir levar ele, fuja — Ellioth tentou alertar, ainda compadecido e provavelmente louco por defender o semideus.

Não! Eu preciso dele sua voz soou demoníaca demais, como se não fosse o garoto respondendo sozinho.

E não era.

O efeito do segundo selo não perduraria por muito tempo. O ferimento a bala tinha enfraquecido o meio-mortal demais e continuar usando os tentáculos apenas forçava ainda mais a ferida. Ainda assim, Zero tentou ao máximo e, somente quando viu os outros agentes entrando na cafeteria, fugiu. Com a ajuda das sombras dos fundos do estabelecimento, ele viajou por elas até um armazém seguro na mesma cidade.

Havia muita poeira no grande salão e a luz solar entrava muito fracamente pelos vãos entre as janelas. Aquele lugar era utilizado pelos demônios de Nyx sempre que precisavam se esconder pela região, contudo ele encontrava-se desativado há um bom tempo. Os equipamentos para cuidados médicos ainda estavam lá, conforme avisado pela deusa, mas era difícil para ele - com toda a fraqueza do momento -, realizar os procedimentos adequados.

Vou morrer por sua causa culpou a voz em sua cabeça, enquanto se olhava no espelho para tentar retirar a cápsula da coxa.

— Você que insistiu em tentar arrastar um deles — ela respondeu de maneira calma.

Porque você me disse para fazer isso! vociferou, segurando as lágrimas por conta da dor de mexer na própria carne.

— Eu não disse nada. A iniciativa partiu de você, meu apreciado — e era verdade. Tão verdade, que Giddy se tocou de que não tinha mesmo a escutado falar nada naquele momento.

Um sentimento de culpa o impediu de continuar o tratamento. Frustrado, ele se jogou no colchão velho ao chão e fechou os olhos. Já não reconhecia as próprias ações, tampouco sabia a quem atribuí-las. Era difícil manter a sanidade com tantos pensamentos diversos na cabeça. Para piorar, ainda tinha a incerteza sobre quem de fato era.

— Seus batimentos estão ficando fracos. Você se arriscou demais ao viajar pelas sombras assim — ela voltou a falar — seu corpo está parando de reagir e agora virá o sono. Reaja ou morra, Gideon.

As palavras atingiram o semideus da mesma maneira que o tiro: forte e rápida. Movido pela vontade de viver, ou melhor, sobreviver, o helênico se levantou como pôde e continuou o que tinha de fazer. A escuridão ambiente ajudava no processo de cura, já que como legado do rei do submundo e demônio, ela o curava. Todavia, todo o processo de pressão nos músculos, remoção de projétil e esterilização foi difícil.

Mister M auxiliou seu protegido no que deveria fazer, instruindo-o com seu saber vasto e antigo. Por sorte havia o que enrolar ao redor da coxa para manter a ferida fechada. Fora de perigo, Zero se permitiu descansar por algumas horas. Em seu descanso, acabou caindo no sono novamente e dessa vez sonhou com algo diferente.

A época parecia ser outra, uma muito antiga a julgar pelas construções rústicas e a vestimenta das pessoas na rua. Gideon estava andando sem destino pelo chão de terra quando foi parado por uma garota. Ela segurou em sua mão e o arrastou para longe dali. O idioma em que ela falava não lhe era conhecido, mas seu sorriso era tão belo e convincente que bastava.

Os dois correram pelos grandes portões da cidade e depois por um campo florido. Atravessaram um bosque denso e um rio raso. Depois, o caminho de terra surgiu novamente e deu em um castelo acinzentado. O jovem percebeu que havia algo familiar naquele castelo, como se o conhecesse de algum lugar. Quando prestou atenção, ainda ao longe, notou que na verdade aquilo era uma abadia.

Lá dentro, eles atravessaram os corredores por onde as freiras caminhavam silenciosamente. Foi somente nessa parte que ele percebeu que desde a cidade, onde o sonho começara, não havia som. Sem conseguir parar de ser arrastado pela mão, ele olhou de canto de olho os grandes salões laterais onde as noviças realizavam seus votos.

A boca do meio-sangue se abriu para protestar contra aquilo, mas nem mesmo ele conseguia se ouvir. Todo o cenário religioso trouxe a si lembranças até então perdidas. Flashes de cenas onde ele, mais novo, brincava pelo pátio de uma igreja. Uma figura estranha o observava sentada em um banco próximo. Era uma mulher. Seu rosto estava embaçado e a criança não conseguia focar nela. O momento transitava entre a primeira e a terceira pessoa, o que o enlouquecia.

Quando fez toda a força para se soltar da menina que o arrastava, viu que estava no mesmo corredor de antes. A porta com o dizer satânico e pesado o aguardava. Não tinha para onde correr. Não havia o que fazer. Desesperado, o rapaz fechou os olhos e literalmente rezou para que aquilo parasse.

— Tolinho, Deus não vai te proteger aqui — uma voz masculina estranha o arrepiou todo e então o sonho acabou.

Acordado e suando de maneira descontrolada novamente, Cox abriu as cortinas que cobriam as janelas do armazém e percebeu que já era noite. Sua perna ainda estava dolorida, mas a cura sobrenatural já tinha dado jeito na maior parte da cicatrização. Pela primeira vez em dias, o erote se sentiu sozinho de fato. A entidade parecia ter sossegado em sua cabeça, o que tornava o silêncio agradável - embora ele passasse a sensação de ainda estar no sonho.

No banho, toda a sujeira do dia escorreu por sua pele e desceu pelo ralo. Aquele era o momento mais humano e frágil do daemon desde a maldição da memória. Ele tentou chorar. Chorar por conta do medo, das incertezas e das coisas ruins que fizera, mas não conseguiu. Quando colocou a mesma roupa, comeu um dos biscoitos que havia comprado na cafeteria e, antes que pudesse fazer qualquer outra coisa, ouviu o barulho do portão sendo forçado.

Alguém o tinha descoberto ali. Sem perder tempo, Gideon saiu pela janela dos fundos e fugiu. Não era possível para ele se locomover com velocidade, já que sua coxa ainda estava machucada. Assim, andou como pôde até um diner aleatório onde se sentou para comer. Na televisão, a notícia da confusão na cafeteria de mais cedo estampava todos os noticiários. As câmeras não tinham conseguido pegar o rosto do semideus, mas ainda assim era perigoso continuar por ali.

Determinado a cair fora daquela cidade, ele decidiu ir até seu destino final para se livrar de Nova York de uma vez por todas. Moros já tinha dito para onde ir e como chegar lá, então bastou que Cox colocasse todo seu temor de lado para pegar um táxi. Durante o trajeto, o taxista começou a conversar sobre a rixa entre a Uber e os táxis. Um papo completamente relevante para o mortal, mas tedioso para o semi-imortal. Somente um trecho da conversa foi  marcante:

— Por isso que não acredito mais nesse governo — o motorista disse — a única coisa em que se pode ter fé é o dinheiro.

Gideon não conseguiu evitar a risada. Com isso eu concordo.

Ao fim do trajeto, uma igreja antiga e bela estava postada em um terreno baldio. A área encontrava-se reservada para a construção de algum edifício moderno, mas a paróquia provavelmente era a única coisa no caminho da obra. Seu exterior era todo cinza, com pilastras adornadas em ouro e carmesim. A escadaria na frente dava em uma grande porta imensa, a qual parecia trancada por dentro.

Após ter enrolado o taxista que acreditava apenas no dinheiro - e que ironicamente caiu na ladainha do filho de Eros -, o daemon subiu os degraus. Sua carona o esperaria do lado de fora para uma fuga de emergência, caso necessário. Uma ventania forte agitou o robe do menino e fez com que a temperatura caísse. Ele sentiu, ainda ali fora, que uma energia muito poderosa o aguardava dentro daquele lugar.

Só não tinha certeza se era exatamente o que procurava.

Quando o rapaz se aproximou da entrada, as portas se abriram automaticamente como se já o estivessem aguardando. O estranhamento do ocorrido passou despercebido por ele, que estava acostumado a coisas estranhas sendo quem era. Lá dentro, o hall de entrada (comum em igrejas) era inexistente. No lugar dele, havia de cara o salão principal onde as missas aconteciam.

O altar principal estava no lado oposto à entrada. Entre ele, as cadeiras enfileiradas com espaçamentos curtos encontravam-se vazias. Estátuas diferentes e incomuns estavam postadas nas duas paredes laterais, uma ao lado da outra. Sete delas, contabilizou rápido. Levemente curioso, Zero andou pelas quatro da esquerda e leu seus pedestais.

A primeira era referida como "aquele que tinha caído" e continha em seu espaço a atribuição do orgulho. Seus entalhes no mármore eram belíssimos, com a figura de um homem esguio e com asas. Não havia nada de errado com sua aparência o que, ironicamente, devia ser intencional tratando-se de quem era.

A segunda tinha a luxúria como seu título. Sua aparência era um misto de figuras estranhas, como cabeças de animais saindo de um mesmo tronco. Ao centro dele, a cabeça de um homem mal-encarado encontrava-se destacada do restante.

Ele foi absorvido pelo judaísmo, que o associa ao rei de Sodom. Daí a luxúria comentou sozinho, surpreso por saber daquilo.

— Muito bem — uma voz conhecida falou. Uma figura estranha estava sentada na primeira fileira perto do altar. — Continue, quero saber se conhece todos.

A terceira definitivamente era familiar. Um ser metade humano e metade bode com um pentagrama invertido marcado em seu corpo. A Gula. Em suas costas duas asas grandes encontravam-se abertas assim como sua boca, a qual continua presas imensas.

Sua imagem veio do deus da fertilidade Baal, idolatrado pelos cananeus, mas considerado um falso ídolo pelos cristãos afirmou, para a satisfação de sua companhia.

Quando se virou para continuar andando em direção à quarta, a outra pessoa no recinto pediu que ele voltasse do início pelo outro lado. Que deixasse a quarta estátua por último, pois seria seu maior teste. Sem discordar, Gideon assim o fez.

A Preguiça era a quinta estátua. Ela tinha uma aparência atlética, grande estatura e chifres de carneiro. Sua cabeça era a de um velho com chifres e nariz grandes, além de uma barba espessa e igualmente longa. Porém, o fato mais curioso era a cadeira de rodas na qual estava sentada.

Atribuíam as descobertas e inventos a ele acrescentou os inventos engenhosos trariam riqueza fácil aos homens, tornando-os vítimas da preguiça.

Um som de confirmação foi proferido pela figura misteriosa, o que permitiu sua passagem para a sexta estátua.

A estátua de número seis era também um homem com a metade inferior em características de bode. Contudo, diferente da terceira, sua aparência era mais mortal e nada exagerada - sem as asas ou riscos satânicos. A Ira.

Foi ele quem supostamente teria ensinado aos homens como fabricar armas de guerra falou.

— Por que supostamente? — questionou em um tom que denunciava o saber da resposta.

Porque sua representação é inexata, então essa é apenas uma das versões respondeu.

Ao fim daquela fileira, a sétima estátua tinha as maiores dimensões de de todas. Seu aspecto pendia para um verme gigante ou uma serpente marinha, sem certeza de qual das duas era a verdadeira. Seu pecado era a inveja.

Ela costumava dizer que ele era um dos demônios mais poderosos, capaz de transformar homens em hereges disse em um tom melancólico.

— Ela quem?

Não sei coçou os olhos, um pouco tonto.

Restava então a última das sete estátuas, mais especificamente a quarta. Gideon passou pelo vão entre a primeira e a segunda fileira, por trás de onde a figura estava sentada. De costas para o semideus e com um manto preto cobrindo tudo, ele não pôde ver quem era aquela pessoa. Todavia, foi capaz de observar de cara a última das representações esculpidas.

Avareza disparou ao se aproximar da quarta e última.

A figura de um nobre deformado agarrando um saco cheio continha uma expressão furiosa, como se algo ou alguém estivesse tentando tirar seus bens. O mesmo calafrio dos pesadelos percorreu a espinha do meio-sangue. Ainda que não soubesse como tinha ciência de tudo sobre aqueles pecados e suas histórias, a familiaridade com aquele ídolo em mármore era absurda.

— O que sabe sobre ela? — a figura provocou, ciente do que o outro sentia.

Eu e-eu balbuciou eu n-não, não sei uma forte dor de cabeça fez com que ele fechasse os olhos.

— Sabe sim. Me diga, Gideon — o tom alterou, assumindo um teor mais tirano.

Você não pode servir a Deus e ao dinheiro citou um dos versículos bíblicos de Mateus.

— Qual é o seu nome? Me diga seu nome — inqueriu.

Não posso a dor aumentou, o que o fez levar as mãos à cabeça em um gesto involuntário.

— Pode. Me diga, Gideon, me diga o seu nome — a voz expandiu, como se de alguma forma estivesse engolindo todo o ambiente.

Giddy caiu sobre os joelhos em frente à estátua. O ferimento do tiro em sua perna se abriu novamente e sangue começou a sair dele. Vozes e mais vozes falavam em sua mente. Várias delas ele nunca tinha escutado antes, mas outra lhe eram conhecidas de algum lugar.

Eu não sei o seu nome suplicou, surtando com a mudança de personalidade.

— Sabe sim. Diga e tudo isso passará.

Flashes de cenas desconhecidas voltaram a aparecer em sua cabeça. Momentos que ele havia vivido antes do encontro com Moros, mas que tinham sido perdidos por conta da maldição. Rostos e vozes bagunçadas surgiam aos montes, tornando impossível para ele distinguir o que era o quê. O sangue de sua ferida não parava de sair, formando uma poça rubra imensa ao seu redor.

Todas as lembranças de sua vida que haviam sido descartadas e escondidas em algum canto de sua mente. Tudo o que era seu. Seu bem maior: a sua própria existência. Ele queria tudo de volta. Era sua posse e ninguém tinha o direito de lhe tirar.

Mamon! Mamon é seu nome! gritou com toda a força que tinha, o que expeliu tudo o que tinha guardado dentro de si para fora.

Os olhos do semideus se abriram e suas órbitas embranqueceram por completo. Seus braços se abriram assim como a boca e o sangue ao seu redor assumiu uma forma de pentagrama. Seu corpo tremia enquanto algo parecia tomar controle sobre este.

— Eu te darei tudo o que desejar, meu apreciado. Suas memórias são apenas minha oferta primária. Elas são suas assim como o mundo será nosso novamente. Nos aceite como um só e então nada será capaz de nos parar — a voz recitou, enquanto o ritual satânico acontecia.

Gideon não tinha controle de suas ações, mas estava de acordo com tudo aquilo. Não queria mais não saber quem era ou o que preferia ou não. Se Moros o queria como seu receptáculo, teria de o aceitar daquele jeito ou então que procurasse outra pessoa para ser seu peão.

Pouco a pouco, as memórias de toda a sua vida foram retornando na ordem e de maneira correta. Sangue escorria pelos olhos, orelhas, nariz e boca do meio-sangue. Entretanto, seu aspecto parecia diferente. Ele não estava preto como o de um demônio comum deveria estar. Diferente do normal, uma coloração dourada como ouro tomava conta de suas hemoglobinas. Uma cena verdadeiramente macabra e teatral, como uma obra de arte viva e visceral.

Ao fim dela, Zero conseguiu assumir o controle de seu corpo e todo o sangue havia sumido. Ar voltou a entrar em seus pulmões e ele agarrou o peito em busca dele, assim como um recém-nascido dá o seu primeiro choro abafado. O ferimento em sua perna havia se fechado novamente. Ou talvez ele nunca tivesse sido reaberto.

Eu me lembro agora falou em voz baixa, ainda ajoelhado em frente à estátua.

Um leve dorzinha de cabeça ainda persistia a incomodar o rapaz. Revitalizado, ele se levantou e caminhou até a figura aconchegada na primeira fileira. Sentado ao lado dela, manteve o olhar em direção ao altar central, onde a figura de Jesus Cristo encontrava-se pendurada em uma cruz de cabeça para baixo.

— Isso é bom. Sua plenitude me é vantajosa — a figura se revelou sendo ele mesmo. A única diferença entre os dois eram os olhos, que do demônio possuíam uma coloração completamente preta.

Mamon disse, admirando o outro. Você sou eu e eu sou você.

— Exato. Eu não entendia o porquê de minha senhora nos ter colocado juntos, até que me infiltrei em sua psiquê — levou a destra ao coração do semideus, tocando seu peito com a ponta dos dedos — você carrega um vazio dentro de si que precisa preencher de qualquer forma.

Apesar de não gostar muito de admitir aquilo, o grego sabia muito bem ao que a entidade se referia.

— Sempre fui atrelado à avareza, à sede pelo dinheiro e bens. Mas sou muito mais do que o desejo pelos bens materiais. A fome de afeto que você tem dentro de si não é gula ou luxuária, muito menos inveja ou orgulho. Você não é preguiçoso, porque vai atrás do que almeja e, apesar de se enfurecer contra quem se coloca em seu caminho, sua ganância é o que te move.

Mamon pausou o discurso e agarrou a mão do menino, encarando-o diretamente nos olhos.

— Foi a ganância que te fez retornar ao acampamento quando perdeu sua mãe, desejando poder e proteção. Foi ela o que chamou a atenção de Nyx para seu potencial. Ela foi a responsável por você continuar no encalço de Ellioth, mesmo após tendo matado sua esposa e comprometido toda a missão. Eu quero poder, quero controle. Quero o mundo novamente. E você, meu apreciado, quer tudo isso assim como eu.

As palavras pegaram Gideon de surpresa, pois aquela análise de sua pessoa era perfeita e precisa. Seu apego às coisas era tamanho e, quando tomara a única atitude que contradizia tudo isso - ao ceder suas memórias a Moros -, entrou em um processo de auto-destruição, comprovando que não era capaz de abrir mão do que era seu.

Os dois apertaram a mão, em um pacto silencioso e então todo o cenário mudou. A sala de missa com as estátuas havia dado lugar a um espaço abandonado e destruído. A decoração da paróquia estava vandalizada e nada de valor tinha permanecido a salvo da mão dos saqueadores. Contudo, ainda havia algo ali dentro que detinha um valor imensurável.

E que será meu falou sozinho, guiado pela energia que o atraía para outro cômodo.

Um vão onde outrora uma porta estivera era a única outra saída daquele lugar. Gideon se sentia estranhamente mais forte, como se pudesse enfrentar qualquer coisa que se colocasse em seu caminho. Não obstante, estava com pressa para sair dali e recuperar todo o tempo perdido sem as memórias. Em algum lugar de seu íntimo ele ainda tinha a certeza de que o deus menor estava do seu lado, ou então algo de estranho teria acontecido.

A escuridão dos fundos da igreja não foi um problema para o demônio que enxergava mesmo nela. O problema mesmo foi entender como abrir a câmara secreta ao fim da descida. Ciente de que o que procurava estava ainda mais abaixo que a cripta, o semideus desceu pela escadaria e alcançou o primeiro nível abaixo da terra.

Lá, se deparou com ossos e restos mortais revirados nos túmulos dos padres e sacerdotes. Alguém tinha realizado algum ato profano naquele lugar, o que tornava todo o terreno ao seu redor nada sagrado. Imaginando as cenas sobrenaturais que aconteceriam a quem quer que ousasse morar ou frequentar o edifício que seria construído ali, o garoto se distraiu e acabou não notando a movimentação suspeita.

Os vultos no escuro da cripta pareciam apenas alucinações, mas quando um deles agarrou em seu pé, viu que não era coisa da sua cabeça. Zero foi derrubado e depois arrastado pelo chão. Com gritos altos e tentando chutar a coisa, ele se viu sendo jogado para dentro de uma das covas de pedra. Sabia o que estava acontecendo: um sepultamento forçado.

Ser enterrado vivo era, sem dúvidas alguma, um de seus maiores medos.

Desesperado, o meio-sangue se debateu e quando conseguiu raciocinar melhor, usou as sombras para sair da cova. De pé do lado de fora, ele sentiu o estômago embrulhar por conta do poder exaustivo, mas não recuou. A criatura escura avançou novamente em sua direção, como uma assombração, e quando ela tentou lhe novamente, o impossível aconteceu.

A avareza mostrou seu poder e seu abençoado interceptou o ataque da coisa com a mão direita. O simples toque de sua destra no bicho bastou para ativar o efeito da transformação e, em poucos segundos, uma estátua de ouro surgiu à sua frente. Todos os detalhes do monstro foram preservados, o que dava um ar ainda mais macabro à obra de arte.

Suspirando aliviado, Cox observou sua criação com orgulho. Queria poder expor o que podia fazer. Mostrar a todos seu dom e conquistar o mundo onde o dinheiro vinha sempre em primeiro lugar. Porém, Mamon sussurrou em seu ouvido de que havia ainda um bem maior, algo que precisavam pegar. Movido pelo interesse, o jovem adulto continuou sua jornada descendo pelo segundo lance de escadas.

No segundo nível abaixo da terra, uma sala pequena e iluminada por tochas reservava uma pequena pilastra com um livro pesado sobre a mesma. Gideon folheou o item e, a princípio, não entendeu nada do que estava escrito. As figuras desenhadas nas páginas eram monstruosas e perturbadoras, como demônios antigos. Foi nessa hora em que ele se tocou de que aquele era um livro de invocações e que algum ritual tinha acontecido naquele lugar.

Isso explica os túmulos revirados comentou em voz baixa.

Apesar de toda a atmosfera obscura e misteriosa, não havia mais para onde seguir. A energia que procurava irradiava de todos os pontos daquele lugar, então era impossível determinar o lado certo. Frustrado, ele tateou todas as paredes em vão. Não havia nenhum buraco secreto ou algo do tipo. Era como se aquele fosse o fim.

Deus termina aqui pensou alto, o que o fez acordar para a verdade.

Todos os valores cristãos que ainda carregava dentro de si precisavam ser deixados de lado. Os ensinamentos de sua mãe e o apego desta a Deus eram a coisa mais sagrada da qual ele conseguia se lembrar. Mas como poderia abandonar algo que era tão valioso para si? Simples: trocando algo tão pequeno quanto o amor de um morto por algo infinitamente mais valioso. E aquela troca parecia irrecusável.

Com a ajuda de Mamon, que entendia os escritos do livro, Gideon proferiu as palavras satânicas e iniciou o ritual. Nada de anormal ou especial aconteceu durante este, mas ele sentiu o peso do significado de sua mãe diminuir lentamente em seu peito. Ao fim, nada mais sentia quando pensava na mulher. Ela, que outrora fora seu combustível, já não mais significava nada assim como tudo o que ensinara.

E então a câmara abriu.

As chamas nas tochas se apagaram e a pilastra central onde o livro estava rodou. O chão se repartiu em três pedaços ao seu redor e uma escada revelou uma nova descida. Gideon sorriu de felicidade. Contente em ter finalmente conseguido o que tanto queria. Apressado, ele desceu os lances e se deparou com uma sala ainda menor que a anterior. Nela, um baú branco com detalhes em azul turquesa reluzia mesmo em meio à escuridão. O maior detalhe: ele estava aberto.

Não disse, incrédulo.

Alguém já havia encontrado aquele lugar. A primeira flecha tinha sido roubada.

Não! Não! esperneou, enquanto socava as paredes.

Ele havia abrido mão de algo valioso em troca de nada. Sua ganância o cegara mesmo diante de uma situação óbvia. Furioso, o semideus subiu tudo de novo apenas para se deparar com uma pequena horda de demônios o esperando lá em cima. Abandonar seu resquício de bondade e pureza permitiu que as entidades presentes naquele lugar fossem soltas - e ele era o único ser vivo passível de ser atormentado ali.

Por um breve instante o filho de Eros considerou se entregar aos espíritos, devido à sua grande perda recente. Contudo, repensou na possibilidade e invocou Destemor, o par de espadas gêmeas forjadas com ouro imperial e ferro estígio. O material negro das lâminas bastava para atingir os monstros e foi isso que ele fez.

A primeira das aparições voou em sua direção e o meio-sangue apenas rolou para o lado. Com um cenário aberto e sem objetos, a movimentação era mais fácil. Ao se reerguer, ele colocou as duas espadas à frente do rosto para se defender do ataque de outro bicho, emendando um contra-ataque com a abertura dos braços e três cortes seguidos.

Estando em menor número, Zero acabou sendo pego por trás na altura do pescoço e erguido do chão. Quem visse de fora poderia imaginar que o menino estava sendo possuído. E ele meio que estava mesmo. Engenhoso, o capturado encostou na mão que o sufocava e transformou a coisa em ouro.

Quando começaram a cair por conta do peso, as asas de morcego surgiram em suas costas e ele quebrou o membro que o segurava. No ar, voou em direção ao espíritos e começou a desferir golpes contra eles. Vários foram destruídos assim, mas alguns restaram e tentaram puxar o demônio para o chão. Canalizando todo seu poder nas partes do corpo onde era tocado, Gideon transformou seus adversários em estátuas douradas.

Um a um os encostos foram caindo no chão e se despedaçando. Ao fim, só restou o jovem adulto cansado e cheio de queimaduras na pele (pelo toque dos espíritos) cercado de ouro. Uma das coisas mais valiosas do mundo e que para ele não tinha valor algum.

Já do lado de fora, o abençoado de Mamon foi abordado pelo taxista sentado na escadaria. O homem estava impaciente e reclamando de que precisaria de um pagamento maior para compensar o tempo em que ficou parado ali. Ele teve toda a oportunidade do mundo de apenas ir embora, mas escolheu ficar para recolher o pagamento.

Ganancioso.

Cox sorriu e tirou o último dos biscoitos que tinha em seu bolso. Com o toque, transformou a comida em ouro e os olhos do mortal se arregalaram.

Você quer? estendeu a mão com o objeto valioso para o outro pegar. Tem muito mais de onde veio esse.

Desejando aquele item valioso, o taxista se aproximou do semideus e pegou a bolinha dourada. Uma risada exacerbada escapou por entre os lábios dele, contente com o pagamento. Todavia, seus dedos acabaram encostando nos de Gideon e todo seu corpo se transformou em ouro. Estampado em seu rosto reluzente, o sorriso de satisfação que não se desmanchou antes de sua perdição.

Com uma sensação mista de vingança e ódio, Giddy roubou o táxi e ligou o rádio. Uma música da banda Twenty One Pilots estava tocando na rádio quando ele ligou o carro com as chaves que ficaram dentro dele. Não sabia para onde ir, mas sabia quem procurar: aquele que o tinha roubado. Entretido com a música peculiar, ele dirigiu para longe dali e então o veículo menos suspeito do mundo desapareceu nas ruas escuras da cidade...

She asked me, "Son, when I grow old
Will you buy me a house of gold?
And when your father turns to stone
Will you take care of me?"
 

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MensagemAssunto: Re: Missão Reciclada   Ter Set 25, 2018 3:37 am

A correria tinha começado antes mesmo dele virar na rua que dava em meio à cena. Gideon estava no acampamento romano há poucas horas e, tendo permanecido ao lado de Seal - o filho de Poseidon que era seu ajudante - o tempo inteiro, acabou sendo recrutado também para a missão. Mal sabia ele que aquela seria uma das mais difíceis missões de sua vida.

Os semideuses estavam no centro da cidade para ajudar no resgate de novos sobreviventes. Um dos prédios principais de Nova Roma, e também o mais alto, tinha caído durante o ataque. Entretanto, apesar das buscas nos dias iniciais, ninguém mais tinha sido dado como desaparecido em meio aos escombros...

...até aquele dia.

Como uma das primeiras pessoas a chegar ali, Cox foi escalado em desespero pelo responsável pelo resgate de última hora. Sua função, primariamente, era de auxiliar na remoção dos escombros. Seal, que também estava presente, teve que desempenhar o mesmo papel, porém pelo lado oposto ao do demônio.

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MensagemAssunto: Re: Missão Reciclada   Qui Set 27, 2018 1:18 am

NEW PERSPECTIVE
A tensão no ar que circundava a construção parecia diferente da qual Abramov se lembrava. Um ano atrás ele estivera em um outro local com as mesmas intenções: celebrar o aniversário de Bella-Aubrée Winnemann. No entanto, diferente da última vez, o ambiente não só era diferente como sua temática também.

"Que nostálgico", o filho de Zeus pensou consigo mesmo ao encostar em um poste do outro lado da rua. Sua atenção estava completamente direcionada à construção. Ele, de maneira honesta, não sabia o que esperar daquele evento. As lembranças da última festa eram prazerosas, em todos os sentidos que a palavra poderia ter, mas também embaraçosas. As consequências de suas ações no evento perduraram por muito tempo e, inclusive, continuavam ao seu lado até os dias atuais.

Até porque, Abramov Levitz não se arrependia de nada.

Você aí gritou para um outro semideus recém-chegado, atravessando de maneira inconsequente a rua.

Romeo Bernocchi havia surgido na vida do argonauta poucos dias antes do aniversário. Em um encontro inesperado e aleatório, o pretor acabou marcando como estrelinha de honra o dia do herói de Hera. Talvez fosse apenas impressão, mas algo de diferente instigava uma curiosidade sobre o romano no grego.

Uma carta formal e com o selo de cera do Acampamento Meio-Sangue fora enviada ao gabinete dos pretores.
 

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MensagemAssunto: Re: Missão Reciclada   Seg Out 01, 2018 6:30 am

IPSEIDADE
Como última atividade de evento, Abramov e Grizfolk aceitaram participar de uma corrida especial. Cientes de que cada tipo de mascote poderia participar apenas de sua categoria correspondente, a qual ia de criaturas pequenas a grandes, os dois não imaginaram que seria tão sério assim. E ambos nunca estiveram tão errados assim.

Posicionados no Coliseu, de onde começaria a competição, o filho de Zeus estava montado sobre o dragão preparado para o início. Griz resmungou a respeito de achar aquela tarefa idiota, mas o semideus o lembrou de que a intenção era mesmo se divertir. Todavia, quando mais duas cabeças de dragão se colocaram paralelamente à do de bronze, eles viram que haveria de fato uma concorrência.

Além dos três dragões, havia também duas águias gigantes e um pégaso. Ao todo, seis participantes se encontravam presentes para a corrida da pista de número 3. Os donos dos outros dois dragões eram os conhecidos irmãos Bardowin do chalé de Ares. A menina que montava uma das águias, a menor delas, não parecia ter mais que dez anos de idade e era filha de Athena. A outra ave, no entanto, erguia uma grande semideusa do chalé de Hefesto. Por fim, Ian de Poseidon bradava insultos para seus oponentes acima do equino preto.

Ok, se deixarmos os dragões para trás essa corrida é nossa sussurrou para seu aliado, o qual assentiu positivamente e alongou as patas.

A plateia nas arquibancadas já estava gritando de ansiedade quando a largada foi dada.

Grizfolk bateu as asas com força e ganhou altitude. Junto a ele, os outros dois dragões também perderam tempo para ascender aos céus. A massa e dimensões maiores atrasaram a aceleração dos draconianos, o que não aconteceu com o restante. Ian disparou com tudo e ganhou vantagem logo de início, seguido pelas duas águias gigantes que voavam parelhas.

Levitz gritou para que sua montaria se apressasse, mas não havia muito o que fazer quanto àquilo. Para piorar, poucos metros depois do início quando os aros apareceram, um dos Bardowin bateu o dragão vermelho contra o de Zeus. As duas criaturas disputaram literalmente na garra quem permaneceria nos céus e, seguindo as instruções do semideus, Folk segurou seu oponente firmemente e, no último instante, o soltou para retesar as asas e patas.

Em uma posição mais estreita, a mascote de Ab conseguiu atravessar pelos dois aros seguidos perfeitamente. O dragão rubro, no entanto, por ter sido agarrado acabou batendo no obstáculo e caiu.

Vitória! Gritou, extasiado.

— Não por muito tempo! — O dragão de bronze indicou o segundo obstáculo.

Vulcões construídos sabe-se lá como estavam posicionados abaixo dos participantes. A filha de Athena e sua águia gigante pequena passaram pelas chamas sem muito problema, devido ao tamanho menor e agilidade de sua parte. O garoto de Poseidon, contudo, viu seu pégaso relinchar e hesitar diversas vezes por conta das erupções.

Grizfolk ganhou velocidade e ultrapassou o primeiro dos vulcões apenas o evitando a toda. Todavia, nos seguintes, seguiu as direções do argonauta para desviar das chamas borbulhantes. Uma delas, inclusive, atingiu levemente sua cauda o que gerou desconforto. Mas isto foi incomparável ao incômodo que foi o menino do cavalo alado.

— Vou te fazer comer larva, grandão! — Ian gritou para o dragão de bronze.

Você quis dizer "lava"? O herói questionou em meio à ação.

Whatever — rebateu o jovem.

O pégaso deu uma carreira aérea em direção da dupla de Hera, mas Griz apenas parou no ar em resposta. Sem seguir, ele evitou ser atingido pelo equino atacante e de quebra escapou da erupção que ia lhe pegar junto. As chamas do vulcão pegaram a criança do chalé 3 e a derrubou junto de sua montaria.

Na frente apenas do outro dragão, Abramov viu as duas águias disputarem o primeiro lugar mais ao longe. A menininha era astuta e murmurava algo para sua águia. A filha de Hefesto, por sua vez, pareceu ter dificuldades com algo. Sem entender do que se tratava, o bastardo do rei do Olimpo apenas manteve-se concentrado até que as aparições começaram.

Imagens de outros dragões maiores e assustadores surgiram ao redor de Grizfolk e Abramov. Ambos se assustaram com o ímpeto da coisa, mas não demorou para o meio-sangue sacar que se tratava de algum tipo de ilusão. Sua mascote, não obstante sem o costume de lidar com aquele tipo de situação, acabou perdendo velocidade e quase travando em meio à disputa.

Griz, não é real gritou para a montaria de escamas, tentando mantê-la em curso.

Foi nessa hora que ele entendeu o porque da filha do deus da forja estar passando por maus bocados. Para azar deles, ou talvez sorte, o último dos irmãos de Ares os alcançou e atravessou as imagens. Não satisfeitos em terem pego a classificação, o dragão vermelho ainda tentou derrubar o de bronze.

Imbecil, nós todos vamos cair! bradou para seu oponente, enquanto as duas bestas gigantescas se atracavam em meio ao voo.

Não me importo, você vai pagar pelo que fez ao meu irmão Bardowin 2 respondeu, irado.

Mais vulcões surgiram e, diferente da última vez, além da erupção havia também as cinzas. Sem poder evitar, os dois dragões entraram em uma nuvem de fumaça cinza e sumiram em meio à corrida. Lá dentro, os dois se morderam e arranharam numa tentativa de manter a dianteira. O fogo não afetava o dragão vermelho, dada sua natureza, mas o garoto de Ares só não contava com um detalhe: Grizfolk também possuía resistência ao mesmo elemento.

Contando com a vantagem elemental, Bardowin ordenou que seu dragão puxasse o dragão de Ab para baixo em direção a um dos vulcões. O herói, embora furioso pela afronta, raciocinou rápido e ordenou o óbvio. A mando do semideus, Folk se deixou ser puxado o máximo possível até que aproveitou da força do puxão para chutar a cabeça do draconiano avermelhado com tudo.

A pancada fez com que o bicho caísse na formação rochosa em chamas. Aquilo não seria suficiente para derrotar a criatura, porém o meio-sangue que a montava não era imune ao fogo então acabou sendo desclassificado pelos danos simulatórios.

Saindo com tudo do fumacê, Levitz viu que perder velocidade tinha lhe custado muito. Não disposto a perder, também, Grizfolk recuperou altitude e bateu suas asas com o máximo de força possível. Os campistas que corriam abaixo deles para acompanhar a competição chegaram a tapar os olhos, por conta da ventania forte.

Apesar de não ser tão ágil quanto os outros dois competidores que eram menores, o draconiano contava com a vantagem de tamanho. Ou seja, uma batida de asas dele equivalia a pelo menos quatro das águias. Dessa forma, em uma arrancada frenética na qual o ex-líder chegou a se encurvar sobre sua montaria, o dragão alcançou as duas primeiras colocadas.

Ao contrário dos outros, as meninas não disputavam na força a vitória. Espertas como só, elas guiavam suas mascotes com sabedoria e sagacidade por entre os obstáculos. Aquele desafio, ironicamente, era o pior inimigo que Abramov Levitz poderia ter. Ainda assim, ele não deu para trás.

O último desafio foi literalmente o fator decisivo da corrida. A filha da sabedoria, infelizmente, não pôde lidar com os pássaros autômatos que atacaram sua águia. Mesmo tendo tentado resistir ao máximo, ela acabou perdendo o controle com tantos ataques e caiu. A garota de Hefesto, por outro lado, mostrou resiliência ao ajudar sua montaria a lidar com os bichos.

Grizfolk tentou ignorar os robôs alados, mas eles eram muito e insistentes. Sem outra alternativo, a besta de escamas douradas lutou contra as aves para não sucumbir. O filho de Zeus também ajudou, espantando as que podia com as mãos e em uma dessas acabou caindo de cima do dragão. Sem autorização para voar, o argonauta gritou por ajuda ao ver que a distância entre ele e o chão diminuía de maneira acelerada.

Em uma quebra de direção súbita, Folk ignorou que a águia estava ganhando em posição e desceu. Com as patas dianteiras, o dragão agarrou seu humano e o salvou da queda.

Meu herói brincou, aliviado por não ter se machucado agora temos uma corrida a vencer decretou, conforme montava no animal fantástico.

Os instantes finais da corrida foram frenéticos. Griz voou com tudo e alcançou novamente a águia gigante. Esta estava tendo dificuldades ainda com os pássaros, mas não cedia. Ao perceber que perderiam se continuasse assim, Ab foi ardiloso e esperto. O líder dos argonautas disse para sua mascote ganhar altitude e que então planasse sobre a ave.

O plantar teria garantido a vitória ao pássaro, não fosse o fato de que, acima deste, o dragão tapou a luz do sol e acabou criando uma grande sombra. Sombra esta que atrapalhou a visão da semideusa e, junto a ela, a águia foi atingida pelos pássaros que não saíam do encalço dos participantes. Assim, a dupla masculina manteve-se na disputa e alcançou o Coliseu novamente.

Declarados como os vencedores daquela modalidade, os dois tiveram de aturar os gritos e euforia por parte da plateia. A situação até teria sido legal, não fosse o fato de vários dos autômatos ainda estarem presos entre as escamas do dragão.

Parabéns, campeão ironizou, sobre terra firme. Como resposta, o dragão urrou para o meio-sangue e todos se calaram em susto. Depois, a mascote lambeu o filho de Zeus e voltou para os céus.

— E nunca mais me chame para essas provas de tortura disfarçadas de corrida amigável.

 

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MensagemAssunto: Re: Missão Reciclada   Ter Out 02, 2018 4:28 pm

PERÍCIA COM ADAGAS
Gideon tinha sido o primeiro a se prontificar a fazer a atividade quando o treino teve início. Apesar de todos os demônios possuírem treinamentos com facas e adagas, nem todos eram mestres nesse estilo. Pior, alguns faltaram com coragem ao saber como a aula seria. Dessa forma, somente uma menina resolveu ir junto do filho de Eros para dentro da cabana improvisada.

A missão consistia em enfrentar vários monstros em um local apertado e não morrer. Não morrer, naquele caso, indicava que a pessoa tinha dominado o uso das armas pequenas. Contudo, diferente do normal, a arma dada aos participantes era de feita de bronze celestial com uma lâmina de apenas 18 cm. Ou seja, mais problemas.

Tudo o que Cox sabia sobre sua companheira era seu nome, Dawn, e que ela tinha o sangue de Belona correndo pelas veias. Essa segunda informação confortou um pouco o daemon, principalmente quando já dentro da cabana o combate teve início. Dez dracaenaes surgiram ao nosso redor, cercando-nos de supetão. Armado com a adaga, o semideus, ao contrário de sua aliada, não avançou contra as adversárias.

Giddy nunca fora de avançar sem motivo. Paciente e esperto, ele se aproveitava de brechas abertas pelos próprios inimigos para tirar vantagem. Então, quando uma das bichas tentou acertar o rapaz com uma faca, este se abaixou e desferiu três estocadas rápidas na altura de sua barriga. Pó dourado estourou no cenário.

Em frenesi de batalha, o legado de Hades rolou em seguimento ao ataque e cortou a perna de duas monstrengas. Em seguida, subiu em uma das mesas para ganhar vantagem de altitude e saltou sobre outra. Quatro das dez já tinham perecido por suas mãos e nenhum arranhão ele sofreu. Dawn, no entanto, já tinha dado conta de cinco àquela altura e parecia ainda mais triunfante.

Muito bom o rapaz comentou com a companheira, mas esta apenas pigarreou nada disposta ao matar a sexta e última.

Sem tempo para descanso, a segunda horda veio e mais dez criaturas de escamas apareceram. Gideon já estava de saco cheio de olhar para aquelas mulheres. Atento, ele deu início ao combate novamente com um contra-ataque, só que diferente da última vez não se abaixou. Sabendo dos alcances de sua arma e de como ela tinha desvantagem à longa distância contra uma espada (arma que sua oponente da vez empunhava), gingou para o lado e invadiu a base da dracaenae.

Próximo a ela, ele tinha total vantagem em questão bélica e então deu uma cotovelada em seu braço para desarmá-la. Um corte no pescoço deu cabo de sua inimiga e então a carnificina começou. Em uma disputa com a filha de Belona, Zero se misturou nas linhas inimigas literalmente dançando por entre ela. Cortes eram feitos por sua adaga, enquanto outros eram cravados em sua carne como resposta.

Somente quando se meteu entre três monstros que o demônio passou por maus bocados. As três atacaram ao mesmo tempo e ele desviou de dois dos ataques, mas um acabou perfurando seu ombro. A ferida não foi profunda, porém bastou para atrapalhar seus movimentos do tronco. Em resposta, o garoto girou com o braço armado aberto e cortou as três de uma só vez.

A batalha continuou por mais duas rodadas, quando a dupla enfim se deu por vencida e saiu. O instrutor os parabenizou por terem durado tanto tempo e, após isso, se dirigiram para a enfermaria. Treino concluído.
 

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MensagemAssunto: Re: Missão Reciclada   Qui Out 11, 2018 6:46 am

TRICK-OR-TREAT
As crianças corriam pelas ruas de Salem, Óregon, fantasiadas e com sacolinhas em mãos. Por todo o país o clima de festividades já tinha começado. O Halloween era, sem dúvidas, o feriado predileto da maior parte da população norte-americana e isso refletia no empenho de todos em tornar a data algo marcante.

Gideon parou em frente a uma casa e observou os pequenos baterem à porta pedindo doces. De pé sobre o gramado e em meio à noite, ele parecia apenas um responsável por alguma das crianças - algo comum, já que muitas delas só podiam sair acompanhadas de um adulto. Mas a verdade é que o rapaz estava apenas de passagem, perdido brevemente em meio à melancolia de não enxergar mais aquela brincadeira como uma simples brincadeira.

— Booh! — Uma menininha fantasiada de Eleven, personagem fictícia da série Stranger Things, tentou assustar o semideus.

Surpreso com a audácia da garota, Cox fingiu ter se assustado e então a chamou para perto. Quando ela se aproximou o bastante de seu rosto:

Boh o meio-sangue assumiu sua forma demoníaca e uma feição verdadeiramente horrorosa, o que fez com que a menina caísse de bunda no chão chorando.

Divertido com a situação, ele saiu andando com um sorriso estampado na face. A descontração anterior ao sequestro fora necessária, considerando o que estava por vir. Talvez fosse sua vontade apenas assumir uma máscara assustadora e sair por aí pregando peças. Obviamente não podia fazer isso, não quando o destino do mundo estava à mercê do rumo que aquele fim de noite tomaria.

(...)

Outubro, como muitos sabiam, era um mês muito importante para o ano. Não só pelo feriado famoso mas também por todo seu misticismo. Sendo um excelente período para rituais e feitiços, encantadores e feiticeiras tinham certa vantagem em suas empreitadas. Contudo, havia alguém que abusava do bônus ainda mais que o restante.

Nyx, que era pura essência mágica e ritualística, estava a todo vapor e com seu poder a pico. Dessa forma, em um conselho de guerra junto a suas divindades aliadas, ela tivera um plano. Há muito seus demônios estavam sendo perseguidos e acuados. Para piorar, durante o dia, seu poder era menor e isto lhes dava mais fraquezas.

Ciente então de um feitiço que só podia ser realizado naquela temporada, quando os dois planos (dos vivos e dos mortos) estavam mais interligados do que nunca, ela clamou por ajuda. Auxiliada por Hélio, o titã que jurara lealdade à deusa, ela daria um novo significado  ao termo "raiar do dia". Para isso, bastaria capturar Apolo e o tirar da jogada.

A antiga personificação do Sol, assim que ficou sabendo do plano, se agitou se oferecendo como membro da equipe. Certo de que ele era a isca perfeita para atrair o deus até o local ideal, Hélio se elegeu como detentor daquela tarefa. Além desta, também, havia outra coisa a se fazer: os ingredientes do ritual.

Para conseguir o que pretendia, Nyx precisava de alguns seletos objetos, os quais precisavam ser recolhidos na mesma noite em que o ritual teria início. Ou seja, os eleitos para a missão teriam de correr contra o tempo para que aquilo desse certo. Assim, escolhidos a dedo pela deusa por terem uma velocidade e taxa de sucesso elevadas, Gideon Cox e Jeffrey Kinkade foram enviados cada um para um canto do país no dia onze daquele mesmo mês.

Hélio, tendo recém retornado do limbo em que estava, convocou Apolo para um encontro de guerra. Apolo, não muito esperto ou odioso, aceitou o pedido numa boa, crente de que colocaria um basta em qualquer mal entendido que poderia haver entre eles. Com a confirmação de que a coisa ia rolar, Nyx moveu seus peões.

Às exatas nove horas da manhã do relógio central, Gideon surgiu em Salem, no estado de Óregon. Alternativamente a ele, Jeffrey ficara encarregado de coletar o item que estava em Nova York. O filho de Eros não fora informado sobre o que seu aliado tinha de pegar, mas seu alvo era um colar perdido em algum lugar do Monte Hood, um estrato-vulcão ao norte do estado.

Preparado para o pior, já que não sabia exatamente o que enfrentaria, Cox partiu direto para o sentido certo. A manhã estava agitada com todas as preparações para os primeiros dias de Halloween, o qual era comemorado o mês inteiro no distrito. Enquanto caminhava pelas ruas, ele reparou em monstros que, se passando por pessoas disfarçadas, aprontavam de tudo um pouco.

Apesar do contato com vários deles, apenas uma criatura monstruosa tinha a atenção do semideus: a harpia inteligente. Grelha, como a mulher-pássaro era chamada, residia em algum lugar daquela cidade. Ela, de acordo com a deusa primordial, sabia a localização exata do item que o demônio deveria recuperar.

Com isso em mente, Zero encurralou todos bichos que encontrou em locais isolados para saber onde Grelha estava. Uma dracaenae que usava um cão infernal como adereço de fantasia chegou a implorar pela vida, quando dissera que não sabia do que ele queria; um esqueleto que perseguia crianças pelo pátio externo de uma escola durante o recreio matinal também não.

As horas estavam passando e a primeira parte da tarefa sequer tinha sido completada. Aflito, Gid clamou por Moros, o deus do destino que falava com ele, em uma tentativa desesperada de saber para onde seguir. Respondendo ao clamor, a divindade lhe informara de que harpias tinham costumes de viver em locais altos.

Seguindo a dica, o filho de Eros chegou à torre empresarial no centro da cidade, a qual possuía exatos 31 andares. Ironicamente, o local estava abandonado por conta um incêndio que o assolara anos atrás. De acordo com boatos locais, ainda era possível ouvir as vozes das pessoas que morreram cremadas naquele lugar e, portanto, ninguém ousava comprar ou dar rumo ao imóvel.

Não muito assustado pela história, o garoto adentrou o prédio que possuía apenas um faixa de aviso de perigo e sumiu lá dentro. Já era horário de almoço quando ele alcançou o primeiro andar do edifício. Os raios solares entravam de maneira fraca pelas fresta das janelas cobertas externamente por um material anti-luz. A curiosidade foi notada pelo jovem, já que aparentemente o fogo tinha consumido apenas a parte interna da torre.

Alguns adolescentes formavam um círculo no hall de entrada do edifício, contando histórias de terror e brincando de rituais. Mas, quando viram a chegada do semideus, pararam o que faziam. Gideon, esperto como só, disse que era o novo comprador do lugar e que chamaria a polícia para eles. Vítimas da lábia do demônio, os mortais correram com tudo e abandonaram o local.

Sem perder tempo e movido pela intuição certeira, o demônio inocentemente apertou o botão do elevador, mas a ausência de energia o impediu de cortar caminho. Sem escolha, as escadas de emergência foram visadas pelo aventureiro. E foi lá que o episódio de terror começou. Assim que abriu a porta de emergência, uma mulher correu em sua direção.

Ei! Protestou, caindo no chão devido ao susto.

A mulher apenas passou por dentro dele, revelando-se um espírito. De repente o boato a cerca da construção não parecia apenas um boato. Ao se levantar, Gideon ouviu gritos vindos do segundo andar e então subiu correndo pela escadaria. Ao chegar lá, se deparou com uma grande sala empresarial vazia.

As cadeiras estavam, em sua maioria, completamente destroçadas ou deformadas. O cheiro de queimado ainda era forte e a ausência de qualquer outra coisa denunciava que o restante tinha sido consumido pelas chamas. Arrepiado até à espinha, o garoto engoliu em seco e voltou para a escada de emergência.

Durante a subida, se deparou com cadáveres cremados no caminho. Enojado sem motivo, ele levou a mão à boca para segurar a ânsia. Aquele lugar era amaldiçoado, mas de uma maneira muito poderosa já que aquele tipo de cena não costumava causar efeito em um demônio de Nyx. Talvez fosse o efeito do véu da realidade fragilizado, o que intensificava aquelas coisas.

Tentando ignorar o máximo que podia, Giddy subiu correndo vários andares sem parar. Com uma disposição acima da média, considerando que era um semi-imortal, alcançou o décimo andar e então parou. Lá, se deparou com uma grande sala de reuniões onde pessoas assistiam a uma reunião. Piscando os olhos, ele percebeu que os mortais ali estavam vivos e empenhados na apresentação.

De repente, chamas vindas de todos os cantos da parede tomaram conta do cômodo e todos correram. Gideon tentou fugir também, entretanto o fogo se espalhou com uma velocidade impressionante e pegou todos. Mesmo ele arranhou as paredes da sala com as unhas enquanto sentia o corpo queimar.

Quando piscou novamente, viu que era apenas um delírio e respirou de maneira acelerada. Conforme corria escadaria acima, o semideus ouvia vozes e gritos de desespero. Pessoas passavam correndo por ele em chamas, tentando fugir de algo. Outras o paravam advertindo-o para que não subisse, pois as chamas estavam descendo.

No momento em que as assombrações excederam o limite suportado pelo meio-sangue, ele soltou um som gutural em resposta. De saco cheio, o enviado da Noite marchou à passos firmes e rápidos pelas escadas, ignorando completamente tudo o que surgia para ele. Depois de minutos, alcançou o último andar e então teve sua recompensa.

— Você sobreviveu à torre das lamentações, parabéns — uma voz feminina cortou o momento.

A sala do presidente estava intacta e bela. Com janelões perfeitos que cobriam todas as quatro paredes e davam vista para toda a cidade. O local parecia mais um refúgio em meio a tanto terror que assolava os andares abaixo. Sentada em uma cadeira imensa atrás da mesa principal, estava uma bela mulher de cabelos pretos longos e completamente caídos abaixo dos ombros. Seus olhos eram hipnotizantes assim como os traços finos e perfeitos de seu rosto claro. Havia apenas alguns detalhes preocupantes: seus braços possuíam penas na partes traseiras, as quais formavam asas e suas mãos eram substituídas por garras.

Grelha disse, em cumprimento. Estive à sua procura.

— Eu sei que sim. Você, assim como todos os outros, está atrás do meu conhecimento — riu, girando na cadeira. — Às vezes queria apenas poder sair daqui, voar livre novamente...

E por que não o faz? Indagou, confuso.

— Não é óbvio? Estou presa nesse lugar igual a todos os outros que morreram aqui! — Respondeu, notavelmente amargurada.

O grego não tinha parado em momento algum para pensar naquilo. Todas aquelas almas penadas estavam atreladas àquele campo de punição eternamente.

Me diga o que quero saber e prometo te tirar daqui disparou, sem rodeios. Já passava do meio-dia e o tempo estava acabando, não havia porque se estender ainda mais naquilo.

— Todo ano alguém vem aqui e promete a mesma coisa, não sou idiota, não te contarei nada! — Protestou.

Mas aposto que nenhum dos outros tinha Nyx como matrona. Ela pode facilmente libertar sua alma desse lugar e resetar o ciclo monstruoso que vocês têm ele não entendia nada dessa história de morrer, ir para o Tártaro e então surgir novamente, mas tinha noção de que era mais ou menos assim que as coisas funcionavam para os monstros.

Grelha, surpresa com a informação, pareceu tentada demais. — Você quer saber como eu morri?

Ele não queria.

Sim.

— Eu era a amante do presidente desse lugar. Ele, um mortal adorável que me via como algo além de sua secretaria. Eu o amava — falou, ressentida. — Até o dia em que sua mulher descobriu nosso caso aqui mesmo nessa sala. Furiosa, ela me atacou. Era dia das bruxas, sabe? Então o véu estava fraco. Foi assim que os dois viram minha verdadeira forma...

Ele achou a história entediante.

Sinto muito por isso, Grelha disse, de maneira afetuosa.

— Alfred era diferente, ele realmente era. Enquanto sua mulher se horrorizou com minha aparência, ele me achou ainda mais bela — a harpia soava melancólica demais — mas então ela decidiu que daria um basta na situação. Certo dia, enquanto eu o ajudava em uma pesquisa, ela nos trancou aqui e botou fogo no prédio.

O monstro se levantou e andou ao redor da sala, encarando a vista lá fora.

— Eu tentei alertá-lo de que não conseguiria carregar nós dois no ar, não tão alto assim, mas ele não ouviu. Oh, Alfred — lamentou. — Eu não podia deixá-lo sozinho, então permaneci junto ao meu amor mesmo durante o incêndio — seu tom mudou repentinamente — acontece que o ódio dela era tão grande que todo o edifício foi amaldiçoado. Aqueles que morreram aqui dentro ficaram presos e condenados a reviverem a própria morte eternamente.

E onde ele está? Alfred, ele não tinha estar aqui?

— Ele pulou pela janela, não aguentou as chamas. Eu já estava fraca para ir junto, então acabei morrendo sozinha nessa sala. Agora todo ano sou obrigada a acordar para reviver todo o terror aqui novamente, e ao fim volto a dormir apenas para acordar aqui de novo.

Mas agora isso vai mudar. Me diga onde encontrar o pingente da estrela d'alva e Nyx virá para te salvar ofertou.

— Você nem ao menos quer saber como eu sei disso, né? Pois bem, eu te direi, apenas porque você me lembra meu Alfred — se engraçou pelo belo e atraente filho de Eros, cuja beleza era realmente tentadora. — Durante minha vida fui uma leitora ávida de exemplares antigos, por isso sei muito sobre tudo. Não é por menos que arrumei um emprego em uma grande companhia — se vangloriou — essa história de lutar e caçar seu tipo nunca foi do meu interesse mesmo.

Gideon olhou pela janela o Sol se movendo no céu, ansioso para sair dali e continuar sua missão. Que interessante fingiu.

— Certo, certo — deu de ombros — o pingente está onde nenhum homem pode chegar: dentro do vulcão — riu, como se imaginar alguém pulando dentro da lava fosse algo divertido — um local apropriado considerando para que ele serve.

Como assim? Arqueou uma das sobrancelhas, intrigado.

— Você não sabe? Afinal, para que quer ele? — Cruzou os braços, também intrigada. — A runa entalhada naquele pingente é capaz de esfriar até mesmo o Sol, para isso basta que ela tenha um contato mínimo que seja com algo frio. Por isso foi escondida lá por seu antigo dono, em um lugar onde dificilmente a temperatura vai cair para menos de 1000 °C — voltou a rir.

Entendo. Bem, preciso ir, Grelha. Não se preocupe, a próxima vez que acordar estará livre novamente mentiu novamente obrigado mesmo assim.

— Espero mesmo, semideus — a harpia respondeu, conforme o rapaz caminhou para a escadaria. — Você não chegou a me contar seu nome.

Gideon, Gideon Cox respondeu.

O semideus não contava seu nome para ninguém que tivesse a certeza de que encontraria novamente, por isso era apelidado de Zero. Com um sorriso trapaceiro no rosto, ele deu uma olhada pela última vez por cima do ombro e viu a sala como ela realmente era: completamente vazia e queimada.

Curiosamente, uma das janelas da sala estava quebrada...

(...)

O fim de tarde já tinha começado quando o enviado de Nyx alcançara o norte do estado. Viajando pelas sombras durante o dia, ele era mais lento que o normal. Ainda assim, conseguia cobrir distâncias que nenhum outro aliado podia. Uma pequena ansiedade tomou conta dele, que caminhava pelo bosque em direção ao seu destino final. Estava a poucas horas de um encontro divino, onde o rumo do mundo poderia ser colocado em cheque.

Imerso em meio aos pensamentos, Gideon foi alvejado por um urso gigante do nada. Aquela região nortenha era comumente habitada por animais silvestres. O bichano, ao sentir a presença do estranho, avançou contra ele para o pegar. Desviando da patada no último instante, o helênico invocou uma de suas espadas e contra-atacou.

Tratando-se de um bicho mundano, ele não teve muita dificuldade em matar a fera. Porém, conforme adentrava ainda mais a floresta, mais animais selvagens apareciam em seu caminho. De começo, o meio-imortal julgou que as criaturas se sentiam intimidadas com sua presença e por isso atacavam. Porém, com um pouco de atenção e raciocínio, se tocou de que na verdade elas estavam tentando proteger algo.

"O vulcão!" O fato da própria natureza ter tentado evitar que alguém alcançasse aquele lugar apenas instigou o demônio da ganância a seguir. Lidando com tudo o que aparecia em seu caminho, Zero alcançou o pé do monte e então olhou para cima. Muitas camadas de neve cobriam o vulcão e o deixavam inativo.

Ao redor da montanha, inúmeras estações de esqui encontravam-se desativadas naquela época do ano devido aos feriados. Um sensação estranha fez com que o rapaz desconfiasse de algo, mas incerto do que era apenas deixou para lá. Apressado, ele ignorou os sinais óbvios à sua frente e abriu asas para ganhar altitude.

Sobrevoar um vulcão desativado coberto por neve definitivamente não estava nos planos do rapaz. Entretanto, a vista que teve do lugar foi magnífica. Quando finalmente alcançou o topo da montanha, o Sol já estava se pondo. As pequenas cabanas de esquiagem lá no topo estavam montadas literalmente ao redor do cume, onde havia a cratera.

Faixas com aviso de passagem proibida poderiam afastar os mortais temerosos, mas não o demônio que tinha assuntos inacabados com aquele lugar. Pisando na neve funda, ele sentiu o clima gélido e tortuoso nos ventos frios daquela altitude. Mesmo tremendo involuntariamente, Gideon não recuou e escalou o restinho do caminho.

Quando enfim chegou na entrada para seu interior, reparou que tudo o que conseguia enxergar era uma queda imensa e escura. Os olhos do semideus se adaptaram à falta de iluminação e com isso viu que não havia lava alguma ali. Uma grande interrogação se formou em sua cabeça, já que a harpia dissera que o pingente estava de alguma forma guardado dentro da matéria quente.

Sem entender o que estava acontecendo - e também sem tempo -, Giddy abriu as asas e planou no buraco do vulcão. Descendo devagar, ele notou que as paredes da montanha estavam secas e com resquícios de neve em algumas frestas. Aquele lugar estava realmente apagado há muito tempo, ou então ainda seria possível enxergar a luz da lava.

Após alguns minutos, o chão finalmente apareceu. Neve cobria o solo em nível alto, o que impedia precisar onde seus pés bateriam. Só que o mais importante era o calor que emanava de um ponto em específico. Assim que pisou no local, o semideus descobriu que estava atolado até a cintura. Ignorando isso e seguindo o calor acolhedor, ele enfiou a mão na neve e pegou uma pedra.

Got you, precious brincou ao tocar no pingente.

Amarrada a um cordão fino, uma pequena pedrinha de gelo leve e, ironicamente quente, reluzia. Tendo pego o item primeiro pelo cordão, quando Cox encostou na pedra tirou a mão no mesmo instante involuntariamente. Um "ouch" escapou por seus lábios, devido à dor de ter se queimado com o contato.

Satisfeito de ter completado sua parte da missão, ele abriu as asas novamente e iniciou voo.

E foi aí que tudo começou.

O truque daquele pingente era simples: ele armazenava todo o calor do vulcão dentro de si e emanava uma aura congelante poderosa. Dessa forma, a grande montanha permanecia resfriada e ele tão quente quanto lava. Uma troca justa, até que o meio-sangue encerrou o contanto entre os dois cúmplices e acordou o vulcão novamente.

Gideon voou como se sua vida dependesse daquilo - e realmente dependia. No exato instante em que ele alcançou metade da subida, lava foi expelida com violência pelo monte. O barulho do ponto turístico acordando provavelmente assustou todo o condado, pois o tremor foi absurdo. Era impossível ouvir qualquer outra coisa além da erupção.

Tendo escapado do buraco principal, o filho de Eros foi atingido por pouco em uma das asas e caiu. Sobre a neve, ele rolou para apagar as chamas e viu que tinha uma quantidade monstruosa de lava descendo em sua direção. Impossibilitado de voar, se tocou de que não conseguiria descer correndo sem ser pego. E, também sem tempo apropriado, não conseguiria abrir uma fenda de viagens.

Sem escolha, Gid pegou o primeiro esqui que viu largado na parte de fora de uma das cabanas e deu início à esquiagem.

Usando toda a força de seus braços para "remar" pela neve, ele ganhou velocidade e então começou a descer com tudo. A lava não era muito rápida, não obstante a avalanche de neve que aconteceu devido aos tremores do vulcão era. Se ele sobrevivesse aos montes de neve que o aterrariam, teria de evitar ainda ser queimado vivo.

Pensar naquilo fez com que o menino se lembrasse do prédio onde estivera horas antes. Se morresse ali ficaria aprisionado no monte para reviver a morte todo mês de Outubro? Independente da resposta, ele desviou das árvores no caminho e continuou a descer com tudo. Os pobres animais que viviam na montanha corriam como podiam, mas iam sendo soterrados pela avalanche pouco a pouco.

Em determinado momento da fuga, Gideon acabou batendo com um dos esquis em uma pedra e tropeçou. Rolando pela neve, perdeu o controle das ações. O semideus chegou a quebrar uma das mãos no acidente, enquanto tentava se apoiar de alguma forma com um dos ferros que carregava. O pingente, guardado em seu bolso, era sua maior preocupação.

Antes que pudesse se tornar uma grande bola de neve, ele ativou a tatuagem e se tornou intangível. Livre da massa física branca que o cercava, conseguiu se recompor e voltar a correr. A dor do membro fraturado era péssima, mas a vontade de viver muito maior. Giddy estava a poucos metros do fim do vulcão quando a avalanche finalmente o alcançou.

A impressão que o meio-sangue teve foi de que todo o peso do mundo tinha caído sobre suas costas. Sua visão ficou completamente escura e ele apagou por alguns minutos. Após isso, Mamon, o demônio da avareza que vivia em comunhão com o garoto da paixão, gritou no subconsciente de seu receptáculo e o acordou.

Por sorte a lava que descia pelo monte ia derretendo toda neve que encontrava no caminho, o que acabou liberando grande parte do corpo do jovem adulto. Todavia, ela também começou a cair ao seu redor e inclusive encostou de leve na sola de seu sapato. A quentura do material geológico fez com que ele gritasse assim que fumaça começou a subir de seu pé.

Se arrastando como podia, Gideon rastejou para o chão a nível do mar novamente. Se não conseguisse se por de pé novamente, seria completamente consumido pela lava e morreria ali mesmo. Esperto, abriu uma fenda alguns metros à frente para sair dali, mas o inesperado aconteceu: o espírito dos animais que morreram na tragédia - incluindo os que ele matara -, tentaram impedir sua fuga.

Cervos e pássaros abocanhavam suas roupas para o puxar em direção à lava, enquanto ele continuava a usar toda a força que tinha para rastejar em sentido contrário. Os mortos também podiam realizar atos heroicos no mês místico  - algo a  ser interpretado, considerando que os animais poderiam saber da maldade no coração do garoto.

NÃO VOU MORRER AQUI, DESGRAÇADOS, NÃO VOU! Gritou com ódio, enquanto juntava força de todo sentimento negativo que nutria dentro de si próprio para continuar rastejando. ME SOLTEM, IMUNDOS sua voz atingiu um tom demoníaco, assumindo sua verdadeira persona.

Não disposto a virar protagonista de uma história de Halloween envolvendo aquele vulcão, o semideus usou sua proteção espiritual para não ser mais alvejado pelos fantasmas dos animais mortos e se libertou. Dessa forma, conseguiu alcançar a fenda antes que a lava pudesse lhe alcançar e sumiu daquele lugar para sempre.

(...)

Gideon surgiu em Salem novamente, no quintal de uma casa aleatória já durante a noite. Ferido, exausto e com uma mão quebrada, o demônio se manteve escondido na sombra de uma árvore onde ajeitou o próprio osso e esperou pela escuridão fazer o resto. Em seu bolso, o pingente mágico esfriava toda a temperatura ao seu redor. Aquela sensação era irritante, mas indicava que tinha obtido sucesso na empreitada.

Alguns minutos após a recuperação, ele andou em direção às ruas onde se deparou com crianças correndo para pegar doces. Uma delas, inclusive, tentou lhe assustar, não obstante o demônio usou seus poderes para a assustar de verdade. Com um sorriso meio sádico, Gid se afastou a caminho do centro da cidade. Precisava apenas terminar sua parte e então o sucesso aguardaria sua matrona.

Tendo roubado uma cesta de doces de um garotinho fantasiado de Hércules no meio do caminho, ele chupou um pirulito e disse ao menor: "Hércules é um bundão encostado no pai, não um herói". Obviamente a criança começou a chorar - mais pelo comentário do que pelo doce roubado. A espera pela carruagem mágica pareceu durar uma eternidade, no que um cavalo preto finalmente surgiu.

Sentado em um banco de uma praça pública, Cox aguardou por um bom tempo observando o passar dos mortais fantasiados até que sua carona apareceu. As pessoas ao redor tiveram apenas duas reações ao verem o garanhão brotar: correr de medo ou gritar elogios à cena. As pessoas não podiam imaginar que o cavaleiro da noite estava a caminho de um sequestro e aprisionamento divino. E nem deveriam...

Montado no cavalo alado da cor da noite, Gideon viajou pelas sombras até o estado de Ohio, em Columbus. O encontro entre deuses estava marcado para aquela cidade porque anos atrás, antes do exílio, Hélio tivera uma conversa reveladora com Apolo numa lanchonete qualquer. Era perturbador imaginar as duas divindades do Sol tomando café em um local público.

Apesar das ironias, o demônio pousou em um cemitério não tão abandonado assim. Alguns adolescentes perambulavam pela região, provavelmente indo ou vindo de festas por ali - as quais eram comuns durante o Halloween. Confuso de para onde seguir, o grego rumou perdido por alguns minutos até que encontrou o que tanto procurava.

Próximas a uma cripta, duas figuras masculinas discutiam algo em tom de voz alto. Antes que pudesse se aproximar, uma mão puxou o filho de Eros para trás de uma lápide grande. Era Jeffrey, seu aliado, que parecia estar ali a mais tempo. Ao contrário do menino que fora enviado a um vulcão e quase morrera em uma erupção, o outro rapaz parecia estar em bom estado.

O que faz aí? Temos que fazer algo, não? Questionou ao outro, mas este levou o indicador à boca, pedindo por silêncio.

Seguindo as ordens de Kinkade, Zero assistiu à cena em total silêncio.

— Isso não é justo, você sabe que não foi culpa minha o que aconteceu! — Uma das figuras bradou, revoltada. Um jovem adulto com porte físico invejável, cabelos loiros incríveis e um rosto encantador parecia irritado com a situação. Não fosse o fato de saber que se tratava de Apolo, Gid teria facilmente o confundido com algum bonitão aleatório.

Não tente me tomar por tolo, criança Hélio, com toda sua majestosidade, rebateu você podia ter evitado isso. Podia ter mantido minha existência presente nas histórias, sussurrado meu nome para aqueles que lhe buscavam e me mantido vivo!

— E virar o quê? Seu fã número 1? Corta essa, não controlo quem querem cultuar, você mais do que ninguém sabe disso — respondeu, já sem paciência. — Achei que tinha me chamado aqui para por toda essa desavença para trás, mas já vi que é perda de tempo. Mas já era muito previsível, considerando que você sempre invejou a mim, pobre titã esquecidinho por todos — recitou um haiku muito mal feito, embora estivesse orgulhoso da escolha de palavras.

Você realmente não nasceu para poesia japonesa, garoto Nyx finalmente surgiu, materializando-se das sombras que circulavam a cripta onde conversavam. Mas logo mais o que faz ou deixa de fazer pouco importará.

— Você! — Apolo deu um pulo para trás, surpreso. — Como... deuses, não acredito que se rebaixou a esse nível, Hélio — repreendeu a outra divindade solar. — You look kinda hot, tho — se dirigiu à deusa, sem perder o bom humor.

Insolente e atrevido como sempre, o que pensa de mim de nada me afeta o deus vociferou, irritado.

— Bem, não sei qual é o caso de vocês dois, mas tenham certeza de que vou espalhar o boato pra geral no Olimpo — recuou alguns passos, mantendo um sorriso no rosto — agora, se me dão licencinha, tenho apenas algumas poucas horas antes de dirigir o Sol de novo — piscou e então tentou desaparecer, mas não conseguiu.

Não vai a lugar algum, querido. Na verdade, a luz do Sol será a última coisa que verá tão cedo a feiticeira antiga disse e, com um estalar de dedo, os dois semideuses presentes saíram de trás das lápides.

— Ora, quem são esses? Esse aí tá bem acabadinho, hein — se referiu a Gideon, que estava realmente abatido pelos traumas da missão. — O que foi? Já sei, vocês vão gravar uma nova versão de Thriller e querem que eu coreografe vocês? Michael Jackson nunca foi meu forte, mas acho que dou conta.

Estúpido Nyx sibilou, usando seus poderes mágicos para fazer o pingente no bolso de Zero e a erva que Jeffrey carregava flutuassem até suas mãos.

Giddy estava uma pilha de nervos. Por ele, já tinham feito o que tinha de ser feito sem chance para diálogo. Contudo, ignorante dos poderes máximos dos deuses, apenas manteve-se calado enquanto obedecia tudo o que sua matrona ordenava.

— O que pretende com isso? Já chega, tô irritado, sacou? — Apolo tentou evocar seus poderes, mas nada aconteceu. Baforando ar gelado, ele se sentiu fraco demais até mesmo para erguer um graveto. — Ei, o que tá pegando?

Você foi amaldiçoado, querido. Olhe ao redor ela se referia ao círculo mágico desenhado ao redor do olimpiano. Não é incrível o quão poderosos os feitiços de aprisionamento ficam sob a lua crescente? Essa época, enquanto crianças tipo você brincam de se fantasiar por aí, meus feitiços e poder ficam ainda mais intensos sorriu, satisfeita de ter pego seu alvo na arapuca.

Flutuando com o vestido esvoaçante escuro e cheio de estrelas, Nyx se aproximou de Apolo e pingou uma gota de seu próprio sangue sobre o círculo desenhado em azul ao redor dele. O filho de Zeus protestou, tentando reagir, mas estava fraco demais até mesmo para isso. Em seguida, a folha da erva especial foi despejada junto ao ritual e, como finalização, o pingente foi colocado ao redor do pescoço do deus.

O pingente, que até então apenas emanava uma aura fria intensa, foi ativado por alguma magia de gelo da deusa. Dessa forma, a temperatura dentro do círculo mágico começou a cair drasticamente.

Pela folha da vida e minha essência, somente aqueles que compartilham do meu sangue poderão cruzar esse círculo recitou somente o calor de um sentimento tão puro e intenso quanto as chamas de um vulcão o libertará desse amuleto se afastou dele, pronunciando palavras de difícil compreensão para os semideuses.

— Sua doida varrida, não sei que bruxaria é essa, mas minha irmãzinha virá atrás de mim com as caçadoras dela. E então elas vão enfiar tanta flecha nessa sua bunda galática que você não vai conseguir sentar por todo um milênio! — Disse, enraivecido.

Hélio riu das palavras proferidas pelo olimpiano e Nyx pareceu se ofender apenas um pouco. À vontade da deusa, o pingente frio literalmente congelou o deus quente em um pequeno grande iceberg. Seguindo àquilo, o círculo ao redor de Apolo brilhou e então uma luz forte que cegou brevemente todos os mortais ou semi-mortais ali presentes deu fim à transição. Após isso, apenas os quatro conspiradores sobraram no cemitério durante o começo da madrugada.

Acabou? Jeff perguntou, inquieto.

Sim, meu protegido. Acabou a deusa respondeu com doçura, da mesma maneira que uma mãe fala com o filho quando descobre que ele vai passar o fim de semana na casa do pai dando-lhe paz de espírito.

Não sinto resistência na carruagem, ele se foi Hélio referia-se ao controle sobre o Sol, que, nos tempos atuais, era comandado por Apolo. Posso escondê-lo agora falou, não muito contente com aquilo.

Não se preocupe, quando a guerra estiver acabada, você poderá dirigi-lo novamente assim como nos tempos antigos prometeu ao aliado.

Para onde vocês o mandaram? Gideon perguntou, ignorante do local onde Apolo foi aprisionado.

Nyx apenas fez um gesto de silêncio para o filho de Eros, mostrando que nem mesmo seus seguidores poderiam saber onde o deus aprisionado estava. Hélio e a primordial, sem seguir normas de conduta mortais, sumiram de cena deixando os semideuses a sós.

Ok, isso foi estranho. Parece que participei do ritual de invocação do próprio diabo. O que acontece agora, o apocalipse? O filho de Hermes ironizou.

— Caraca, que massa — um adolescente fantasiado de Conde Drácula, escondido atrás de uma lápide com mais dois amigos, comentou. — Que série é essa que vocês tão gravando? É da Netflix?

(...)

Naquela manhã, Gideon e Jeffrey tomaram café na mesma lanchonete que Hélio descrevera como local de encontro dos deuses do Sol. Porém, contrariando toda a história, os dois mantiveram-se em silêncio enquanto processavam tudo o que tinha acontecido. Não eram amigos, no fim das contas, então conversar não era bem uma obrigação.

Ainda se recuperando do esforço físico tremendo, Zero bebeu seu achocolatado quente enquanto assistia ao noticiário da manhã na televisão. Nas emissoras de todo o mundo, o caso do Monte Hood, o vulcão que entrou em erupção, era a manchete principal. Os vilarejos mais próximos foram evacuados a tempo de se evitar uma tragédia, mas todas as festividades locais motivadas pelo feriado de dia das bruxas foram canceladas.

Caralho, você acordou um vulcão? Jeffrey arregalou os olhos, impressionado.

Dando de ombros, Gid tentou esquecer da experiência de quase morte que tivera no monte. Na verdade, toda aquela missão tinha sido bastante arrepiante para ele, que enfrentara desde desafios mentais à físicos. Embora a notícia da erupção tivesse chamado a atenção do país, quando o Sol simplesmente não apareceu, todos ficaram perdidos.

Ainda mais curiosa que a ausência do nascer do Sol, foi seu desaparecimento em locais no mundo que já era dia. Se as pessoas não sabiam o que estava acontecendo, tampouco estariam também os deuses. Mas o fato é que a noite tinha chegado e, a partir dali, para ficar...

Esclarecimentos:
 

Habilidades Utilizadas:
 

 

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Última edição por Abramov Levitz em Sab Out 13, 2018 5:43 am, editado 1 vez(es)
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Abramov Levitz

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MensagemAssunto: Re: Missão Reciclada   Sab Out 13, 2018 5:38 am

TELESCOPE
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Corvus oculum corvi non eruit
O ponche que o filho de Hermes tinha em mãos estava claramente batizado, mas ele de mesma maneira não ligava. A música que tocava na festa era do agrado do jovem adulto, apesar dele nunca a ter escutado. Jeffrey estava completamente destoado do restante dos adolescentes fantasiados pela festa de Halloween, contudo sua presença ali era obrigatória.

Tem certeza que ele vai trazer essa porra aqui? Kinkade perguntou à sua acompanhante, que já estava para lá de alterada.

— Sim, cara, ele já vai chegar com ela — a garota respondeu, dando outra golada no ponche enquanto dançava ao som de Fall Out Boy.

Impaciente, o semideus bateu o pé no chão sem parar enquanto não se animava em dançar com sua companhia. Alguns minutos depois da hora que ele esperou, um outro jovem apareceu. A passos lentos e portando um visual notavelmente alternativo, o garoto se aproximou da dupla que o aguardava e então puxou algo do bolso.

Crente de que era o que tanto queria, os olhos de Jeff brilharam em anseio. Todavia, quando o menino mostrou um baseado, começou a rir.

— Eu disse que era da boa, tá vendo. Não tem semente e é com seda mesmo, prefiro assim — a garota riu e pegou a maconha.

Essa é a erva que você tava falando? Puta que pariu. Incrédulo, desviou o olhar e abriu a boca. Você é filha de que deusa mesmo?

— Nyx, mate, a deusa da noite e magias, sou uma bruxa — mostrou uma tatuagem de lua que tinha no pulso.

Certo de que tinha perdido tempo ali, já que a garota claramente não era meio-sangue nem ali nem na Romênia, Jeffrey pegou o baseado e saiu andando. Os dois mortais que o acompanhavam não entenderam o motivo daquilo e apenas o julgaram como grosseiro. De qualquer forma, o tempo do helênico estava passando e ele pouco se importava com o que achavam dele.

Até porque, tinha uma erva realmente mágica para encontrar e um sequestro para finalizar.

(...)

O dia de Jeffrey Kinkade havia iniciado na noite anterior à manhã que realmente dera início à missão. Repousando em seu quarto improvisado no Palácio de Nyx, local de onde não podia sair considerando que o Tártaro não lhe era seguro, o semideus teve seu descanso interrompido por um outro seguidor da deusa.

Em uma reunião privada na sala do trono, Nyx, Hélio (o titã do Sol que também era fiel a Nyx), Zero (um demônio filho de Eros) e o recém-acordado meio-sangue chegaram a um acordo. Os dois semideuses tinham sido escolhidos a dedo pela deusa para desempenhar uma tarefa de extrema importância. Aquele mês prometia bons frutos à primordial, mas também justiça e domínio.

Um plano fora montado e ele consistia em tirar Apolo da jogada, substituindo-o por Hélio. Este, inclusive, seria o orquestrador do encontro com o alvo, servindo de isca. Os outros dois, no entanto, teriam de correr contra o tempo para buscar dois ingredientes cruciais para a execução da magia.

Não entendo, por que não posso assumi-lo de cara? É meu papel, minha tarefa Hélio argumentou, tremeluzindo a energia amarela que usava como forma no recinto, já que não estava presente pessoalmente.

Você terá sua glória novamente, titã. Mas agora precisamos disso, ou então não poderei fazer o que tanto planejo a deusa respondeu, não muito disposta a ceder.

Nyx não queria Hélio dirigindo o Sol por aí, ao contrário. Sua ideia era justamente o titã esconder o veículo solar e deixar que a noite tomasse conta de tudo. Entretanto, aonde ela pretendia chegar com aquilo ainda era uma incógnita mesmo para seus aliados. Sem muita alternativa (e mais motivado pela possibilidade de vingança), a divindade masculina aceitou.

Contatarei Apolo no primeiro raiar do Sol seguinte. Ele não poderá recusar meu convite falou, imponente. Como ele é arrogante demais para suspeitar de algo e também por precisar trabalhar durante o dia, o encontro será a noite.

Que será quando estarei com meu potencial máximo ela se ajeitou no trono e olhou para seus servos e é ai que vocês entram.

Jeffrey logo lembrou de Pinky e Cérebro, um de seus desenhos favoritos, os quais elaboravam planos mirabolantes para dominar o mundo. Nunca imagino que um dia serviria de peão num sequestro divino, mas para quem já tinha tentado derrubar o Olimpo antes ao lado de Cronos, aquilo não era lá tão ruim.

Apesar da convocação durante a madrugada, a tarefa só teve início ao amanhecer, quando a confirmação de que o encontro aconteceria foi dada. Zero ficou responsável por coletar o item da costa oeste, enquanto que o filho de Hermes teria de recuperar o da leste. Dessa forma, enviado por um portal criado pela própria deusa, este último surgiu em Nova York precisamente às nove horas da manhã.

Ignorante do que seu aliado tinha de pegar, Jeff bufou por ter ficado com a provável parte mais chata: encontrar a erva mágica. Tudo o que o rapaz ficara sabendo era que ela não podia ser encontrada tão facilmente, já que sua época de plantio era durante mês de agosto. Não obstante, seu comércio era restrito a poucos conhecedores e preço inestimável.

Em outras palavras: ele teria que roubar a folha.

E quem melhor que o filho do próprio deus ladrão, não é mesmo, América? Resmungou sozinho, enquanto acendia um cigarro na quinta avenida.

Outros poderiam levar aquilo como uma ofensa, mas não Kinkade que via suas habilidades como um dom. De certo optaria por uma alcunha diferente, mas a ideia de ser útil e único àquela maneira o agradava. Assim sendo, deu início à sua busca entrando em contato com os traficantes locais que conhecia.

Até onde sabia daquele tipo de coisa, ervas, apesar de procuradas por motivos mágicos, também tinham utilidades para mortais. Sua primeira aposta, nesse, foi o contrabando de folhas medicinais raras. Entretanto, levando em conta que era Halloween o mês inteiro no país, teve dificuldades em encontrar seus informantes (uma vez que estes estavam ocupados demais traficando drogas leves para adolescentes em festas).

Sem muita escolha, ele vagou a manhã inteira entre bocas e galpões desolados onde a maioria dos dealers faziam negócios. Jeff já estava cansado de ser oferecido maconha toda a vez que entrava no assunto "erva medicinal". Para piorar, seu cheiro já estava se tornando forte demais nas ruas da cidade mais perigosa do mundo para semideuses, então não demorou muito até que um inimigo o encontrasse.

A batalha contra a harpia foi simples e efetiva. Battlecry, o machado que estava transformado em uma adaga, foi erguido em resposta ao avanço do monstro. Encurralado em um beco, onde os mortais que passavam não tinha visão perfeita, a mulher-pássaro tentou um bote contra o semideus, mas este usou o item curto para furar uma de suas patas.

Furiosa pelo ferimento, a criatura manteve-se planando acima do rapaz para tentar lhe pegar pelos ombros. Porém, contrariando as expectativas, Jeffrey pegou a tampa da lixeira de lata mais próxima a ele e se defendeu dos ataques. Depois, correu em direção a uma das saídas do beco. A harpia, inocente, o seguiu e foi surpreendida quando o semideus, usando a grade do fim da viela como apoio, se virou em um salto para trás quase completo.

A manobra radical permitiu que ele caísse por cima do monstro empurrando-o contra o chão com a tampa de lixo. Dessa forma, pôde facilmente finalizar a coisa com a adaga. Sentindo-se o próprio Batman, o meio-sangue sacudiu a poeira dourada das roupas e voltou a caminhar pelas ruas como se nada tivesse acontecido.

Suas buscas o levaram até um laboratório chique em Manhattan, que estava lotada no horário de almoço, para investigar a possibilidade da erva estar lá. Um amigo seu de guerra, o qual conhecera na revolta mais recente dos titãs contra os olimpianos (poucos anos atrás), lhe informara de que havia um jovem cientista curando pessoas de câncer terminal lá. Certo de que o homem não era um semideus ou algo do tipo, aquilo só podia significar uma coisa.

Vestido como uma pessoa "normal", não foi muito complicado para o rapaz simpático e de papo fácil conseguir adentrar o prédio. Poder encontrar o pesquisador chefe do laboratório, por outro lado, nem tanto. A recepcionista do edifício, que de fora parecia apenas um grande hospital chique e todo branco, dissera ao enviado de Nyx que consultas e reuniões estavam vetadas para aquele dia.

Nem mesmo quando mentiu se tratar de uma emergência sua entrada nos leitos e andares superiores foi permitida. Jeffrey, implacável, permaneceu na recepção por cerca de meia hora até que um grupo fantasiado apareceu. Os adolescentes estavam ali a mando de uma escola que realizava atos beneficentes. Sagaz como só, o filho de Hermes conseguiu rapidamente chamar a atenção de um dos jovens para uma conversa do lado de fora.

Com uma lábia de dar inveja, ele prometeu ao garoto uma grana boa pela fantasia e entrada no hospital. Dando ao adolescente um pedaço de papel sem valor, que aos olhos do mortal e mascarado pelo poder do semideus pareceu dinheiro de verdade, Jeff conseguiu a fantasia. A cena pareceu digna de alguma série de comédia, já que a recepcionista idosa nem reparou nele disfarçado (e nem no fato dele ter entrado sozinho após todo o grupo).

Ela parecia mais preocupada com a revista de perfumes que lia mesmo.

O primeiro andar do laboratório era mesmo um hospital, já que todos seus cômodos eram leitos para pacientes. Leitos estes que estavam completamente lotados de pessoas moribundas. A podridão mascarada pelos quartos brancos e perfumes fortes não passavam despercebidas pelo meio-sangue. Indiferente quanto àquilo, Kinkade deu um perdido nos outros e nos funcionários do lugar e subiu pelo elevador.

Quando alcançou o último andar, se deparou com um corredor único que ligava as portas de metal a uma porta de madeira. Diferente do restante da decoração, essa porta de madeira era grande e peculiar (letras em grego antigo estavam cravadas em sua superfície). O fato de estar trancada não foi nada para o arrombador profissional, mas o que estava do lado dela foi realmente preocupante.  

O local era um verdadeiro laboratório, com estufas para plantas estranhas e aquários que armazenavam coisas esquisitas. Jeffrey ficou intimidado com a semelhança do lugar com algo saído da franquia Alien. Porém, apressado e obstinado, vasculhou pelo cômodo em busca do que procurava.

Sanctorium, Sanctorium recitou o nome da erva enquanto folheava o inventário botânico encontrado em uma mesa aleatória.

Um som foi ouvido pelo semideus, mas sem a confirmação de que algo tinha se mexido, ele ignorou. Instantes depois, um gás verde se espalhou pela sala e, antes que pudesse evitar inalar aquilo, o aliado da noite foi atingido por um taser e caiu duro no chão. Indefeso, respirou o gás e então desmaiou.
 
Levemente atordoado, Jeffrey acordou amarrado em uma cama. Era impossível até mesmo levantar o braço, de tão tensas que as amarras estavam ao redor de seus pulsos e tornozelos. No menor sinal de resistência emitido pelo rapaz, um homem adentrou o recinto puramente branco.

— Você acordou, que bom — o jovem adulto parecia ter acabado de entrar na casa dos trinta. Sua pele clara era perfeita e sem marcas, o que combinava com o perfeito penteado curto e os perfeitos olhos azuis claros. Claro, tinha também o jaleco perfeito que também caía bem com o sorriso perfeito que ele exibia.

— Nunca imaginei que colocaria as mãos em um espécime como você — o cientista voltou a falar, anotando algo em uma prancheta que carregava consigo. — Desculpe não ter me apresentado antes, me chamo Anthony, sou o responsável pelo estabelecimento.

Ok, Anthony. Eu não tenho muito interesse nem tempo pra participar dessa sua reencenação de Frankenstein tentou se soltar, irritado então se puder me soltar logo prometo que não vou enfiar meu braço todo na sua bunda.

— Eu adoraria isso — comentou, distraído com a anotação — digo, adoraria poder te soltar — pigarreou — mas acredito que não será possível. Veja, o que eu faço dentro dessas paredes é encontrar a cura para tudo o que aflige o mundo. Acredito que fui enviado por deus à Terra para isso e, agora, depois de tantas décadas, você finalmente apareceu.

Jeff não entendeu a parte do "tantas décadas", já que o doutor não parecia tão velho assim, porém não comentou. Preocupado mais em quanto tempo tinha adormecido, mentalizou o que fazer para sair dali.

Me diga, ahn, dentre essas suas pesquisas aí, você não teria uma erva da família Sanctorium, né? Arriscou perguntar, desesperado.

— Não, esse laboratório não dispõe de ingredientes tão rústicos assim. Se fosse na minha época, sim, talvez. É uma folha bastante peculiar, já que ela era utilizada pelas pessoas como forma de vigia — o semideus confessou não entender do que ele falava, então Anthony explicou.

Povos antigos acreditavam que a planta podia ser usada como proteção em suas casas quando ausentes dela. Ela era dita como capaz de avisar ao donos que algum desconhecido tinha adentrado seu residência ou terras. Além disso, para uso medicinal, triturada sua essência era anestesiante. Ou seja, quem a cheirasse apagava.

Poxa, que pena que vocês não têm uma dessas por aqui. Vou indo então piscou e então se teletransportou para a porta não muito distante da cama.

— O que está fazendo, espere, lobisomem, preciso de uma amostra do seu sangue! — Anthony inutilmente pediu, sendo deixado para trás pelo semideus veloz.

Jeffrey não tinha entendido o que ele quis dizer com "lobisomem", mas ao passar correndo por um dos espelhos dos corredores do prédio entendeu. Absorto de tudo além da missão, o semideus tinha se esquecido de que estava fantasiado de lobisomem da cabeça aos pés (com direito a pelos sobre o macacão que servia de segunda pele e tudo).

No caminho da saída, parou na recepção para se informar das horas. Aflito por descobrir que já passava das sete da noite, se apressou para sair dali.

Ah, esse Anthony é louco, como esse cara virou dono disso aqui? Indagou antes de sair, realmente intrigado.

— Anthony? Oh não, querido, nosso chefe se chama Edward. Esse aí que você tá falando é o cientista fantasma — a senhorinha gargalhou — mas é só uma história de dia das bruxas que contam pra assustar as crianças que se internam aqui, não ligue pra isso — voltou a ler a revista, distraída.

Tenho certeza que sim riu ao saber que tinha sido brevemente capturado por uma assombração cientista que curtia fisting Happy Halloween, ma'am

(...)

Livre da fantasia e de volta à estaca zero, Jeffrey apelou até para as casas de bruxaria, na tola esperança de encontrar o que procurava em uma prateleira para encantamentos de proteção. Apesar de Nova York ser repleta dessas lojas, todas estavam cheias de pessoas ou com estoque quase vazio, dadas as festividades. Todavia, em uma delas acabou esbarrando em uma garota.

— Cuidado, mortal — a menina, que não parecia ter alcançado a maioridade por pouco, disse quando os dois esbarraram no corredor de itens para bruxaria.

Olha você por onde anda, eu hein rebateu, conforme pegou um apanhador-de-sonhos que caiu no chão pera, do que que você me chamou?

— Mortal, isso mesmo que ouviu — vociferou, com firmeza.

Você é abaixou o tom de voz, atento uma semideusa? O que tá fazendo aqui?

— Vim comprar umas coisas pro ritual de mais tarde. Você?

Tô atrás de uma erva mágica especial, mas não acho essa merda em lugar nenhum da cidade desabafou, já começando a crer que Nyx o tinha enviado ao lugar errado.

— Então hoje é seu dia de sorte, meu amigo, porque eu sei onde achar exatamente o que você quer — ela colocou uma mão sobre o ombro do rapaz, esbanjando um sorriso engraçadinho.

Realmente desesperado por qualquer tipo de ajuda e com o tempo esgotando, Jeffrey seguiu a menina até um local inesperado. Uma festa à fantasia que acontecia no ginásio de uma high school, com toda a certeza do mundo, não parecia o lugar certo para se encontrar a planta que prenderia o deus do Sol. Entretanto, era a melhor aposta que o grego tinha.

Aposta esta que dera errado, pois, ao aguardar no meio dos adolescentes fantasiados por mais de uma hora, ele descobriu de qual erva a garota estava falando: maconha. Um traficante local apareceu no evento e deu a "erva" para Jeff e ele apenas riu, incrédulo. Sem paciência, o meio-sangue pegou o baseado por pegar e saiu de lá.

Já estava se aproximando das dez da noite quando, sentado em um balanço numa pracinha abandonada, Kinkade decretou a missão um fracasso. Distraído com os pensamentos de tristeza, por não saber o que lhe aconteceria ao chegar no encontro sem o item que fora mandado recuperar, o filho de Hermes não viu quando eles apareceram.

Surgindo das sombras ao redor do cenário, três espectros apareceram para pegar o semideus que vagava pela cidade sem algum tipo de proteção. Aquelas criaturas eram típicas daquela época do ano, quando o véu que ligava o mundo dos vivos e dos mortos estava mais fraco. De saco cheio, Jeffrey sacou seu machado transformado em adaga e partiu para a batalha.

O garoto tinha um temperamento difícil e costumava explodir quando irritado, por isso viu nos monstros uma oportunidade de extravasar a frustração que sentia. Infelizmente, para ele, seus inimigos não eram tão fracos quanto a harpia de antes. Aproveitando-se da vantagem territorial, os espectros brincaram com sua vítima surgindo perto, atacando e então aparecendo longe novamente.

Ferido pelos cortes das garras espectrais, Jeff tentou pegar um de seus inimigos com uma estocada, mas eles apenas desapareciam em sombras. Era impossível para o jovem conseguir ferir qualquer uma daquelas criaturas, que continuavam a torturá-lo minando suas forças pouco a pouco. Inutilmente, o semideus continuou brandindo a adaga de um lado para o outro, frenético numa tentativa de se defender de alguma forma.

No momento em que suas energias quase se acabaram por completo, Jeffrey caiu sobre os joelhos e depois de bruços no chão. Quase apagando enquanto era rodeado pelos espectros, ele buscou pelo anel em seu bolso, o qual carregava para todo lugar como um totem de segurança, mas o que puxou não era a joia.

O pedaço de maconha enrolada em seda era a última coisa que ele poderia querer naquele momento, mas ao mesmo tempo sua salvação.

Abençoado por Nyx, o aventureiro viu a pontinha que tinha em mãos acender do nada. Em sua mente, a deusa começou a falar:

"Sanctorium não é só uma erva que protege ou anestesia, ela também é esperança, por isso seu nascimento em agosto, que é considerado o mês da esperança pelos americanos. Você precisou falhar para então perceber que perseverar era a única coisa que lhe restava. Sua tarefa era provar sua virtude a mim, Jeffrey."

Como em um passe de mágica, a erva brilhou intensamente e expurgou as criaturas sombrias que atacavam o filho de Hermes. Junto a isso, seus ferimentos se foram e, quando viu, estava sozinho novamente na pracinha. Em suas mãos, a perfeita folha que passara o dia inteiro procurando reluzia sob o luar. Um sentimento de gratidão e alívio tomaram seu coração, ao passo em que agradeceu pela ajuda.

Nyx, antes de enviar a carona, ditou algo a mais na mente do escolhido. Somente após isto o cavalo alado tão escuro quanto a noite apareceu. Assim, Jeff sobrevoou o território norte-americano e em poucos instantes alcançou Columbus, em Ohio. Lá, pousou em um cemitério bastante agitado. Adolescentes fantasiados corriam de um lado para o outro, entretidos entre si motivados por seus próprios motivos.

Silencioso e sozinho, o grego caminhou pelas lápides em busca do que procurava. Quando avistou duas figuras que exalavam grande poder próximas a uma cripta, se escondeu atrás de uma lápide grande o suficiente para isso. Eram Nyx e Hélio, que não tinha percebido sua chegada. O titã, que estava fisicamente presente, conversava com as sombras da deusa.

Está certa de que o Tártaro bastará? Hélio questionou.

Mesmo que descubram, os olimpianos jamais enviaram seus próprios filhos para lá Nyx respondeu e mesmo que o façam, teremos vantagem de terreno.

Faz sentido o titã concordou, no que uma luz forte vinda do céu surgiu no horizonte. Ele está vindo!

Quieto e sem julgar que sua entrada era necessária, o filho de Hermes escutou o início do diálogo entre as duas divindades do Sol. Em determinado ponto, Zero apareceu e ele o puxou para o esconderijo antes que o outro desse as caras. Quando foi a hora certa, Nyx ressurgiu e trouxe seus dois peões para campo, revelando o plano maligno.

Apolo sequer teve chance de reagir, tendo caído na armadilha e sido neutralizado pelo amuleto trago pelo filho de Eros. Assim, ao fim do ritual, o olimpiano foi capturado e levado diretamente para os confins do Tártaro. Curiosamente, antes de partirem, Zero perguntou para onde o capturado havia sido levado, mas a deusa preferiu não confidenciar a informação ao seus seguidores.

Pena para ela que Jeff tinha escutado a verdade escondido...

Esclarecimentos:
 

Habilidades Utilizadas:
 

Itens utilizados ou mencionados:
 
naxz @epifania

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