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 Missão Reciclada

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Beau

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Mensagens : 25
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MensagemAssunto: Missão Reciclada   Sex Jan 05, 2018 3:16 pm







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Observação Antes da Leitura:
 

Apoiava a mão numa espécie de balcão enquanto me levantava com um pouco de dificuldade, minha cabeça doía fortemente e a minha visão embaçada só se recuperou ao estar totalmente em pé.  Observei o local, vazio aparentemente, mas com vários destroços indicando que uma batalha havia acontecido recentemente ali. Que lugar era aquele? Como eu tinha ido parar lá? Eram perguntas que eu não sabia como responder por causa da dor que latejava sem parar. Avistei uma pia atrás do balcão, para onde me dirigi e abri a torneira para lavar o rosto. O primeiro flashback veio no momento que a água fria tocou minha pele.

Lá estava ele: grande, gordo e pesado. O ciclope, filho de Arges, ao qual estava procurando. Aquele que roubara o item de Ares. O bar estava cheio de seus capangas, que tinham mais cara de idiota que o poderoso chefão. Eu, sentado no banco do balcão, com uma capa que cobria todo o meu corpo e um largo capuz para esconder meu rosto em meio aos panos. Estava nervoso, nervoso o suficiente para cometer a burrada a seguir:

— Então, aquele é o big boss que roubou Ares?

Pra quê eu falei aquilo? O monstro magrelo ao meu lado avançou para cima de mim sem dar tempo de respirar. Caímos juntos no chão, embolando até próximo as mesas. Outros capangas entenderam  o que acontecia e rapidamente pularam em cima de nós. Aos poucos eu era sufocado com o peso deles enquanto recebia alguns socos e arranhões. Estava curvado no chão, com as costas para cima, sem conseguir ativar nenhum dos equipamentos. Mais uma vez, o instinto tomou conta de minhas ações, de alguma forma uma energia dentro de mim sempre sabia como agir nesses momentos em que não conseguia raciocinar direito.

Minhas asas se abriram vorazmente, lançando todos os capangas que estavam em cima de mim para longe, alguns caíram em cima de móveis, quebrando-os com o impacto. Saltei e planei na mesma hora, observando os que se levantaram para avançar contra mim novamente. Antes que pudessem me atingir, voei o mais alto que consegui dentro daquele local e concentrei toda energia em meu corpo, que brilhou de forma intensa um vermelho forte.

Os capangas que tentavam me atacar agora gritavam como se seu corpo estivesse em chamas e tampavam os olhos para evitar o brilho. Eles fugiram do local, derrubando tudo que viam pela frente, queriam se livrar daquela ardência em seus corpo. Logo o brilho finalizou e eu voltei a tocar os pés no chão. Olhei imediatamente na direção onde estava o ciclope e não restava uma alma se quer. Ele aproveitou a confusão para fugir.

Só o que restou foi um garoto, que estava escondido todo esse tempo atrás do balcão. Era o atendente dali, provavelmente era forçado a trabalhar pelo monstrão. Ele me olhou assustado e estendeu a mão com um copo de vidro com uma bebida transparente, talvez vodka. Eu não iria machucá-lo, ele parecia inocente. Agradeci com a cabeça e peguei o copo para tomar dois goles seguidos. É ele só parecia inocente mesmo. Minha vista embaçou.


Meu olhar foi direto até o local onde o ciclope estivera sentado, assim que a água terminou de escorrer pelo meu rosto. Minha cabeça ainda latejava, mas aos poucos diminuía. Apoiei o braço no batente da pia enquanto observava a água cair da torneira para o ralo. Certo, eu sabia o que tinha acontecido ali. Mas porquê eu estava atrás desse tal item?

Foi então que o outro flashback surgiu, antes mesmo de lavar o rosto mais uma vez. Nele, mostrava uma conversa minha com o próprio deus da guerra, onde ele dizia que eu lhe devia uma, depois de ter atrapalhado o encontro dele com Afrodite uma vez. De fato, ajudei Hefesto com isso, mas não sabia que ele tinha conhecimento da minha participação. O barbudo contou toda a história que aconteceu cinco anos atrás. Assim que terminou de dar as indicações da missão desapareceu. O tempo acelerou até que eu tivesse uma visão profética do local onde estava naquele momento.

Agora tudo fazia um pouco mais de sentido. Lavei os rostos algumas vezes pronto para sair e continuar a busca pelo tal objeto, quando ouvi barulhos de pneus do lado de fora do bar. As luzes do farol invadiu o estabelecimento através de uma janela quebrada no meio da confusão. Ao julgar pelo som dos passos nas pedras, com certeza tinha mais de uma pessoa ali. E eu estava certo. Os três integrantes da seita derrubaram a porta de entrada de uma vez. Fazendo um grande barulho ecoar no local e a poeira subir durante a derrubada,o que ajudou para que eu me escondesse atrás do bar antes de ser visto.

— Parece que a briga foi boa — Comentou uma voz feminina.

— Acha que ainda tem alguém aqui?

— Vamos descobrir.

E os passos eram possíveis de ouvir novamente. Desta vez dava para distinguir o salto alto dela do barulho das botinas dos outros dois. Eu precisava sair dali sem ser visto, ou então não conseguiria completar a missão. Prendi a respiração quando a luz azul de uma lanterna passou próximo ao local onde me escondia, provavelmente aquela luz tinha algum diferencial da de lanterna comum. Recuei o Maximo que consegui, batendo sem perceber em um copo de vidro que virou de lado, fazendo barulho suficiente para chamar a atenção deles.

— Shit — Falei baixo na mesma hora que mais duas luzes encontravam a que já estava lá. Os passos ficavam cada vez mais perto. O suor escorria pela lateral do meu rosto. Parecia que a minha respiração tinha parado de vez. Até que finalmente as grandes unhas vermelhas apareceram na borda do balcão, antes do rosto afilado surgir em seguida.

— Um pulguento!

Aquela era uma das habilidades dos guardiões que eu mais gostava: o metamorfismo. Antes de ela olhar o local onde eu me escondia, aproveitei para me transformar em vira-lata de cor acinzentada, com aparência acabada para combinar com o local. Eu lati em sua direção, um latido rouco e forte. A mulher de cabelos vermelhos fez uma careta de nojo em minha direção e voltou sua atenção para os companheiros. Aproveitei para sair dali de baixo e andar de quatro patas para um local onde pudesse vê-los.

— Não tem ninguém aqui. Foram mais rápido que nós — Afirmou a mulher enquanto chutava um copo com sua bota pontuda de salto.

— E para onde foram? — Perguntou o mais alto deles.

— Não sei, mas se continuar aqui dentro mais um minuto, pegarei alguma doença.

A mulher falou ao mesmo tempo em que se dirigia até a porta por onde entraram, voltando a fazer a expressão de nojo ao passar do meu lado. Rosnei em sua direção e esperei que os três saíssem para segui-los até o lado de fora. Sentei sobre quatro patas em baixo de um grande carvalho que tinha na entrada, observando-os partirem em sua Range Rover preta. Esperei que eles desaparecessem de minha visão para então retornar a forma humanoide com um sorriso no rosto.

A brisa gélida da noite refrescava o carvalho ao lado, balançando suas folhas ao passar por elas. Enfiei a mão dentro da jaqueta de couro preta que usava por baixo da capa, retirando de dentro do bolso interior, um espelho de mão adornado em ouro. Nunca imaginei que aquele presente de natal fosse me ser útil em algum momento. Após descobrir acidentalmente como funcionava, sabia exatamente como utilizaria ele ali. Após pensar sobre a história contada pelo deus da Guerra, o espelho mostrou a imagem de um garoto de cabelos pretos. O espelho não tinha me mostrado o ciclope que eu achava estar com o objeto roubado de Aros, mas sim um possível semideus com os olhos escuros.

Entendi na hora de que se tratava do demônio de Nyx que matou o filho da guerra anos atrás. Então minha ida até o bar tinha sido em vão, o item já estava sob posse do seguidor de Nyx novamente. Ele era grosso, gritava com um outro menino mais baixo que ele, que mostrava respeito pelo líder abaixando a cabeça durante a gritaria. A imagem ia se afastando, mostrando a sala em que estavam até mostrar a casa esverdeada na rua deserta e a frente da padaria que ficava ao lado. As imagens sumiram logo em seguida. Mas aquilo era o suficiente para saber onde encontrá-lo. Sabia a localização daquela padaria. Era uma antiga que ficava próxima ao Zoológico de Denver. Guardei o espelho antes de abrir as asas para voar até o local.

O voo não demorou muito, afinal não era muito longe de onde o bar estava. Aterrissei em frente a casa vista pelo espelho, voltando a esconder as asas ao tocar os pés no chão. A porta estava trancada, não teria como entrar por ali. Deia volta nela até encontrar a janela que dava na cozinha semiaberta. Tentando não fazer muito barulho, a abri o suficiente para atravessar e adentrar a suposta residência do demônio. Todos os ambientes estavam escuro, a única fonte de luz que iluminava o corredor próximo a cozinha vinha de um quarto no fim dele. Provavelmente o escritório que tinha avistado.

O silêncio permanecia ali, indicando que o semideus não gritava mais com o seu capanga, como o espelho tinha mostrado. Um clima estranho pairava o ar, me fazendo arrepiar a cada passo que dava na direção do quarto iluminado. Estava tudo muito quieto demais. Quando toquei na porta, para abri-la e olhar dentro do cômodo, fui atingido por uma forte pancada na nuca que me forçou a cair no chão e avistar sapatos pretos antes da visão escurecer de vez.

{...}

— Você realmente acha que eu não sabia da sua chegada?

A voz rouca do garoto invadia meus ouvidos no momento em que eu acordava do desmaio. Tentei levar a mão até o local da batida na nuca, mas algo me impediu. Foi então que percebi a situação em que estava: preso em uma cadeira, com os pés amarrados na parte de baixo do móvel e as mãos amarradas para trás. Minha visão já estava perfeita novamente e pude observar os dois demônios me encarando com sorrisos amarelados. Na mesma hora tentei ativar os anéis em meus dedos para transforma-los em correntes, mas não havia nada lá.

— Tá procurando isso aqui? — O garoto mais baixo falou apontando para a mesa ao seu lado, onde estavam todos meus equipamentos, inclusive a capa que não tinha nada de especial ,que usava apenas para disfarçar mesmo.

— O que vocês querem?

— O que nós queremos? — O demônio principal riu — Isso é o que nós perguntamos a você, semideus.

— Você tem algo que não lhe pertence — Enquanto falava, meus olhos pararam em cima de um medalhão de outro que o garoto de olhos negros usava em seu pescoço. No centro do objeto, a imagem de uma cabeça de javali parecia me observar o tempo todo. Era isso. Aquele animal era o símbolo do Deus!

— Então o velhote não esqueceu disso? — Ele perguntou enquanto segurava a corrente de ouro em seu pescoço, confirmando o que tinha imaginado há pouco sobre o item — Ele é meu por direito, eu matei seu filho e peguei para mim.

Fiquei calado. Como ele conseguia falar em morte como sendo algo tão normal? Os seguidores de Nyx eram tão ruins assim? Eu queria bater nele o mais forte que conseguisse, não por causa de Ares, mas pela índole que ele aparentava ter. Talvez ele só aprendesse quando sentisse na pele o que faz os outros passarem. “Aprende com a dor”. Ou será que esse ditado só funciona com pro amor?

O outro garoto, que posteriormente descobri se chamar Gary durante uma conversa dele com o demônio principal, andou até um canto da sala e acendeu um cigarro com um isqueiro. Era a minha oportunidade de fazer algo. Eles podiam ter pego meus equipamentos, mas eu ainda tinha meus truques. Gary então passou o acendedor para seu companheiro, indicando que o outro logo acenderia um cigarro também.

Dito e feito. O de olhos sombrios posicionou o cigarro em sua oca e começou a riscar o isqueiro para produzir fogo e acender o fumo. Exatamente o que eu precisava: fogo. Concentrei o olhar para o equipamento e esperei que a primeira pequena chama aparecesse para dar início ao meu plano. Foquei a energia na pequena chama azulada, aumentando-a rapidamente e lançando-a contra o rosto do inimigo. Gary correu até seu parceiro para ajudá-lo.

— Por favor, me concedam sua benção.

Orei baixo, antes de tentar puxar os braços e as pernas para torar as cordas que me prendiam. Minha prece tinha sido ouvida. A força que possuía fora aumentada de uma hora para outra. Permitindo que conseguisse romper as cordas. Pensei em correr até os equipamentos, mas era melhor aproveitar a chance que tinha: com uma corrida e um salto, caí com tudo sobre Gary, acertando sua nuca em cheio com uma cotovelada, apagando-o no chão e devolvendo o ataque que me receberam quando cheguei ali.

O outro avançou para cima de mim na mesma hora, já que o fogo em seu rosto já tinha desaparecido, embora a queimadura continuasse. Em suas mãos agora estavam garras afiadas,que cortaram meu braço esquerdo causando arranhões. Segurei-o pelos ombros impedindo-o de se aproximar mais e joguei o corpo para trás, caindo junto com ele.

— IDIOTA!

Ele bradou durante a queda. Utilizei da perna esquerda para afastá-lo e conseguir me levantar. Mas antes que pudesse realizar outro movimento de ataque,  três esferas de energia negra vieram em minha direção. Desviei de apenas uma, sendo acertado pelas outras duas e lançado para longe contra a parede. Ainda durante o movimento de batida na parede, avistei quando o demônio avançou em minha direção, imediatamente conjurei uma barreira mágica de cor alaranjada que impediu a sua passagem.

A barreira iria segurá-lo durante o tempo que eu precisava para me levantar após a queda e recuperar os itens de volta, retirando-os da mesa onde estavam. Assim que peguei todos ativei a Nebula no momento exato que o semideus destruiu a barreira. As quatro pontas afiadas da arma avançaram contra o homem, desferindo-lhe alguns golpes antes de se enroscarem por todo o corpo dele igual ao ataque de uma cobra.  

— Você nunca acabará comigo! — Ele gritava enquanto tentava se soltar das correntes.

— E quem disse que eu farei isso? — Um sorriso perverso surgiu em meus lábios. Eu não iria matá-lo, longe de mim fazer aquilo. Mas o entregaria para o deus e ele decidiria o destino daquele pobre coitado.

Movimentei os dedos ao mesmo tempo em que controlava o ar ao redor dele. Impedindo que tal elemento chegasse em suas narinas, criando um vácuo no semideus por causa do desvio que fazia das correntes de ar. Aquela maldade só durou alguns segundos, o suficiente para ele suspirar sufocado e seus olhos revirarem, indicando o desmaio.

Gary continuava desacordado no chão. Mas era questão de tempo até ele se levantar. Aproveitei para colocá-lo sentado na mesma cadeira que me colocaram anteriormente. Amarrando-o da mesma forma, com umas cordas que encontrei no canto da sala. Ele já começava a demonstrar que acordaria, quando me afastei,criando um glifo de fogo ao seu redor.

— Está vendo esse circulo vermelho a sua volta? — Perguntei enquanto ele abria os olhos e observava o em torno — Você está bem no meio dele. Uma movimentação se quer e sua alma queimará até no submundo.

Seus olhos arregalados foram a última coisa que vi antes de dar meia volta e caminhar para fora da casa, controlando as correntes para trazer o demônio desacordado logo atrás. Eu até que tinha talento pra maldade. Soltava uma risada rápida com o pensamento, enquanto parava na beira da calçada do local. Eu precisava levá-lo até Ares e só tinha uma maneira de fazer aquilo: Assobiei o mais alto e agudo que conseguisse. Retirei um dracma do bolso enquanto esperava o táxi velho parar na minha frente. Abaixei, olhando para as três irmãs cegas que dirigiam o veículo.

— Empire state, o mais rápido que conseguirem.

Equipamentos:
 

Poderes e Habilidades:
 

Habilidades Ativas do Demonio de Nyx:
 

Duplicador:
 


Kyra
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Abramov Levitz

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MensagemAssunto: Re: Missão Reciclada   Qui Ago 23, 2018 1:48 am


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Abramov Levitz

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MensagemAssunto: Re: Missão Reciclada   Sab Ago 25, 2018 5:52 am

THEFROZENLAKE
A agitação da cidade de Nova York era observada pelo semideus que repousava na escadaria de emergência de um prédio residencial aleatório. À noite era mais fácil para ele se manter camuflado e quieto - precisava descansar, ainda que fosse mais resistente que os meros mortais. Sobre sua roupa simples estava apenas a jaqueta de couro preta que o aquecia em meio ao clima gélido da madrugada.

Apoiando-se em seu perfume inebriante para continuar escondido, Gideon permitiu que as pálpebras cansadas de seus olhos se fechassem e então cochilou. De tão exausto, seu cochilo rapidamente se tornou um sono profundo e com este veio o sonho. Nele, o rapaz vagava por uma vastidão branca e sem fim. O chão não estava coberto de neve, mas não parecia ser feito de terra ou pedra. Era como um limbo. Confuso, ele seguiu sem rumo por alguns minutos. Estava relaxado naquele ambiente isolado, no fim das contas.

Em determinado momento, a branquidão do chão deu lugar a uma superfície congelada e transparente. Na verdade, não era possível ver exatamente o que tinha embaixo de seus pés, mas um cintilar forte e cegante denunciava a presença de algo igualmente precioso à sua causa. Interessado em saber do que se tratava aquela visão, o demônio percebeu a repentina comparência de outro alguém.

Ou, naquele caso, de uma divindade.

Minha senhora — Cox se ajoelhou tão depressa quanto o brilhar das estrelas no manto escuro que cobria Nyx.

— Meu escolhido — a deusa cumprimentou. Ela nunca soava de maneira carinhosa, mas tinha um ar afetuoso mesmo assim - como uma mãe que ama seus filhos e os trata de maneira rígida para os por na linha. — Há algo que preciso que faça. Sei que já o designei para uma outra tarefa, mas isso é de mesma urgência.

O semideus se levantou e manteve a boca calada. Não era mal-educado para interromper a própria matrona.

— Vá ao Maine e traga minha coroa, Gideon — ordenou antes de desaparecer.

De supetão, o demônio acordou e percebeu que já estava amanhecendo. A sensação que teve foi de que apenas poucos minutos tinham se passado durante o sonho, contudo aquela ilusão tinha durado muito mais do que o que aparentara. Seus olhos estavam ardidos por conta luz solar forte contra eles e quando os coçou, ardeu ainda mais pela remela seca. Apesar de revigorado, aquele momento definitivamente não poderia ser considerado como "acordar com o pé direito".

Não quando o barulho do caminhão de lixo o despertou por completo.

Apressado como só, o meio-sangue disparou escadaria abaixo até que voltou às ruas de Nova York. Não sabia ao certo o que exatamente estava procurando, muito menos como iria para outro estado, mas sabia que sua líder era exigente e provavelmente esperava que aquela tarefa fosse cumprida com ímpeto. Assim, optou pelo mais seguro e rápido: ônibus.

A rodoviária central da metrópole estava constantemente lotada com os mais diversos tipos de pessoas. A cidade que nunca dormia era destino final de centenas de carros e estes chegavam e saíam de lá a todo instante. Dessa forma, não foi tão difícil para o semideus se misturar em meio à multidão e usar seu charme natural para conseguir um lugar na janela em direção ao seu destino. Mamon tinha sua retaguarda, então dinheiro nunca era problema para alguém que podia ter o ouro que quisesse na palma da mão.

Camuflado com o odor especial, o meio-sangue seguiu viagem em paz até o norte de Vermont, quando o primeiro sinal de perigo apareceu. Tendo recém se envolvido em confusão com a Seita, Gideon estava sendo procurado sob o nome de "Zero". Sua aparência era uma mistério em grande parte, todavia um esboço detalhado já estampava alguns cartazes e dava direção aos perseguidores. Então, quando ele reconheceu a movimentação estranha dos agentes no portão de desembarque, agiu.

Ardiloso, o demônio esperou todos saírem do ônibus para usar a viagem pelas sombras sem ser notado. Ele era capaz de ir para qualquer lugar com aquele poder, mas temia acabar desaparecendo pelo uso abusivo. Assim, mentalizou o banheiro público da rodoviária e apareceu lá. Para sua sorte, uma das cabines estava vazia e foi exatamente nela em que surgiu. Local oportuno, pois a vontade de vomitar quase o fez usar o vaso ali mesmo.

Com alguns minutos de recuperação e revitalização, Cox mudou a aparência para uma mais desleixada e beirando ao status de "sem teto", no intuito de se misturar aos moradores de rua da região. Muitos deles, inclusive, margeavam o local em busca de comida ou dinheiro. Uma estratégia que poderia ser considerada baixa, mas que servira perfeitamente para a situação.

Impedido de embarcar em qualquer ônibus ou transporte público interestadual, Giddy parou em uma lanchonete aleatória para se alimentar. O capeta que o acompanhava estava inquieto e ansioso, murmurando dizeres a respeito de um ditado envolvendo um ladrão que roubava ladrões. Mamon queria vingança daquele que roubara um dos fragmentos de Moros antes que ele pudesse colocar as mãos no item. Entretanto, a dupla ainda precisava seguir as ordens de Nyx primeiro.

Dois dias após o início da jornada, Gideon ainda estava em Vermont sentindo o cerco fechar. Ele não conhecia aquele estado e muito menos a cidade em que estava. Fraco por conta da viagem nas sombras, acabou se envolvendo em uma breve confusão ao usar o charme erroneamente em um comerciante. A confusão chamou a atenção de uma harpia e esta espalhou a presença do semideus para todos os seus contatos na metrópole.

E então a caçada estava iniciada.

Zero só ficou sabendo do seu descobrimento quando foi atacado em um beco por dois cães infernais. Apesar do susto inicial, ele conseguiu lidar com as bestas sem muita dificuldade. Todavia, cerca de uma hora depois, quando um lestrigão o encontrou em um cruzamento e arremessou um extintor de incêndio em sua direção, se tocou de que algo estava errado.

Sendo perseguido tanto pela Seita quanto por monstros, o filho de Eros precisou pensar muito em como sair daquele lugar. Mamon queria que ele voltasse a viajar pelas sombras, mas o garoto sabia que era arriscado demais. Teimoso como só, o grego encarou todas as criaturas que se colocaram em seu caminho por mais três dias. Três dias sem descanso ou paz, dormindo e acordando em locais aleatórios para evitar ser pego desprevenido.

Quando o fim da primeira semana havia chegado, Nyx avisara através de um sonho que o prazo estava acabando. Gideon não poderia se prolongar mais naquela cidade. Teria de sair dali de uma maneira ou de outra. Continuar enfrentando os monstros, por mais fracos que pudessem ser, culminaria no esgotamento de suas energias e consequentemente morte. Passar direto pela Seita também. Viajar pelas sombras, em uma probabilidade altíssima, igualmente.  

Preciso arriscar tudo, pra conseguir tudo — comentou sozinho, olhando-se no espelho do banheiro de um bar.

Escolher uma das opções provavelmente fora uma das mais difíceis decisões da vida do demônio. Suicídio era o pior dos pecados de acordo com os ensinamentos cristãos, mas não era ele o desvirtuado que havia renunciado o restante de sua inocência em prol da ganância? Ou seja, o ato soara apenas como mais um capítulo da vida inconsequente de Gideon Cox. E sua escolha? A mais lógica:

Uma passagem para o Maine. Qualquer cidade, por favor — pediu à vendedora, de volta à rodoviária.

O plano para passar pela Seita era simples, embora cheio de riscos e sem um final firme. O semideus sabia que todos os ônibus seriam parados nas dividas do estado, então ele sentou no último assento colado na janela. Em seu disfarce, era apenas um jovem adulto cansado e sonolento. A mulher sentada ao seu lado parecia não suspeitar de nada - até porque não havia o que suspeitar.

Quando o veículo chegou na blitz imensa que parava a grande rodovia, o coração do legado começou a acelerar. Ele só teria uma chance e, se seus cálculos estivessem errados, aquele poderia ser seu fim. Assim que os olhos entreabertos do olimpiano flagraram o agente da Seita que havia adentrado o meio de transporte para inspeção, sua ação foi feita.

Abusando das capacidades possessivas da trupe da deusa primordial, Zero deixou seu corpo transcender ao físico e possuiu o homem. A sensação de estar em outro corpo foi estranha e diferente. Mesmo mover as mãos parecia um comando a parte, como estar assistindo a seu personagem através de um jogo. O momento de confusão foi rápido, pois Mamon - que o acompanhara por serem um só -, o lembrou do tempo limite.

— Tudo limpo — o possuído disse ao seus companheiros, quando desceu do ônibus.

Gideon assistiu através de outros olhos sua carona desaparecer pouco a pouco na estrada. Poucos minutos depois, quando já não conseguia manter a conexão, sentiu o corpo do mortal fraquejar e então tudo apagou. No mesmo instante seus olhos se abriram novamente e ele se viu de volta ao próprio corpo. O acordar foi tão súbito que um breve grito escapou por entre seus lábios, o que assustou a mulher sentada ao lado que não esperava o rapaz sonolento agir daquela forma. Mesmo com o constrangimento no final, ele havia conseguido despistar a organização.

Vitória.

Temporária.

Quando o enviado da noite enfim alcançou o estado destino, deparou-se com toda uma mobilização por parte da Seita na rodoviária. O ocorrido com o possuído com toda a certeza resultou em um alerta de atenção naquela região, pois ele nunca tinha visto tantos soldados inimigos reunidos em um só lugar. E o pior de tudo, ninguém estava autorizado a descer dos ônibus, ou seja, escapar pelas sombras novamente não era uma opção.

"Hora do show, criança", Mamon riu da situação, curioso para saber como seu escolhido sairia daquela armadilha.

Na hora em que dois agentes subiram no ônibus de Gideon, ele rapidamente ativou o primeiro selo. Medo se espalhou pelos mortais e os agitou, dando início à confusão. A mulher sentada ao lado do meio-sangue foi uma das primeiras a se levantar, o que permitiu que este se deitasse no vão entre os bancos. Quietinho ali, ele ativou a invisibilidade para ganhar tempo despercebido e, sem se mover, evocou o poder sobrenatural para sair dali através das sombras.

Diferente da última vez, o legado de Hades não teve tanta sorte ou controle de seu destino. Ao surgir ao lado de uma das cabines de telefonema escondidas próxima à bilheteria principal, todos ali presentes repararam na esquisitice. A gritaria que deu segmento ao surgimento repentino chamou a atenção tanto dos soldados quanto dos monstros na região.

Perdido, Cox correu em direção à rua empurrando tudo e todos pela frente. Esperto, sabia que seus inimigos armados não atirariam ali correndo o risco de atingir inocentes. Só que o mesmo não podia ser dito sobre os monstros. Uma dracaenae que estava de passagem percebeu a movimentação e tentou interceptar a corrida do semideus. Contudo, ele saltou por cima dela e rolou após a queda. Sem domínio do rolamento, acabou esbarrando em uma lixeira e se enrolou.

Atrapalhado, o demônio abriu o segundo selo e colocou todos uns contra os outros. Caos em cena. Um dos soldados da Seita tentou capturar o rapaz por trás, mas este deu uma cotovelada em sua barriga para se soltar e invocou Destemor, as espadas gêmeas, para retalhá-lo em um giro para trás. Em seguida, chutou a lixeira caída ao lado para cima da dracaenae e disparou em sentido à liberdade de novo.

Uma barreira humana de soldados já tinha cercado grande parte da saída norte, a qual dava direto na cidade. Giddy viu o que o esperava e deu meia-volta. Ao se virar, um cão infernal disfarçado saiu das sombras de uma criança e saltou em cima dele. A mordida em seu braço direito quase o fez largar uma das espadas, mas a mão livre cravou a lâmina no animal e o matou.

A mulher meio-cobra ainda estava viva e tentou capturar o semideus com uma rede boleadeira. Ágil como só, o moreno ativou as asas e ganhou altitude afim de escapar do projétil. Escolha errada. No ar, ele foi um alvo fácil para as armas de fogo e então uma chuva de tiros teve início. O demônio instintivamente usou as asas para se proteger, mas um dos tiros atingiu seu ombro esquerdo.

Ferido, ele caiu no chão e assistiu a todos se atacarem e discutirem. Não fossem os selos da discórdia agindo sobre os mortais e monstros, teria sido pego naquele instante. Não obstante, uma menininha o encarou e sorriu. Ela parecia reluzir em meio ao cenário, como se fosse uma aparição ou uma intervenção divina. Em sua cabeça, uma coroa de papoulas recaía sobre os fios castanhos e encaracolados.

Convicto de que aquele era mesmo o sinal de sua deusa, Gideon se levantou e correu como pôde em direção à criança. A menina passou pela bilheteria e seguiu em direção ao estacionamento de ônibus. Recorrendo à invisibilidade novamente, ele manteve-se despercebido na medida do possível (afinal, o que não faltava era distração para os outros). A caminhada pelos veículos deu em um matagal e, após correr pelo mato, os dois alcançaram um pequeno rio.

Espera! — tentou gritar para a garota, mas esta continuou a correr em sentindo conjunto à correnteza.

Zero ousou seguir a figura infantil, mas seus ferimentos o impossibilitaram de continuar e logo a perdeu de vista. Já era fim de tarde quando o demônio se encostou em uma das árvores para descansar, após horas seguindo o rio. A cápsula enfiada em sua carne precisava se retirada, porém o risco de remover o projétil sem equipamentos decentes era alto.

Arriscando a própria vida, Gideon usou as próprias garras para alcançar a bala na parte fronta do ombro. Com a ponta delas, retirou o objeto de dentro do corpo e então o jogou na água. Um grito gutural assustou os pássaros da região, pela dor tamanha da remoção. Com as mãos sobre um pedaço da camisa que tinha rasgado para estancar o sangramento, ele se arrastou até a parte interna que beirava o riacho para se acolher nas sombras de início de noite.

Aquele era o oitavo dia desde o início da missão e, ao mesmo tempo em que parecia estar perto de seu destino, não sabia para onde seguir. As instruções tinham sido claras: ir ao Maine e recuperar a coroa. Mas àquela altura ele já estava lá e o paradeiro do lago congelado, onde supostamente o artefato estaria, era desconhecido.

Quando menos percebeu, seus olhos começaram a pesar e o sono o pegou. Exausto e fraco por conta do sangue perdido, o aliado de Nyx adormeceu por algumas horas até que o barulho dos cães o acordou. Alarmado, ele notou que o ferimento já tinha se fechado por conta da cura sobrenatural e que os agentes estavam na sua cola.

A geada da divisa com o Canadá já caía de maneira forte quando o semideus voltou a correr pela floresta densa. A perseguição com direito a latidos, lanterna e gritos durou por longos minutos. Gideon estava cansado e, não fosse a aura noturna que aumentava seus atributos físicos, provavelmente teria caído de exaustão.

Em determinado momento, quando os soldados do governo já estavam na cola do fugitivo, o chão de terra com galhos deu lugar a um grande ringue de patinação. Ou pelo menos foi a primeira impressão que o demônio teve. Toda a superfície do solo era branca e lisa. Pisar era perigoso, pois sem fricção adequada nas solas dos pés ou controle corporal avançado qualquer um poderia derrapar e cair.

O lago congelado — sussurrou, incrédulo.

Ele sabia que, no meio mágico, encontros predestinados aconteciam com mais frequência que o esperado. Objetos especiais que iam até seus escolhidos, ou locais que apareciam para quem necessitasse. Todavia, aquele caso fora específico e perfeito demais. A oportunidade de agarrar o item e fugir estava ao alcance do meio-sangue, mas sua ganância mais uma vez falou mais alto.

Disposto a eliminar a oposição primeiro, as asas de morcego apareceram nas costas do filho de Eros e então ele planou. Como uma figura divina no céu escuro em meio ao nada, aqueles eram os pecadores e o anjo caído o carrasco.

"Faça-os pagar", Mamon pregou na mente do rapaz.

Uma chuva de espinhos contrapôs a chuva de balas e projéteis dos dos tipos caíram sobre a superfície do lago. Ao abrir a boca, o capeta expeliu uma névoa negra e esta cobriu todo o cenário. Com os agentes cegos, Zero, que enxergava normalmente, mergulhou e fez seu banquete reluzente. Ao fim do nevoeiro, inúmeras estátuas de ouro brilharam para desespero dos sobreviventes.

Mesmo com a desvantagem e medo, os mortais treinados para aquilo continuaram a atirar. Foi praticamente impossível para eles conseguir atingir um tiro que fosse, devido à velocidade alta do demônio de asas - e, para complementar, quando alguma cápsula conseguia atingir a direção certa, os tentáculos surgiam para levar o tiro no lugar.

O maior momento de tensão foi quando Giddy repetiu o mergulho e um dos homens desviou de seu toque. Ao contrário, este que tocou o garoto ao puxá-lo pelo pé. O puxão derrubou o semideus e o deixou vulnerável - além de dolorido pela pancada contra o gelo. Caído, ele fechou as asas para se proteger dos ataques físicos e então as abriu com força máxima para empurrar os agressores.

De pé em um salto, o grego atirou mais espinhos com os membros de morcego e matou quase todos seus oponentes. Somente um deles restou de pé, ferido demais para segurar qualquer arma, mas persistente o suficiente para falar.

— O que é você — o homem perguntou, em uma mistura de bravura por continuar a encarar o demônio e temor devido ao mesmo ato.

O que sou eu? — Avareza assumiu o controle do corpo. — Eu sou a razão de vocês mortais acordarem todo dia. Eu sou o sentido do mundo, o combustível da vida. Eu sou aquilo que te fez vir atrás de mim, mesmo sabendo que seria sua sentença de morte — um sorriso demoníaco foi exibido ao fim do discurso, seguido pelo bote que matou o último mortal de pé.

Sangue, cadáveres e ouro decoravam o lago congelado. Gideon sentiu os ferimentos da batalha de maneira intensa, mas a escuridão que não o abandonava nunca fez a dor passar. Seu sangue negro parou de escorrer e então o brilho chamou a atenção do enviado de Nyx. Em meio ao caos e morte, a figura da coroa reluzia abaixo da espessa camada de gelo.

Cox usou toda a sua força para quebrar uma parte do gelo e então, destemido, mergulhou. A água gelada fez com que seu corpo quente da batalha sofresse um choque térmico. Por um minuto inteiro ele afundou sem controle das ações, segurando a respiração ao máximo. A morte pareceu seu fim quando subiu novamente, dando graças ao oxigênio por poder respirar.

Tremendo e traumatizado, ele xingou o nada por não conseguir alcançar o que queria ali embaixo. Aquela não seria a primeira vez em que seu objetivo escaparia bem diante de seus olhos. Não obstante, seria a última. Em um momento de lucidez e inteligência, o daemon se lembrou da garotinha que o guiara para fora do perigo na rodoviária. A tiara que ela carregava na cabeça tinha sido a mensagem que precisava para distingui-la.

Eu vejo você — Giddy se virou para uma das árvores que beiravam o lago e, em seu topo, a coroa de papoulas cintilava pendurada entre os galhos.

Com o item em mãos, o demônio entrou novamente na floresta e, lá, acendeu uma fogueira. Em uma prece silenciosa, breve e objetiva, ele jogou o item sagrado nas chamas e o assistiu ser consumido por estas. Aquela era a maneira grega de dedicar algo aos deuses e, ao mesmo tempo, a mais rápida de entregar-lhes algo.

Tão rápido quanto a fumaça que ascendeu aos céus, o demônio desapareceu na escuridão do local. Em seu rastro, apenas sangue e ouro. Uma combinação comum nos termos mundanos e que parecia tecer as ações obscuras de Gideon Cox, como em:

As crônicas de sangue e ouro.

Arma utilizada:
 

habilidades - demônio de nyx:
 

Habilidades - Filho de Eros:
 

Habilidades - Legado de Hades:
 

 

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MensagemAssunto: Re: Missão Reciclada   Qui Set 06, 2018 5:46 am

God ends Here
"Pensando em conseguir de uma só vez todos os ovos de ouro que a galinha poderia lhe dar, ele a matou e a abriu apenas para descobrir que não havia nada dentro dela."
— Esopo


O padre recitava os nomes sem intervalo, jogando para os fiéis a rápida e passageira chance de pescar aquele que o acometesse. A missa que parecia não ter fim abrigava incontáveis cristãos durante a tarde chuvosa de seis de setembro. Era possível ouvir o som dos carros no transito de Nova York mesmo dentro da igreja, mas isso não parecia incomodar ninguém ali dentro com exceção de uma pessoa.

Gideon estava sentado na terceira fileira mais próxima do altar. Com um robe preto cobrindo todo seu tronco, seus cabelos negros caíam sobre suas mãos juntas para a reza. O momento de quase silêncio para os pedidos e bons votos era aproveitado por ele, que sussurrava de olhos fechados seus anseios e pensamentos positivos.

Aquela era a missa de sétimo dia da morte de Margareth, a ex-agente da Seita que havia sido assassinada pelo demônio ali presente. Postado ao lado do viúvo, o jovem adulto se passava como o perfeito sobrinho distante que tinha recém descoberto a tia já quando a tinha perdido para todo o sempre. E ele era excepcional naquilo. Desde as lágrimas aos murmúrios de lamento pela perda, consolando seu tão alegado e querido tio naquele momento de infortúnio.

Ainda que empenhado em conquistar a confiança do homem, pois julgava que ele ainda era uma conexão com a organização governamental, a voz em sua cabeça não o deixava em paz. Desde o encontro com Moros, o deus do destino, quando Cox havia perdido todas as lembranças e sido varrido da memória global, aquela entidade não tinha saído de seu encalço. Ela o instigava a se comportar de maneira diferente. O encorajava a realizar atos impensáveis. Sussurrava desejos até então desconhecidos a ele.

Mesmo ali, em meio a uma missão, ela não o deixava em paz.

— Olhe ao seu redor. Veja como reluz — a voz da entidade referia-se ao dourado da decoração da paróquia.

Como uma igreja tradicional e inspirada no movimento cultural gótico, que perdurou-se até o advento do Renascimento Italiano, os adornos e detalhes tridimensionais folheados a ouro eram o maior destaque do local. Até mesmo as pinturas a óleo eram emolduradas em ouro e os vitrais dos janelões tinham seus acabamentos em mesmo material.

— Não é lindo? — ela perguntou bem no cantinho de sua mente.

A resposta era óbvia: sim. No entanto, ele não se sentia atraído por nada daquilo. Em verdade, pouco se importava com os valores daquelas peças ou o que elas poderiam lhe garantir. Mister M, como a entidade gostava de ser chamada, estava junto do semideus a mando de Nyx para vigiá-lo e guiá-lo durante a nova etapa de sua jornada, mas havia algo extra. Uma conexão entre ambos, motivo pela qual a deusa escolhera aquela dupla em específico. Só que mesmo o visitante não conseguia entender o que os conectava.

Eram como dois opostos: um cheio de desejos e cobiças e o outro vazio de ânsias e apegos.

Entrarei em contato assim que possível, tio — o meio-sangue beijou a mão do viúvo, conforme se despediu deste na entrada da igreja. Não podia arriscar andar por aí acompanhado do mortal, então se aproveitou do fluxo de pessoas pós-missa para sumir logo após a despedida.

Naquela noite, Gideon sonhou com um local até então desconhecido para ele. Sem lembranças dos dias anteriores àquele, o sonho foi recebido com surpresa pelo rapaz que não sabia como se portar em um. A obviedade de que não se tratava de uma realidade ficou clara nas paredes escuras e psicodélicas do corredor, todavia as sensações eram reais demais para se duvidar.

Uma voz sedutora instigava o jovem a caminhar em sua direção. Ela dizia que o que ele procurava estava atrás da porta ao fim do corredor, mas o que estava escrito na mesma porta o deixou arrepiado. "Deus termina aqui" era uma referência clara a uma passagem bíblica de Apocalipse, na ala secreta de uma abadia onde outrora demônios foram invocados.

Ver aquilo fez com que o coração do semideus acelerasse. Um medo sem igual tomou conta de todo seu corpo e seus membros estremeceram. Ele não se recordava de ser tão religioso assim, contudo aquela citação havia de fato mexido com seu âmago. Mesmo temoroso, seus passos rumaram em direção ao proibido e, quando encostou na madeira entalhada, a porta se abriu e com uma ventania forte o sugou para a escuridão.

— Ei. Você não pode ficar aqui — um porteiro velho acordou o garoto do pesadelo.

Deitado sobre o concreto do terraço de um prédio aleatório, o meio-sangue abriu os olhos de supetão pela claridade do amanhecer. Sua respiração estava pesada e o suor do nervosismo tinha encharcado a camiseta que vestia por baixo do robe. Atordoado, ele virou a cabeça para o lado e reparou no mortal que o estava enxotando daquele lugar.

Se fosse Gideon em plena consciência, uma simples desculpa embebida em charme bastaria. Porém, havia alguém mais junto dele naquele momento. Mister M lembrou ao menino de que ele tinha o direito de estar ali. De que o não ter nada era revoltante e que aquela era a prova maior de que o poder movia o mundo. Então por um momento o grego foi movido pelo interesse. Aquele lugar, por mais tosco e desaconchegante que fosse, era dele e o velho não o tomaria de si.

Eu posso ficar onde eu quiser, porque em breve o mundo será nosso novamente — respondeu com um sorriso sombrio antes de usar os poderes de Hades para sufocar o homem até a morte.

O barulho das sirenes da polícia já estavam desparecendo no fundo quando o demônio se perdeu novamente em meio às ruas da cidade. Estava se sentindo estranho sobre o assassinato, como se fazer o certo parecesse errado. Ou seria o contrário? A incerteza sobre tudo o que fazia parecia ser a única certeza em sua vida - além de Nyx, claro.

Focar na deusa e seu objetivo maior deu uma direção ao semideus que não sabia para onde seguir. De olhos fechados em um beco, ele se concentrou na voz de Moros. De acordo com o deus, bastava que o receptáculo se concentrasse na escuridão para encontrar onde estavam as flechas. Três delas estavam espalhadas ao redor do país. Fragmentos do poder maior do deus do destino, que tinha sido estilhaçado com o passar do tempo.

Gideon era o receptáculo do deus menor, não diretamente pois mesmo sendo um demônio carregar toda a essência de uma divindade era demais, então com a ajuda dele estava em busca de reagrupar as fontes de seu poder e por o plano da Noite em prática. Sendo aquele o ponto final antes de estagnar nas décadas, a primeira flecha estava em algum lugar daquela metrópole.

Paróquia de São Peter — falou em voz alta o que leu na visão.

Um pequeno calafrio percorreu a espinha de Zero. Até algumas horas antes ele tinha tido um pesadelo envolvendo um local "sagrado" e estava atrás de outro local de mesmo cunho. Porém, Mister M interrompeu o momento e lembrou ao garoto de que havia um encontro marcado com Ellioth em uma cafeteria próxima. Seria prudente de sua parte comparecer, para não perder contato com seu "infiltrado" e comprometer a missão paralela. De acordo com isso - e levemente assustado com o destino posterior -, ele rumou em direção ao tal encontro.

Já na cafeteria, Cox aguardou por dez minutos antes de receber o homem à mesa. O viúvo, que apesar de não muito velho, tinha rugas por toda a testa mesmo quando sereno. Contudo, durante o encontro, uma fricção exagerada em sua epiderme era evidente pela constante expressão de preocupação. Gideon conversou sobre o futuro do "tio" e de como as coisas andavam, mas não pôde evitar notar que algo estava errado.

Os nespressos do tipo ristretto pedidos por ambos estavam esfriando na mesa enquanto a conversa fluía. O meio-sangue reparou na inquietude das mãos de sua companhia, que continuava a mexer no café com a colher sem parar. A movimentação dentro da loja de frente para o Central Park estava escassa mesmo para o primeiro horário do dia. Entretanto, somente quando ele viu pelas vidraças que substituíam as paredes frontais o carro preto parar lá fora, entendeu o que estava acontecendo.

Há algo que queira me contar, tio? — indagou de maneira calma, seguido por uma golada única e finalizadora na bebida fria.

— N-não — o homem engoliu em seco. No instante depois, um casal suspeito adentrou o local e se sentou ao balcão.

Sei que está mentindo — disparou sem firulas ou simpatia, o que deu ainda mais convicção à sua afirmação.

— Eles disseram coisas absurdas a seu respeito. Que você estava me enganando — se apoiou sobre a mesa e colocou a mão à boca para sussurrar — que era um deles.

Um deles? — levantou a cabeça para olhar o outro de cima.

— S-sim. Uma — Ellioth se engasgou — uma das aberrações.

O diálogo foi interrompido por um sacar rápido de armas por parte do casal recém-chegado. Gideon já previa aquilo, então quando ameaçado pelos dois, desapareceu em um piscar de olhos sem deixar rastros. A bendita invisibilidade de Eros caiu como uma luva para a situação. Invisível, o semideus considerou correr para os fundos da cafetaria, mas a entidade o impediu. Ela estava agitada e furiosa. Queria que ele mostrasse aos agentes da Seita em posse de quem estava o controle daquela situação.

E ele mostrou aos insolentes.

Ao romper o primeiro selo, Zero transferiu todo o medo acumulado dentro dele para seus inimigos. O alívio causado por isso deixou a sensação de observar as pessoas no recinto em pânico ainda melhor. Mesmo os membros da organização não resistiram à aura e abaixaram as armas. O demônio se aproveitou disso para correr em direção a eles (já que sua invisibilidade não era perfeita e se mover acabava denunciando sua imagem). Com o garfo que vinha junto dos talheres das mesas, ele espetou um dos olhos da mulher e a derrubou.

A brutalidade da cena espantou todos os mortais ali presentes com exceção dos envolvidos na confusão. Giddy inutilizou um de seus oponentes, mas o outro reagiu à ação. Recorrendo à arma de fogo, o homem disparou duas vezes contra o jovem adulto. O primeiro tirou atingiu o ombro esquerdo do alvo de raspão e o segundo foi protegido por um tentáculo negro.

— O-o que — Ellioth assistia ao combate abaixado sobre a mesa.

Sinto muito, tio. Não queria que você soubesse essa pequena verdade a meu respeito — ele debochou com um sorriso largo estampado no rosto.

Os tentáculos surgiram a partir das costelas do daemon e se esticaram para agarrar o agente armado. O toque da mucosa do membro intensificou o medo no mortal e o deixou agonizando enquanto sufocava no apertão. A entidade riu na mente do garoto, completamente entretida e satisfeita com a posse do poder em meio ao momento. Entretanto, a mulher ferida conseguiu pegar a arma novamente e, mesmo cega de um olho e caída no chão, atirou no meio-sangue.

A bala atingiu a coxa direita de Gideon e ele mordeu a língua instintivamente. Só não caiu ali mesmo porque conseguiu se apoiar no balcão. O sangue do demônio ferveu e ele se virou como pôde para também agarrar a mulher e a sufocar com os tentáculos. Se continuasse assim seria capaz de torturar ambos antes de os matar, mas as portas do carro preto fora da cafeteria se abriram e mais pessoas desceram delas. Mister M tomou controle da situação e fez com que o legado de Hades abrisse o segundo selo.

Todos na região começaram a se estranhar, movidos pela desconfiança súbita e isso os distraiu. Mesmo os agentes da Seita, que eram aliados entre si, perderam tempo com discussões bobas. Aquela era a oportunidade perfeita de sequestrar um deles, pensou. A ganancia fez com que ele tentasse arrastar o homem que já estava em seus tentáculos.

— Você não vai conseguir levar ele, fuja — Ellioth tentou alertar, ainda compadecido e provavelmente louco por defender o semideus.

Não! Eu preciso dele — sua voz soou demoníaca demais, como se não fosse o garoto respondendo sozinho.

E não era.

O efeito do segundo selo não perduraria por muito tempo. O ferimento a bala tinha enfraquecido o meio-mortal demais e continuar usando os tentáculos apenas forçava ainda mais a ferida. Ainda assim, Zero tentou ao máximo e, somente quando viu os outros agentes entrando na cafeteria, fugiu. Com a ajuda das sombras dos fundos do estabelecimento, ele viajou por elas até um armazém seguro na mesma cidade.

Havia muita poeira no grande salão e a luz solar entrava muito fracamente pelos vãos entre as janelas. Aquele lugar era utilizado pelos demônios de Nyx sempre que precisavam se esconder pela região, contudo ele encontrava-se desativado há um bom tempo. Os equipamentos para cuidados médicos ainda estavam lá, conforme avisado pela deusa, mas era difícil para ele - com toda a fraqueza do momento -, realizar os procedimentos adequados.

Vou morrer por sua causa — culpou a voz em sua cabeça, enquanto se olhava no espelho para tentar retirar a cápsula da coxa.

— Você que insistiu em tentar arrastar um deles — ela respondeu de maneira calma.

Porque você me disse para fazer isso! — vociferou, segurando as lágrimas por conta da dor de mexer na própria carne.

— Eu não disse nada. A iniciativa partiu de você, meu apreciado — e era verdade. Tão verdade, que Giddy se tocou de que não tinha mesmo a escutado falar nada naquele momento.

Um sentimento de culpa o impediu de continuar o tratamento. Frustrado, ele se jogou no colchão velho ao chão e fechou os olhos. Já não reconhecia as próprias ações, tampouco sabia a quem atribuí-las. Era difícil para manter a sanidade com tantos pensamentos diversos na cabeça. Para piorar, ainda tinha a incerteza sobre quem de fato era.

— Seus batimentos estão ficando fracos. Você se arriscou demais ao viajar pelas sombras assim — ela voltou a falar — seu corpo está parando de reagir e agora virá o sono. Reaja ou morra, Gideon.

As palavras atingiram o semideus da mesma maneira que o tiro: forte e rápida. Movido pela vontade de viver, ou melhor, sobreviver, o helênico se levantou como pôde e continuou o que tinha de fazer. A escuridão ambiente ajudava no processo de cura, já que como legado do rei do submundo e demônio, ela o curava. Todavia, todo o processo de pressão nos músculos, remoção de projétil e esterilização foi difícil.

Mister M auxiliou seu protegido no que deveria fazer, instruindo-o com seu saber vasto e antigo. Por sorte havia o que enrolar ao redor da coxa para manter a ferida fechada. Fora de perigo, Zero se permitiu descansar por algumas horas. Em seu descanso, acabou caindo no sono novamente e dessa vez sonhou com algo diferente.

A época parecia ser outra, uma muito antiga a julgar pelas construções rústicas e a vestimenta das pessoas na rua. Gideon estava andando sem destino pelo chão de terra quando foi parado por uma garota. Ela segurou em sua mão e o arrastou para longe dali. O idioma em que ela falava não lhe era conhecido, mas seu sorriso era tão belo e convincente que bastava.

Os dois correram pelos grandes portões da cidade e depois por um campo florido. Atravessaram um bosque denso e um rio raso. Depois, o caminho de terra surgiu novamente e deu em um castelo acinzentado. O jovem percebeu que havia algo familiar naquele castelo, como se o conhecesse de algum lugar. Quando prestou atenção, ainda ao longe, notou que na verdade aquilo era uma abadia.

Lá dentro, eles atravessaram os corredores por onde as freiras caminhavam silenciosamente. Foi somente nessa parte que ele percebeu que desde a cidade, onde o sonho começara, que não havia som. Sem conseguir parar de ser arrastado pela mão, ele olhou de canto de olho os grandes salões laterais onde as noviças realizavam seus votos.

A boca do meio-sangue se abriu para protestar contra aquilo, mas nem mesmo ele conseguia se ouvir. Todo o cenário religioso trouxe a si lembranças até então perdidas. Flashes de cenas onde ele, mais novo, brincava pelo pátio de uma igreja. Uma figura estranha o observava sentada em um banco próximo. Era uma mulher. Seu rosto estava embaçado e a criança não conseguia focar nela. O momento transitava entre a primeira e a terceira pessoa, o que o enlouquecia.

Quando fez toda a força para se soltar da menina que o arrastava, viu que estava no mesmo corredor de antes. A porta com o dizer satânico e pesado o aguardava. Não tinha para onde correr. Não havia o que fazer. Desesperado, o rapaz fechou os olhos e literalmente rezou para que aquilo parasse.

— Tolinho, Deus não vai te proteger aqui — uma voz masculina estranha o arrepiou todo e então o sonho acabou.

Acordado e suando de maneira descontrolada novamente, Cox abriu as cortinas que cobriam as janelas do armazém e percebeu que já era noite. Sua perna ainda estava dolorida, mas a cura sobrenatural já tinha dado jeito na maior parte da cicatrização. Pela primeira vez em dias, o erote se sentiu sozinho de fato. A entidade parecia ter sossegado em sua cabeça, o que tornava o silêncio agradável - embora ele passasse a sensação de ainda estar no sonho.

No banho, toda a sujeira do dia escorreu por sua pele e escorreu pelo ralo. Aquele era o momento mais humano e frágil do daemon desde a maldição da memória. Ele tentou chorar. Chorar por conta do medo, das incertezas e das coisas ruins que fizera, mas não conseguiu. Quando colocou a mesma roupa, comeu um dos biscoitos que havia comprado na cafeteria e, antes que pudesse fazer qualquer outra coisa, ouviu o barulho do portão sendo forçado.

Alguém o tinha descoberto ali. Sem perder tempo, Gideon saiu pela janela dos fundos e fugiu. Não era possível para ele andar com velocidade, já que sua coxa ainda estava machucada. Assim, andou como pôde até um diner aleatório onde se sentou para comer. Na televisão, a notícia da confusão na cafeteria de mais cedo estampava todos os noticiários. As câmeras não tinham conseguido pegar o rosto do semideus, mas ainda assim era perigoso continuar por ali.

Determinado a cair fora daquela cidade, ele decidiu ir até seu destino final para se livrar de Nova York de uma vez por todas. Moros já tinha dito para onde ir e como chegar lá, então bastou que Cox colocasse todo seu temor de lado para pegar um táxi. Durante o trajeto, o taxista começou a conversar sobre a rixa entre a Uber e os táxis. Um papo completamente relevante para o mortal, mas tedioso para o semi-imortal. Somente um trecho da conversa foi relevante:

— Por isso que não acredito mais nesse governo — o motorista disse — a única coisa em que se pode ter fé é o dinheiro.

Gideon não conseguiu evitar a risada. — Com isso eu concordo.

Ao fim do trajeto, uma igreja antiga e bela estava postada em um terreno baldio. A área estava para construção de algum edifício moderno, mas a paróquia provavelmente era a única coisa no caminho da obra. Seu exterior era todo cinza, com pilastras adornadas em ouro e carmesim. A escadaria na frente dava em uma grande porta imensa, a qual parecia trancada por dentro.

Após ter enrolado o taxista que acreditava apenas no dinheiro - e que ironicamente caiu na ladainha do filho de Eros -, o daemon subiu os degraus. Uma ventania forte agitou o robe do menino e fez com que a temperatura caísse. Ele sentiu, ainda ali fora, que uma energia muito poderosa o aguardava dentro daquele lugar.

Só não tinha certeza se era exatamente o que procurava.




vitu



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Última edição por Abramov Levitz em Qui Set 13, 2018 2:45 am, editado 5 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: Missão Reciclada   Sex Set 07, 2018 5:31 am

WHATTHEFUCKEVER.
O cheiro do pelo molhado e encardido do pequeno lobo gigante era forte. Suas pegadas sujas manchavam todos os corredores do palácio por onde passavam. Na boca do animal, um pedaço de osso roído grande demais era arrastado pelo chão enquanto saliva escorria pelos espaços entre os dentes. Mais duas criaturas da mesma raça, só que maiores, corriam atrás daquele filhote. Estavam no encalço do item carregado por este.

Gideon se deparou com a perseguição enquanto se perdia pelos corredores do palacete. Tendo recém-chegado à base, ele mal sabia o caminho de volta para seu quarto. Inclusive, não fosse o conhecimento do evento que estava acontecendo, teria julgado as criaturas à sua frente como inimigas.

Os lobos pararam assim que viram o semideus. O menor de todos se viu encurralado entre o homem e seus agressores, na divisa entre o desconhecido e a provável morte certa. A entidade aliada do meio-sangue reparou que havia algo diferente naquele fugitivo, o que levantou observações.

Apesar do visual acabado, o pequeno animal não parecia estar passando fome. Tampouco seus dentes necessitavam daquele objeto para roer, considerando o quão afiados eles eram. A conclusão mais lógica então foi de que aquele item era especial para o pequenino, provavelmente muito valioso.

Ei, movam-se ordenou aos lobos maiores, usando de sua Mania de Domador para fazer a ordem valer.

Os alvos de seu poder deram meia volta e sumiram pelos corredores escuros novamente, mas o fugitivo permaneceu. Mister M soube naquele momento o que acontecia entre o bicho e o osso. Era mais que um simples sentimento de posse, e uma cobiça.

Tá tudo bem, não vou te machucar o semideus se abaixou e alinhou o olhar de ambos. Precisava fazer o bichinho confiar no que dizia, então não havia porque mentir.

O lobo manteve-se estático em uma posição alarmante por mais alguns instantes. Quando finalmente percebeu que de fato não tinha um inimigo no rapaz, avançou um pouco em sua direção. Giddy estendeu a mão direita para o outro e este sentiu o cheiro de sua pele sem largar o osso - literalmente.

De perto, o meio-sangue notou as feridas no couro do animal. Julgou então que o filhote provavelmente tinha sido resgatado de alguma situação ruim, assim como proposto pelo evento de treino com as mascotes. Ele só não sabia se aquele pequeno indivíduo em específico já tinha um dono.

Posso te ajudar a carregar isso? manteve a mão estendida conforme pediu pela autorização.

Não fosse sua aura de influência sobre animais, seu pedido provavelmente teria sido negado. Contudo, graças a ela, o filho de Eros pôde segurar o osso pesado. Os olhos do filhote brilharam quando viram a cena. Uma profunda confiança se findou entre os dois naquele instante e a entidade riu em sua própria realidade, divertida com a relação.

Com o semideus à frente sendo observado de perto, o lobinho rumou novamente em direção ao centro do palácio. Gideon não ousou olhar para trás ou então quebraria a confiança imposta sobre ele. Dessa forma, limitou-se a dialogar enquanto tentava achar o caminho certo.

Em fato, Cox nunca tinha se interessado por animais de estimação anteriormente. Entretanto, considerando que não sabia se antes de ter a memória apagada ele tivera um, cedeu ao desejo do outro demônio em sua cabeça.

Vamos precisar de um nome para você, ou então não vão acreditar que estamos juntos disse, curioso se o canídeo entendia tudo o que ele falava.

A entidade sussurrou um nome na mente do jovem adulto. Um nome que parecia bobo demais para se levar a sério, como uma versão fajuta de algum cachorro famoso. Todavia, ele remetia ao deus grego da fortuna e, como bem tinha aprendido antes, era uma das traduções perdidas de um outro nome importante.

Ploutos falou em voz alta, decidido.

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MensagemAssunto: Re: Missão Reciclada   Qui Set 13, 2018 3:19 am

GODENDSHERE
"Pensando em conseguir de uma só vez todos os ovos de ouro que a galinha poderia lhe dar, ele a matou e a abriu apenas para descobrir que não havia nada dentro dela."
— Esopo


O padre recitava os nomes sem intervalo, jogando para os fiéis a rápida e passageira chance de pescar aquele que o acometesse. A missa que parecia não ter fim abrigava incontáveis cristãos durante a tarde chuvosa de seis de setembro. Era possível ouvir o som dos carros no transito de Nova York mesmo dentro da igreja, mas isso não parecia incomodar ninguém ali dentro com exceção de uma pessoa.

Gideon estava sentado na terceira fileira mais próxima do altar. Com um robe preto cobrindo todo seu tronco, seus cabelos negros caíam sobre suas mãos juntas para a reza. O momento de quase silêncio para os pedidos e bons votos era aproveitado por ele, que sussurrava de olhos fechados seus anseios e pensamentos positivos.

Aquela era a missa de sétimo dia da morte de Margareth, a ex-agente da Seita que havia sido assassinada pelo demônio ali presente. Postado ao lado do viúvo, o jovem adulto se passava como o perfeito sobrinho distante que tinha recém descoberto a tia já quando a tinha perdido para todo o sempre. E ele era excepcional naquilo. Desde as lágrimas aos murmúrios de lamento pela perda, consolando seu tão alegado e querido tio naquele momento de infortúnio.

Ainda que empenhado em conquistar a confiança do homem, pois julgava que ele ainda era uma conexão com a organização governamental, a voz em sua cabeça não o deixava em paz. Desde o encontro com Moros, o deus do destino, quando Cox havia perdido todas as lembranças e sido varrido da memória global, aquela entidade não tinha saído de seu encalço. Ela o instigava a se comportar de maneira diferente. O encorajava a realizar atos impensáveis. Sussurrava desejos até então desconhecidos a ele.

Mesmo ali, em meio a uma missão, ela não o deixava em paz.

— Olhe ao seu redor. Veja como reluz — a voz da entidade referia-se ao dourado da decoração da paróquia.

Como uma igreja tradicional e inspirada no movimento cultural gótico, que perdurou-se até o advento do Renascimento Italiano, os adornos e detalhes tridimensionais folheados a ouro eram o maior destaque do local. Até mesmo as pinturas a óleo eram emolduradas em ouro e os vitrais dos janelões tinham seus acabamentos em mesmo material.

— Não é lindo? — ela perguntou bem no cantinho de sua mente.

A resposta era óbvia: sim. No entanto, ele não se sentia atraído por nada daquilo. Em verdade, pouco se importava com os valores daquelas peças ou o que elas poderiam lhe garantir. Mister M, como a entidade gostava de ser chamada, estava junto do semideus a mando de Nyx para vigiá-lo e guiá-lo durante a nova etapa de sua jornada, mas havia algo extra. Uma conexão entre ambos, motivo pela qual a deusa escolhera aquela dupla em específico. Só que mesmo o visitante não conseguia entender o que os conectava.

Eram como dois opostos: um cheio de desejos e cobiças e o outro vazio de ânsias e apegos.

Entrarei em contato assim que possível, tio o meio-sangue beijou a mão do viúvo, conforme se despediu deste na entrada da igreja. Não podia arriscar andar por aí acompanhado do mortal, então se aproveitou do fluxo de pessoas pós-missa para sumir logo após a despedida.

Naquela noite, Gideon sonhou com um local até então desconhecido para ele. Sem lembranças dos dias anteriores àquele, o sonho foi recebido com surpresa pelo rapaz que não sabia como se portar em um. A obviedade de que não se tratava de uma realidade ficou clara nas paredes escuras e psicodélicas do corredor, todavia as sensações eram reais demais para se duvidar.

Uma voz sedutora instigava o jovem a caminhar em sua direção. Ela dizia que o que ele procurava estava atrás da porta ao fim do corredor, mas o que estava escrito na mesma porta o deixou arrepiado. "Deus termina aqui" era uma referência clara a uma passagem bíblica de Apocalipse, na ala secreta de uma abadia onde outrora demônios foram invocados.

Ver aquilo fez com que o coração do semideus acelerasse. Um medo sem igual tomou conta de todo seu corpo e seus membros estremeceram. Ele não se recordava de ser tão religioso assim, contudo aquela citação havia de fato mexido com seu âmago. Mesmo temoroso, seus passos rumaram em direção ao proibido e, quando encostou na madeira entalhada, a porta se abriu e com uma ventania forte o sugou para a escuridão.

— Ei. Você não pode ficar aqui — um porteiro velho acordou o garoto do pesadelo.

Deitado sobre o concreto do terraço de um prédio aleatório, o meio-sangue abriu os olhos de supetão pela claridade do amanhecer. Sua respiração estava pesada e o suor do nervosismo tinha encharcado a camiseta que vestia por baixo do robe. Atordoado, ele virou a cabeça para o lado e reparou no mortal que o estava enxotando daquele lugar.

Se fosse Gideon em plena consciência, uma simples desculpa embebida em charme bastaria. Porém, havia alguém mais junto dele naquele momento. Mister M lembrou ao menino de que ele tinha o direito de estar ali. De que o não ter nada era revoltante e que aquela era a prova maior de que o poder movia o mundo. Então por um momento o grego foi movido pelo interesse. Aquele lugar, por mais tosco e desaconchegante que fosse, era dele e o velho não o tomaria de si.

Eu posso ficar onde eu quiser, porque em breve o mundo será nosso novamente respondeu com um sorriso sombrio antes de usar os poderes de Hades para sufocar o homem até a morte.

O barulho das sirenes da polícia já estavam desparecendo no fundo quando o demônio se perdeu novamente em meio às ruas da cidade. Estava se sentindo estranho sobre o assassinato, como se fazer o certo parecesse errado. Ou seria o contrário? A incerteza sobre tudo o que fazia parecia ser a única certeza em sua vida - além de Nyx, claro.

Focar na deusa e seu objetivo maior deu uma direção ao semideus que não sabia para onde seguir. De olhos fechados em um beco, ele se concentrou na voz de Moros. De acordo com o deus, bastava que o receptáculo se concentrasse na escuridão para encontrar onde estavam as flechas. Três delas estavam espalhadas ao redor do país. Fragmentos do poder maior do deus do destino, que tinha sido estilhaçado com o passar do tempo.

Gideon era o receptáculo do deus menor, não diretamente pois mesmo sendo um demônio carregar toda a essência de uma divindade era demais, então com a ajuda dele estava em busca de reagrupar as fontes de seu poder e por o plano da Noite em prática. Sendo aquele o ponto final antes de estagnar nas décadas, a primeira flecha estava em algum lugar daquela metrópole.

Paróquia de São Peter falou em voz alta o que leu na visão.

Um pequeno calafrio percorreu a espinha de Zero. Até algumas horas antes ele tinha tido um pesadelo envolvendo um local "sagrado" e estava atrás de outro local de mesmo cunho. Porém, Mister M interrompeu o momento e lembrou ao garoto de que havia um encontro marcado com Ellioth em uma cafeteria próxima. Seria prudente de sua parte comparecer, para não perder contato com seu "infiltrado" e comprometer a missão paralela. De acordo com isso - e levemente assustado com o destino posterior -, ele rumou em direção ao tal encontro.

Já na cafeteria, Cox aguardou por dez minutos antes de receber o homem à mesa. O viúvo, que apesar de não muito velho, tinha rugas por toda a testa mesmo quando sereno. Contudo, durante o encontro, uma fricção exagerada em sua epiderme era evidente pela constante expressão de preocupação. Gideon conversou sobre o futuro do "tio" e de como as coisas andavam, mas não pôde evitar notar que algo estava errado.

Os nespressos do tipo ristretto pedidos por ambos estavam esfriando na mesa enquanto a conversa fluía. O meio-sangue reparou na inquietude das mãos de sua companhia, que continuava a mexer no café com a colher sem parar. A movimentação dentro da loja de frente para o Central Park estava escassa mesmo para o primeiro horário do dia. Entretanto, somente quando ele viu pelas vidraças que substituíam as paredes frontais o carro preto parar lá fora, entendeu o que estava acontecendo.

Há algo que queira me contar, tio? indagou de maneira calma, seguido por uma golada única e finalizadora na bebida fria.

— N-não — o homem engoliu em seco. No instante depois, um casal suspeito adentrou o local e se sentou ao balcão.

Sei que está mentindo disparou sem firulas ou simpatia, o que deu ainda mais convicção à sua afirmação.

— Eles disseram coisas absurdas a seu respeito. Que você estava me enganando — se apoiou sobre a mesa e colocou a mão à boca para sussurrar — que era um deles.

Um deles? levantou a cabeça para olhar o outro de cima.

— S-sim. Uma — Ellioth se engasgou — uma das aberrações.

O diálogo foi interrompido por um sacar rápido de armas por parte do casal recém-chegado. Gideon já previa aquilo, então quando ameaçado pelos dois, desapareceu em um piscar de olhos sem deixar rastros. A bendita invisibilidade de Eros caiu como uma luva para a situação. Invisível, o semideus considerou correr para os fundos da cafetaria, mas a entidade o impediu. Ela estava agitada e furiosa. Queria que ele mostrasse aos agentes da Seita em posse de quem estava o controle daquela situação.

E ele mostrou aos insolentes.

Ao romper o primeiro selo, Zero transferiu todo o medo acumulado dentro dele para seus inimigos. O alívio causado por isso deixou a sensação de observar as pessoas no recinto em pânico ainda melhor. Mesmo os membros da organização não resistiram à aura e abaixaram as armas. O demônio se aproveitou disso para correr em direção a eles (já que sua invisibilidade não era perfeita e se mover acabava denunciando sua imagem). Com o garfo que vinha junto dos talheres das mesas, ele espetou um dos olhos da mulher e a derrubou.

A brutalidade da cena espantou todos os mortais ali presentes com exceção dos envolvidos na confusão. Giddy inutilizou um de seus oponentes, mas o outro reagiu à ação. Recorrendo à arma de fogo, o homem disparou duas vezes contra o jovem adulto. O primeiro tirou atingiu o ombro esquerdo do alvo de raspão e o segundo foi protegido por um tentáculo negro.

— O-o que — Ellioth assistia ao combate abaixado sobre a mesa.

Sinto muito, tio. Não queria que você presenciasse isso ele debochou com um sorriso largo estampado no rosto.

Os tentáculos surgiram a partir das costelas do daemon e se esticaram para agarrar o agente armado. O toque da mucosa do membro intensificou o medo no mortal e o deixou agonizando enquanto sufocava no apertão. A entidade riu na mente do garoto, completamente entretida e satisfeita com a posse do poder em meio ao momento. Entretanto, a mulher ferida conseguiu pegar a arma novamente e, mesmo cega de um olho e caída no chão, atirou no meio-sangue.

A bala atingiu a coxa direita de Gideon e ele mordeu a língua instintivamente. Só não caiu ali mesmo porque conseguiu se apoiar no balcão. O sangue do demônio ferveu e ele se virou como pôde para também agarrar a mulher e a sufocar com os tentáculos. Se continuasse assim seria capaz de torturar ambos antes de os matar, mas as portas do carro preto fora da cafeteria se abriram e mais pessoas desceram delas. Mister M tomou controle da situação e fez com que o legado de Hades abrisse o segundo selo.

Todos na região começaram a se estranhar, movidos pela desconfiança súbita e isso os distraiu. Mesmo os agentes da Seita, que eram aliados entre si, perderam tempo com discussões bobas. Aquela era a oportunidade perfeita de sequestrar um deles, pensou. A ganancia fez com que ele tentasse arrastar o homem que já estava em seus tentáculos.

— Você não vai conseguir levar ele, fuja — Ellioth tentou alertar, ainda compadecido e provavelmente louco por defender o semideus.

Não! Eu preciso dele sua voz soou demoníaca demais, como se não fosse o garoto respondendo sozinho.

E não era.

O efeito do segundo selo não perduraria por muito tempo. O ferimento a bala tinha enfraquecido o meio-mortal demais e continuar usando os tentáculos apenas forçava ainda mais a ferida. Ainda assim, Zero tentou ao máximo e, somente quando viu os outros agentes entrando na cafeteria, fugiu. Com a ajuda das sombras dos fundos do estabelecimento, ele viajou por elas até um armazém seguro na mesma cidade.

Havia muita poeira no grande salão e a luz solar entrava muito fracamente pelos vãos entre as janelas. Aquele lugar era utilizado pelos demônios de Nyx sempre que precisavam se esconder pela região, contudo ele encontrava-se desativado há um bom tempo. Os equipamentos para cuidados médicos ainda estavam lá, conforme avisado pela deusa, mas era difícil para ele - com toda a fraqueza do momento -, realizar os procedimentos adequados.

Vou morrer por sua causa culpou a voz em sua cabeça, enquanto se olhava no espelho para tentar retirar a cápsula da coxa.

— Você que insistiu em tentar arrastar um deles — ela respondeu de maneira calma.

Porque você me disse para fazer isso! vociferou, segurando as lágrimas por conta da dor de mexer na própria carne.

— Eu não disse nada. A iniciativa partiu de você, meu apreciado — e era verdade. Tão verdade, que Giddy se tocou de que não tinha mesmo a escutado falar nada naquele momento.

Um sentimento de culpa o impediu de continuar o tratamento. Frustrado, ele se jogou no colchão velho ao chão e fechou os olhos. Já não reconhecia as próprias ações, tampouco sabia a quem atribuí-las. Era difícil manter a sanidade com tantos pensamentos diversos na cabeça. Para piorar, ainda tinha a incerteza sobre quem de fato era.

— Seus batimentos estão ficando fracos. Você se arriscou demais ao viajar pelas sombras assim — ela voltou a falar — seu corpo está parando de reagir e agora virá o sono. Reaja ou morra, Gideon.

As palavras atingiram o semideus da mesma maneira que o tiro: forte e rápida. Movido pela vontade de viver, ou melhor, sobreviver, o helênico se levantou como pôde e continuou o que tinha de fazer. A escuridão ambiente ajudava no processo de cura, já que como legado do rei do submundo e demônio, ela o curava. Todavia, todo o processo de pressão nos músculos, remoção de projétil e esterilização foi difícil.

Mister M auxiliou seu protegido no que deveria fazer, instruindo-o com seu saber vasto e antigo. Por sorte havia o que enrolar ao redor da coxa para manter a ferida fechada. Fora de perigo, Zero se permitiu descansar por algumas horas. Em seu descanso, acabou caindo no sono novamente e dessa vez sonhou com algo diferente.

A época parecia ser outra, uma muito antiga a julgar pelas construções rústicas e a vestimenta das pessoas na rua. Gideon estava andando sem destino pelo chão de terra quando foi parado por uma garota. Ela segurou em sua mão e o arrastou para longe dali. O idioma em que ela falava não lhe era conhecido, mas seu sorriso era tão belo e convincente que bastava.

Os dois correram pelos grandes portões da cidade e depois por um campo florido. Atravessaram um bosque denso e um rio raso. Depois, o caminho de terra surgiu novamente e deu em um castelo acinzentado. O jovem percebeu que havia algo familiar naquele castelo, como se o conhecesse de algum lugar. Quando prestou atenção, ainda ao longe, notou que na verdade aquilo era uma abadia.

Lá dentro, eles atravessaram os corredores por onde as freiras caminhavam silenciosamente. Foi somente nessa parte que ele percebeu que desde a cidade, onde o sonho começara, não havia som. Sem conseguir parar de ser arrastado pela mão, ele olhou de canto de olho os grandes salões laterais onde as noviças realizavam seus votos.

A boca do meio-sangue se abriu para protestar contra aquilo, mas nem mesmo ele conseguia se ouvir. Todo o cenário religioso trouxe a si lembranças até então perdidas. Flashes de cenas onde ele, mais novo, brincava pelo pátio de uma igreja. Uma figura estranha o observava sentada em um banco próximo. Era uma mulher. Seu rosto estava embaçado e a criança não conseguia focar nela. O momento transitava entre a primeira e a terceira pessoa, o que o enlouquecia.

Quando fez toda a força para se soltar da menina que o arrastava, viu que estava no mesmo corredor de antes. A porta com o dizer satânico e pesado o aguardava. Não tinha para onde correr. Não havia o que fazer. Desesperado, o rapaz fechou os olhos e literalmente rezou para que aquilo parasse.

— Tolinho, Deus não vai te proteger aqui — uma voz masculina estranha o arrepiou todo e então o sonho acabou.

Acordado e suando de maneira descontrolada novamente, Cox abriu as cortinas que cobriam as janelas do armazém e percebeu que já era noite. Sua perna ainda estava dolorida, mas a cura sobrenatural já tinha dado jeito na maior parte da cicatrização. Pela primeira vez em dias, o erote se sentiu sozinho de fato. A entidade parecia ter sossegado em sua cabeça, o que tornava o silêncio agradável - embora ele passasse a sensação de ainda estar no sonho.

No banho, toda a sujeira do dia escorreu por sua pele e desceu pelo ralo. Aquele era o momento mais humano e frágil do daemon desde a maldição da memória. Ele tentou chorar. Chorar por conta do medo, das incertezas e das coisas ruins que fizera, mas não conseguiu. Quando colocou a mesma roupa, comeu um dos biscoitos que havia comprado na cafeteria e, antes que pudesse fazer qualquer outra coisa, ouviu o barulho do portão sendo forçado.

Alguém o tinha descoberto ali. Sem perder tempo, Gideon saiu pela janela dos fundos e fugiu. Não era possível para ele se locomover com velocidade, já que sua coxa ainda estava machucada. Assim, andou como pôde até um diner aleatório onde se sentou para comer. Na televisão, a notícia da confusão na cafeteria de mais cedo estampava todos os noticiários. As câmeras não tinham conseguido pegar o rosto do semideus, mas ainda assim era perigoso continuar por ali.

Determinado a cair fora daquela cidade, ele decidiu ir até seu destino final para se livrar de Nova York de uma vez por todas. Moros já tinha dito para onde ir e como chegar lá, então bastou que Cox colocasse todo seu temor de lado para pegar um táxi. Durante o trajeto, o taxista começou a conversar sobre a rixa entre a Uber e os táxis. Um papo completamente relevante para o mortal, mas tedioso para o semi-imortal. Somente um trecho da conversa foi  marcante:

— Por isso que não acredito mais nesse governo — o motorista disse — a única coisa em que se pode ter fé é o dinheiro.

Gideon não conseguiu evitar a risada. Com isso eu concordo.

Ao fim do trajeto, uma igreja antiga e bela estava postada em um terreno baldio. A área encontrava-se reservada para a construção de algum edifício moderno, mas a paróquia provavelmente era a única coisa no caminho da obra. Seu exterior era todo cinza, com pilastras adornadas em ouro e carmesim. A escadaria na frente dava em uma grande porta imensa, a qual parecia trancada por dentro.

Após ter enrolado o taxista que acreditava apenas no dinheiro - e que ironicamente caiu na ladainha do filho de Eros -, o daemon subiu os degraus. Sua carona o esperaria do lado de fora para uma fuga de emergência, caso necessário. Uma ventania forte agitou o robe do menino e fez com que a temperatura caísse. Ele sentiu, ainda ali fora, que uma energia muito poderosa o aguardava dentro daquele lugar.

Só não tinha certeza se era exatamente o que procurava.

Quando o rapaz se aproximou da entrada, as portas se abriram automaticamente como se já o estivessem aguardando. O estranhamento do ocorrido passou despercebido por ele, que estava acostumado a coisas estranhas sendo quem era. Lá dentro, o hall de entrada (comum em igrejas) era inexistente. No lugar dele, havia de cara o salão principal onde as missas aconteciam.

O altar principal estava no lado oposto à entrada. Entre ele, as cadeiras enfileiradas com espaçamentos curtos encontravam-se vazias. Estátuas diferentes e incomuns estavam postadas nas duas paredes laterais, uma ao lado da outra. Sete delas, contabilizou rápido. Levemente curioso, Zero andou pelas quatro da esquerda e leu seus pedestais.

A primeira era referida como "aquele que tinha caído" e continha em seu espaço a atribuição do orgulho. Seus entalhes no mármore eram belíssimos, com a figura de um homem esguio e com asas. Não havia nada de errado com sua aparência o que, ironicamente, devia ser intencional tratando-se de quem era.

A segunda tinha a luxúria como seu título. Sua aparência era um misto de figuras estranhas, como cabeças de animais saindo de um mesmo tronco. Ao centro dele, a cabeça de um homem mal-encarado encontrava-se destacada do restante.

Ele foi absorvido pelo judaísmo, que o associa ao rei de Sodom. Daí a luxúria comentou sozinho, surpreso por saber daquilo.

— Muito bem — uma voz conhecida falou. Uma figura estranha estava sentada na primeira fileira perto do altar. — Continue, quero saber se conhece todos.

A terceira definitivamente era familiar. Um ser metade humano e metade bode com um pentagrama invertido marcado em seu corpo. A Gula. Em suas costas duas asas grandes encontravam-se abertas assim como sua boca, a qual continua presas imensas.

Sua imagem veio do deus da fertilidade Baal, idolatrado pelos cananeus, mas considerado um falso ídolo pelos cristãos afirmou, para a satisfação de sua companhia.

Quando se virou para continuar andando em direção à quarta, a outra pessoa no recinto pediu que ele voltasse do início pelo outro lado. Que deixasse a quarta estátua por último, pois seria seu maior teste. Sem discordar, Gideon assim o fez.

A Preguiça era a quinta estátua. Ela tinha uma aparência atlética, grande estatura e chifres de carneiro. Sua cabeça era a de um velho com chifres e nariz grandes, além de uma barba espessa e igualmente longa. Porém, o fato mais curioso era a cadeira de rodas na qual estava sentada.

Atribuíam as descobertas e inventos a ele acrescentou os inventos engenhosos trariam riqueza fácil aos homens, tornando-os vítimas da preguiça.

Um som de confirmação foi proferido pela figura misteriosa, o que permitiu sua passagem para a sexta estátua.

A estátua de número seis era também um homem com a metade inferior em características de bode. Contudo, diferente da terceira, sua aparência era mais mortal e nada exagerada - sem as asas ou riscos satânicos. A Ira.

Foi ele quem supostamente teria ensinado aos homens como fabricar armas de guerra falou.

— Por que supostamente? — questionou em um tom que denunciava o saber da resposta.

Porque sua representação é inexata, então essa é apenas uma das versões respondeu.

Ao fim daquela fileira, a sétima estátua tinha as maiores dimensões de de todas. Seu aspecto pendia para um verme gigante ou uma serpente marinha, sem certeza de qual das duas era a verdadeira. Seu pecado era a inveja.

Ela costumava dizer que ele era um dos demônios mais poderosos, capaz de transformar homens em hereges disse em um tom melancólico.

— Ela quem?

Não sei coçou os olhos, um pouco tonto.

Restava então a última das sete estátuas, mais especificamente a quarta. Gideon passou pelo vão entre a primeira e a segunda fileira, por trás de onde a figura estava sentada. De costas para o semideus e com um manto preto cobrindo tudo, ele não pôde ver quem era aquela pessoa. Todavia, foi capaz de observar de cara a última das representações esculpidas.

Avareza disparou ao se aproximar da quarta e última.

A figura de um nobre deformado agarrando um saco cheio continha uma expressão furiosa, como se algo ou alguém estivesse tentando tirar seus bens. O mesmo calafrio dos pesadelos percorreu a espinha do meio-sangue. Ainda que não soubesse como tinha ciência de tudo sobre aqueles pecados e suas histórias, a familiaridade com aquele ídolo em mármore era absurda.

— O que sabe sobre ela? — a figura provocou, ciente do que o outro sentia.

Eu e-eu balbuciou eu n-não, não sei uma forte dor de cabeça fez com que ele fechasse os olhos.

— Sabe sim. Me diga, Gideon — o tom alterou, assumindo um teor mais tirano.

Você não pode servir a Deus e ao dinheiro citou um dos versículos bíblicos de Mateus.

— Qual é o seu nome? Me diga seu nome — inqueriu.

Não posso a dor aumentou, o que o fez levar as mãos à cabeça em um gesto involuntário.

— Pode. Me diga, Gideon, me diga o seu nome — a voz expandiu, como se de alguma forma estivesse engolindo todo o ambiente.

Giddy caiu sobre os joelhos em frente à estátua. O ferimento do tiro em sua perna se abriu novamente e sangue começou a sair dele. Vozes e mais vozes falavam em sua mente. Várias delas ele nunca tinha escutado antes, mas outra lhe eram conhecidas de algum lugar.

Eu não sei o seu nome suplicou, surtando com a mudança de personalidade.

— Sabe sim. Diga e tudo isso passará.

Flashes de cenas desconhecidas voltaram a aparecer em sua cabeça. Momentos que ele havia vivido antes do encontro com Moros, mas que tinham sido perdidos por conta da maldição. Rostos e vozes bagunçadas surgiam aos montes, tornando impossível para ele distinguir o que era o quê. O sangue de sua ferida não parava de sair, formando uma poça rubra imensa ao seu redor.

Todas as lembranças de sua vida que haviam sido descartadas e escondidas em algum canto de sua mente. Tudo o que era seu. Seu bem maior: a sua própria existência. Ele queria tudo de volta. Era sua posse e ninguém tinha o direito de lhe tirar.

Mamon! Mamon é seu nome! gritou com toda a força que tinha, o que expeliu tudo o que tinha guardado dentro de si para fora.

Os olhos do semideus se abriram e suas órbitas embranqueceram por completo. Seus braços se abriram assim como a boca e o sangue ao seu redor assumiu uma forma de pentagrama. Seu corpo tremia enquanto algo parecia tomar controle sobre este.

— Eu te darei tudo o que desejar, meu apreciado. Suas memórias são apenas minha oferta primária. Elas são suas assim como o mundo será nosso novamente. Nos aceite como um só e então nada será capaz de nos parar — a voz recitou, enquanto o ritual satânico acontecia.

Gideon não tinha controle de suas ações, mas estava de acordo com tudo aquilo. Não queria mais não saber quem era ou o que preferia ou não. Se Moros o queria como seu receptáculo, teria de o aceitar daquele jeito ou então que procurasse outra pessoa para ser seu peão.

Pouco a pouco, as memórias de toda a sua vida foram retornando na ordem e de maneira correta. Sangue escorria pelos olhos, orelhas, nariz e boca do meio-sangue. Entretanto, seu aspecto parecia diferente. Ele não estava preto como o de um demônio comum deveria estar. Diferente do normal, uma coloração dourada como ouro tomava conta de suas hemoglobinas. Uma cena verdadeiramente macabra e teatral, como uma obra de arte viva e visceral.

Ao fim dela, Zero conseguiu assumir o controle de seu corpo e todo o sangue havia sumido. Ar voltou a entrar em seus pulmões e ele agarrou o peito em busca dele, assim como um recém-nascido dá o seu primeiro choro abafado. O ferimento em sua perna havia se fechado novamente. Ou talvez ele nunca tivesse sido reaberto.

Eu me lembro agora falou em voz baixa, ainda ajoelhado em frente à estátua.

Um leve dorzinha de cabeça ainda persistia a incomodar o rapaz. Revitalizado, ele se levantou e caminhou até a figura aconchegada na primeira fileira. Sentado ao lado dela, manteve o olhar em direção ao altar central, onde a figura de Jesus Cristo encontrava-se pendurada em uma cruz de cabeça para baixo.

— Isso é bom. Sua plenitude me é vantajosa — a figura se revelou sendo ele mesmo. A única diferença entre os dois eram os olhos, que do demônio possuíam uma coloração completamente preta.

Mamon disse, admirando o outro. Você sou eu e eu sou você.

— Exato. Eu não entendia o porquê de minha senhora nos ter colocado juntos, até que me infiltrei em sua psiquê — levou a destra ao coração do semideus, tocando seu peito com a ponta dos dedos — você carrega um vazio dentro de si que precisa preencher de qualquer forma.

Apesar de não gostar muito de admitir aquilo, o grego sabia muito bem ao que a entidade se referia.

— Sempre fui atrelado à avareza, à sede pelo dinheiro e bens. Mas sou muito mais do que o desejo pelos bens materiais. A fome de afeto que você tem dentro de si não é gula ou luxuária, muito menos inveja ou orgulho. Você não é preguiçoso, porque vai atrás do que almeja e, apesar de se enfurecer contra quem se coloca em seu caminho, sua ganância é o que te move.

Mamon pausou o discurso e agarrou a mão do menino, encarando-o diretamente nos olhos.

— Foi a ganância que te fez retornar ao acampamento quando perdeu sua mãe, desejando poder e proteção. Foi ela o que chamou a atenção de Nyx para seu potencial. Ela foi a responsável por você continuar no encalço de Ellioth, mesmo após tendo matado sua esposa e comprometido toda a missão. Eu quero poder, quero controle. Quero o mundo novamente. E você, meu apreciado, quer tudo isso assim como eu.

As palavras pegaram Gideon de surpresa, pois aquela análise de sua pessoa era perfeita e precisa. Seu apego às coisas era tamanho e, quando tomara a única atitude que contradizia tudo isso - ao ceder suas memórias a Moros -, entrou em um processo de auto-destruição, comprovando que não era capaz de abrir mão do que era seu.

Os dois apertaram a mão, em um pacto silencioso e então todo o cenário mudou. A sala de missa com as estátuas havia dado lugar a um espaço abandonado e destruído. A decoração da paróquia estava vandalizada e nada de valor tinha permanecido a salvo da mão dos saqueadores. Contudo, ainda havia algo ali dentro que detinha um valor imensurável.

E que será meu falou sozinho, guiado pela energia que o atraía para outro cômodo.

Um vão onde outrora uma porta estivera era a única outra saída daquele lugar. Gideon se sentia estranhamente mais forte, como se pudesse enfrentar qualquer coisa que se colocasse em seu caminho. Não obstante, estava com pressa para sair dali e recuperar todo o tempo perdido sem as memórias. Em algum lugar de seu íntimo ele ainda tinha a certeza de que o deus menor estava do seu lado, ou então algo de estranho teria acontecido.

A escuridão dos fundos da igreja não foi um problema para o demônio que enxergava mesmo nela. O problema mesmo foi entender como abrir a câmara secreta ao fim da descida. Ciente de que o que procurava estava ainda mais abaixo que a cripta, o semideus desceu pela escadaria e alcançou o primeiro nível abaixo da terra.

Lá, se deparou com ossos e restos mortais revirados nos túmulos dos padres e sacerdotes. Alguém tinha realizado algum ato profano naquele lugar, o que tornava todo o terreno ao seu redor nada sagrado. Imaginando as cenas sobrenaturais que aconteceriam a quem quer que ousasse morar ou frequentar o edifício que seria construído ali, o garoto se distraiu e acabou não notando a movimentação suspeita.

Os vultos no escuro da cripta pareciam apenas alucinações, mas quando um deles agarrou em seu pé, viu que não era coisa da sua cabeça. Zero foi derrubado e depois arrastado pelo chão. Com gritos altos e tentando chutar a coisa, ele se viu sendo jogado para dentro de uma das covas de pedra. Sabia o que estava acontecendo: um sepultamento forçado.

Ser enterrado vivo era, sem dúvidas alguma, um de seus maiores medos.

Desesperado, o meio-sangue se debateu e quando conseguiu raciocinar melhor, usou as sombras para sair da cova. De pé do lado de fora, ele sentiu o estômago embrulhar por conta do poder exaustivo, mas não recuou. A criatura escura avançou novamente em sua direção, como uma assombração, e quando ela tentou lhe novamente, o impossível aconteceu.

A avareza mostrou seu poder e seu abençoado interceptou o ataque da coisa com a mão direita. O simples toque de sua destra no bicho bastou para ativar o efeito da transformação e, em poucos segundos, uma estátua de ouro surgiu à sua frente. Todos os detalhes do monstro foram preservados, o que dava um ar ainda mais macabro à obra de arte.

Suspirando aliviado, Cox observou sua criação com orgulho. Queria poder expor o que podia fazer. Mostrar a todos seu dom e conquistar o mundo onde o dinheiro vinha sempre em primeiro lugar. Porém, Mamon sussurrou em seu ouvido de que havia ainda um bem maior, algo que precisavam pegar. Movido pelo interesse, o jovem adulto continuou sua jornada descendo pelo segundo lance de escadas.

No segundo nível abaixo da terra, uma sala pequena e iluminada por tochas reservava uma pequena pilastra com um livro pesado sobre a mesma. Gideon folheou o item e, a princípio, não entendeu nada do que estava escrito. As figuras desenhadas nas páginas eram monstruosas e perturbadoras, como demônios antigos. Foi nessa hora em que ele se tocou de que aquele era um livro de invocações e que algum ritual tinha acontecido naquele lugar.

Isso explica os túmulos revirados comentou em voz baixa.

Apesar de toda a atmosfera obscura e misteriosa, não havia mais para onde seguir. A energia que procurava irradiava de todos os pontos daquele lugar, então era impossível determinar o lado certo. Frustrado, ele tateou todas as paredes em vão. Não havia nenhum buraco secreto ou algo do tipo. Era como se aquele fosse o fim.

Deus termina aqui pensou alto, o que o fez acordar para a verdade.

Todos os valores cristãos que ainda carregava dentro de si precisavam ser deixados de lado. Os ensinamentos de sua mãe e o apego desta a Deus eram a coisa mais sagrada da qual ele conseguia se lembrar. Mas como poderia abandonar algo que era tão valioso para si? Simples: trocando algo tão pequeno quanto o amor de um morto por algo infinitamente mais valioso. E aquela troca parecia irrecusável.

Com a ajuda de Mamon, que entendia os escritos do livro, Gideon proferiu as palavras satânicas e iniciou o ritual. Nada de anormal ou especial aconteceu durante este, mas ele sentiu o peso do significado de sua mãe diminuir lentamente em seu peito. Ao fim, nada mais sentia quando pensava na mulher. Ela, que outrora fora seu combustível, já não mais significava nada assim como tudo o que ensinara.

E então a câmara abriu.

As chamas nas tochas se apagaram e a pilastra central onde o livro estava rodou. O chão se repartiu em três pedaços ao seu redor e uma escada revelou uma nova descida. Gideon sorriu de felicidade. Contente em ter finalmente conseguido o que tanto queria. Apressado, ele desceu os lances e se deparou com uma sala ainda menor que a anterior. Nela, um baú branco com detalhes em azul turquesa reluzia mesmo em meio à escuridão. O maior detalhe: ele estava aberto.

Não disse, incrédulo.

Alguém já havia encontrado aquele lugar. A primeira flecha tinha sido roubada.

Não! Não! esperneou, enquanto socava as paredes.

Ele havia abrido mão de algo valioso em troca de nada. Sua ganância o cegara mesmo diante de uma situação óbvia. Furioso, o semideus subiu tudo de novo apenas para se deparar com uma pequena horda de demônios o esperando lá em cima. Abandonar seu resquício de bondade e pureza permitiu que as entidades presentes naquele lugar fossem soltas - e ele era o único ser vivo passível de ser atormentado ali.

Por um breve instante o filho de Eros considerou se entregar aos espíritos, devido à sua grande perda recente. Contudo, repensou na possibilidade e invocou Destemor, o par de espadas gêmeas forjadas com ouro imperial e ferro estígio. O material negro das lâminas bastava para atingir os monstros e foi isso que ele fez.

A primeira das aparições voou em sua direção e o meio-sangue apenas rolou para o lado. Com um cenário aberto e sem objetos, a movimentação era mais fácil. Ao se reerguer, ele colocou as duas espadas à frente do rosto para se defender do ataque de outro bicho, emendando um contra-ataque com a abertura dos braços e três cortes seguidos.

Estando em menor número, Zero acabou sendo pego por trás na altura do pescoço e erguido do chão. Quem visse de fora poderia imaginar que o menino estava sendo possuído. E ele meio que estava mesmo. Engenhoso, o capturado encostou na mão que o sufocava e transformou a coisa em ouro.

Quando começaram a cair por conta do peso, as asas de morcego surgiram em suas costas e ele quebrou o membro que o segurava. No ar, voou em direção ao espíritos e começou a desferir golpes contra eles. Vários foram destruídos assim, mas alguns restaram e tentaram puxar o demônio para o chão. Canalizando todo seu poder nas partes do corpo onde era tocado, Gideon transformou seus adversários em estátuas douradas.

Um a um os encostos foram caindo no chão e se despedaçando. Ao fim, só restou o jovem adulto cansado e cheio de queimaduras na pele (pelo toque dos espíritos) cercado de ouro. Uma das coisas mais valiosas do mundo e que para ele não tinha valor algum.

Já do lado de fora, o abençoado de Mamon foi abordado pelo taxista sentado na escadaria. O homem estava impaciente e reclamando de que precisaria de um pagamento maior para compensar o tempo em que ficou parado ali. Ele teve toda a oportunidade do mundo de apenas ir embora, mas escolheu ficar para recolher o pagamento.

Ganancioso.

Cox sorriu e tirou o último dos biscoitos que tinha em seu bolso. Com o toque, transformou a comida em ouro e os olhos do mortal se arregalaram.

Você quer? estendeu a mão com o objeto valioso para o outro pegar. Tem muito mais de onde veio esse.

Desejando aquele item valioso, o taxista se aproximou do semideus e pegou a bolinha dourada. Uma risada exacerbada escapou por entre os lábios dele, contente com o pagamento. Todavia, seus dedos acabaram encostando nos de Gideon e todo seu corpo se transformou em ouro. Estampado em seu rosto reluzente, o sorriso de satisfação que não se desmanchou antes de sua perdição.

Com uma sensação mista de vingança e ódio, Giddy roubou o táxi e ligou o rádio. Uma música da banda Twenty One Pilots estava tocando na rádio quando ele ligou o carro com as chaves que ficaram dentro dele. Não sabia para onde ir, mas sabia quem procurar: aquele que o tinha roubado. Entretido com a música peculiar, ele dirigiu para longe dali e então o veículo menos suspeito do mundo desapareceu nas ruas escuras da cidade...

She asked me, "Son, when I grow old
Will you buy me a house of gold?
And when your father turns to stone
Will you take care of me?"
 

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MensagemAssunto: Re: Missão Reciclada   

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Missão Reciclada
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