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 Missão liderança

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AutorMensagem
Abramov Levitz

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Mensagens : 7
Data de inscrição : 23/11/2017

MensagemAssunto: Missão liderança   Qui Jun 14, 2018 4:35 am







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A tempestade que se aproximava da praia do Acampamento Meio-Sangue era assustadoramente real. Os ventos castigavam os grãos de areia os jogavam contra o verde na divisa do terreno. O recuo da maré anunciava que uma onda de proporções titânicas estava se formando e, a julgar pelo tempo em que tudo acontecia, pouco mais de dois minutos mantinham o lar dos semideuses gregos a salvo da destruição. Mesmo com toda a dificuldade de se enxergar em meio à ventania, Abramov conseguia manter os olhos bem abertos para observar a cena. Ele não fazia ideia de como tinha ido parar ali, muito menos quando isso tinha acontecido. Sabia, por outro lado, que se tratava de mais um daqueles sonhos típicos da prole dos deuses.

— É pior do que imaginei — uma voz familiar chamou a atenção do filho de Zeus.

— O que é isso? — ele se virou de supetão, apenas para flagrar o rosto da legítima esposa de seu pai.

Hera estava de pé a poucos metros de distância do campista. Uma expressão severa estampava sua face e sua imagem parecia borrada, como se estivesse fraca demais para manter a conexão divina que os deuses sempre utilizaram para contatar seus filhos. Alguns meses atrás o simples vislumbre da deusa do matrimônio teria causado arrepios no californiano, mas, desde que havia se tornado um ávido seguidor seu, a presença dela na verdade lhe passava segurança. Só que não apenas isso. Quando a matrona entrava em contato direto com algum dos argonautas, é porque algo sério estava acontecendo.

— Um sonho, como bem deve ter notado — respondeu em tom rude e direto. — Minha inimiga fez outro movimento — a escolha do pronome possessivo "minha" foi intencional, pois ela tratava Nyx como sua arquirrival - ainda que na verdade esta fosse inimiga de muitos, inclusive seu marido Zeus.  

— Essa tempestade? Isso é coisa dela? — questionou atônito.

— Sim, mas o problema maior é o que a está causando — apontou para o centro de onde a onda se formava. Lá, a sombra de uma figura se movia e crescia a cada instante que se passava. Com alguns segundos de atenção, pôde-se identificar a forma de um navio. — Dessa vez ela foi baixa demais.

— Eu não entendo. O que é aquele navio? — coçou a cabeça.

— Aquele poderá ser seu pior inimigo, mas também ser seu maior aliado — respondeu de maneira profunda o suficiente para se fazer valer a atenção, mas vaga demais para se entender.

— E ele está do lado de Nyx? — engoliu em seco.

— Sim. Ele já foi meu protegido um dia. Eram épocas diferentes, criança — o tom novamente mudou, assumindo algo mais melancólico. — Não nos importávamos com guerras entre divindades. Nossas preocupações eram tão simples que podíamos nos dar ao luxo de intervir em assuntos mortais por puro prazer.

— Bons tempos — fez uma pausa breve. — Eu acho.

— Prepare-se, meu escolhido. Mais do que nunca precisarei de sua ajuda — a onda gigantesca começou a cair sobre a praia e então a cena mudou.

(...)

Mesmo tendo aberto os olhos após o choque que poderia ter significado sua morte, Abramov sabia que ainda estava sonhando. Contudo, diferente dos momentos anteriores àquele, não estava mais na praia. Para todo lado que olhava, tudo que via era mar. Embora fosse capaz de se encontrar em qualquer coordenada marítima por ser um argonauta, ele não teve ideia de onde estava ou para qual sentido estava navegando. Na verdade, pensar nisso fez com que enfim percebesse que estava na proa de um navio e foi aí que ouviu as vozes.

Uma gritaria típica daqueles momentos que antecedem uma guerra se fez ouvir no ambiente, o que forçou o meio-sangue a se virar para ver do que se tratava. Inúmeros homens levantavam suas armas e as chocavam umas contras as outras em uníssono. Eles não pareciam capazes de enxergar o jovem ali, mas isso pouco importava. Ab sabia que aquilo era uma visão do futuro, como muitas que já tinha tido antes, então precisava entender do que se tratava.

Afobado, o outrora líder do chalé 1 correu em direção à tripulação a meio-navio, todavia acabou sendo parado por uma aura de temor. Seu corpo não parecia reagir e um nervosismo tomou conta de seus ânimos. Todo a barulheira foi interrompida e substituída por sons de passos a estibordo. Alguém caminhava em sua direção vindo da proa - o que era estranho já que ele estivera ali segundos antes -, e esta pessoa parecia ser a responsável pela aura intimidadora.

"Aquele poderá ser seu pior inimigo, mas também ser seu maior aliado", a voz de Hera ecoou em sua mente como uma memória recente. Flashes de lembranças começaram a perturbar os pensamentos do semideus, momentos dele na escola aprendendo sobre história e alguns no próprio acampamento durante as aulas de mitologia. "Ele já foi meu protegido um dia", recordou.

— Ao nosso líder, que nos guiará em direção à glória e sucesso — bradou um dos tripulantes, o que deu seguimento novamente à gritaria e às honrarias.

O coração de Abramov parou por um instante. Ele sabia muito bem quem estava atrás dele e, se estivesse mesmo certo, implorava aos céus para que aquilo não fosse um sonho profético e sim uma alucinação. "Nyx, isso é obra dela", acabou se lembrando de todas as pessoas que a deusa da noite havia recrutado do além para atazanar a vida de seus inimigos. Porém, aquilo era tão absurdo que mesmo para ela parecia impossível. Ainda assim, suas fracas esperanças se esvaíram quando o nome de seu, nem tão novo assim, inimigo foi gritado.

— Viva Jasão! — o coro à alto-mar repetiu o nome mais vezes. — Viva Jasão! — foi nessa hora que Levitz conseguiu vencer a paralisia e se virar, mas não teve tempo de visualizar a figura imponente às suas costas pois foi acordado à força.

(...)

— Ab! — Selena, a filha de Afrodite que desde a chegada do rapaz no acampamento se mostrara uma de suas melhores amigas, o acordou.

Abramov ficou confuso ao se visualizar no chalé de seu pai, mas logo recordou que estava no Acampamento à pedido de Quíron para ajudar em um impasse antigo. O sono interrompido fez com que o semideus acordasse de maneira tonta e dispersa, demorando até que ele focasse no que a campista tinha a dizer.

— Eu — levantou-se rapidamente ao recobrar os sentidos.

— Uma mensagem de Íris chegou, você precisa partir — disse sem rodeios ao mesmo tempo em que jogou uma camisa para o meio-sangue quase desnudo.

Aparentemente as coisas estavam saindo do controle na Ilha de Argos e somente ele, como membro mais antigo do grupo, podia dar um jeito. De acordo com a garota, um outro argonauta havia contatado o acampamento em busca do filho de Zeus pois seus irmãos em serviço estavam brigando entre si. Pietro, quem avisara através da mensagem de Íris, estava tentando acalmar os ânimos, mas era difícil para ele que enquanto filho de Marte não tinha um temperamento dos mais calmos.

Sem perder tempo, o herói recolheu suas coisas e abriu um buraco negro que daria exatamente na central do grupo extra. Esse tipo de transporte era arriscado para a maioria, porém para ele que detinha muita experiência e, de quebra, estava indo para um lugar que conhecia bem, foi fácil. Não foi fácil, por outro lado, não se irritar com a gritaria que tomou conta dos corredores da construção principal. Sua chegada, no entanto, foi um divisor de águas. Os olhares recaíram sobre o semideus de duas maneiras: ou em suspeita ou como forma de alívio.

Mesmo com os murmúrios, era complicado entender o que de fato estava acontecendo. Tanto é que ele mesmo não ousou parar para falar com ninguém, tendo seu trajeto interrompido somente ao chegar no salão principal onde um grupo seleto de argonautas o esperava. O grupo era composto pelos membros mais antigos ou então responsáveis dentre os seguidores de Hera. Não era nada oficial, mas servia como maneira de organizar as ordens ou repassá-las - já que a deusa nem sempre avisava todos do que queria.

— Abramov — Pietro adiantou-se em meio à reunião. — Tá atrasado.

— O que tá pegando? — no fundo ele sabia bem o que estava acontecendo, só desejava ouvir uma outra verdade por parte de seus companheiros.

— Suspeitamos que Nyx tenha arrumado um de nós pro exército dela... um dos antigos — Tavy respondeu.

— Não suspeitamos de nada não. É certeza! — Igor, um dos mais novos argonautas que tinha rapidamente conquistado respeito em meio ao grupo, continuou. — Jasão está de volta.

— Ótimo, Igor, acho que Zeus não te ouviu lá na Sala do Trono fala mais alto — ironizou Arthur.

— Eu sei — sua voz soou mais sombria do que pretendia e isso fez com que todos ali se calassem. As expressões de "se você sabe, por que perguntou" foram várias, mas isso não afetou nada. — O que pretendem fazer quanto a isso?

— No caso, hm, achamos que você é quem deveria dizer — Aiden enfim se pronunciou.

— Como assim? — franziu o cenho em surpresa.

— Hera disse que você iria resolver a confusão — Igor tomou a frente novamente, notavelmente incomodado com o pequeno detalhe proferido por ele mesmo. — Você foi o primeiro escolhido dela dessa nova geração, só o novo primeiro escolhido pra parar o velho primeiro escolhido.

Abramov ficou em silêncio por quase um minuto enquanto tentava processar a informação. Em momento algum lhe ocorrera que a conversa no sonho significava aquilo. A verdade é que o tanto de informações recebidas por ele durante os sonhos acabou afetando seu raciocínio ao ponto de esquecer que teria de lidar com o fantasma do passado.

— Ok. Quantos dos outros já sabem da volta dele? — encarou Igor.

— A essa altura, todos — Pietro parecia nada contente com o desenrolar da cena, mas continha-se por algum motivo particular.

— Tem gente... você sabe, querendo ir pro lado dele — Aiden falou como se aquele fosse o maior pecado da história - o que não deixava de ser uma verdade.

— Traidores em potencial, melhor dizendo — Arthur acrescentou em forma de brincadeira.

— Temos que neutralizar essa ameaça. Não dá pra competir com aquele cara em respeito, mas podemos apelar pra razão — levou as mãos à cintura. — Ele tá do lado de Nyx, ninguém é doido de seguir ele — apesar disso ser uma verdade, ninguém pareceu concordar.

— Informações já chegaram, Jasão está reunindo seu pessoal em um porto mais ao sul de Maine, em Portland — Tavy parecia o único menos tenso de todos, como se soubesse que no fim tudo daria certo.

— Se atacarmos ele ainda no recrutamento podemos acabar com isso logo — Pietro voltou a dizer.

— Não dá pra todo mundo ir, temos que evitar que ele consiga converter os outros — Abramov estava realmente tentando se concentrar, contudo uma forte dor de cabeça repentina o impedia.

— Eu fico — Igor logo se prontificou. O sorriso malicioso dele parecia mais afiado naquele dia, como se estivesse satisfeito com a situação de alguma forma.

Uma suspeita deixou Ab inquieto, mas após muita relutância ele enfim concordou. — Tavy e Arthur ficam e te ajudam a conter qualquer confusão — decretou. — Pietro e eu vamos tentar acabar com isso antes que a situação piore.

Apesar de não ter agradado todos no recinto, a ordem do líder interino foi acatada e as preparações feitas. Devidamente equipados, Di Giorgio e Levitz se preparam para abrir o buraco negro - com um esforço conjunto, era mais fácil utilizar o transporte inusitado. Até porque, graças ao trabalho de inteligência do grupo, encontraram o tal porto facilmente. Assim, em um piscar de olhos, muitos comentários pelas costas e uma sensação de que algo estava errado, os dois apareceram no centro de Portland.

O clima ameno para frio deixava a cidade cinzenta aconchegante naquela época do ano. Pessoas andavam de um lado para o outro entretidas nos seus afazeres mortais. O final de tarde americano sempre foi agitado, com trânsito aflorado e muita barulheira nas avenidas principais. O mais velho dentre os dois argonautas tinha aquela metrópole como desconhecida, então para todo lugar que olhava sentia-se perdido e aflito. Sabia para onde tinha de ir, no entanto como chegar lá parecia uma daquelas perguntas de mau gosto.

— Só ir para o sul que chegamos no mar — Pietro comentou por notar a expressão de "perdido" estampada na face daquele que deveria liderar a missão.

— Isso — a dor de cabeça estava beirando o insuportável, só que ele não podia deixar transparecer, não na frente daquele que lhe salvara anteriormente.

Pietro Di Giorgio havia conquistado a confiança e respeito de Abramov quando literalmente lhe resgatara do cativeiro durante a última empreitada da Seita. Apesar de não serem próximos, sempre que o assunto envolvia as responsabilidades como argonauta, Levitz confiava no outro como seu braço direito. A confiança parecia ser mútua pois, como tinha acontecido horas atrás, o outro rapidamente lhe contatara para voltar até a Ilha. Assim, ainda que não soubesse ao certo o que enfrentaria, o ex ceifador estava confiante em seu aliado.

— Você não fica tentado? — quebrou o silêncio durante a caminhada apressada. — Sabe, de seguir ele. Jasão foi um dos maiores heróis e líder dos argonautas, até eu fico inquieto.

— É alguém a se respeitar e temer — respondeu o outro. — Mas não como um aliado de Nyx. Ele perdeu todo o respeito aí.

— Faz sentido — ponderou.

Após minutos de pressa, a dupla enfim alcançou o tal porto da cidade. A lua já banhava a baía de Portland e a movimentação pelo local não era tão pequena assim. Embarcações de todos os tipos e tamanhos encontravam-se atracadas nos diversos píeres, mas uma delas chamava toda a atenção: um navio imenso parecido com aqueles da franquia Piratas do Caribe. Mesmo tendo ouvido várias histórias sobre a lendária embarcação, Abramov ficou embasbacado com sua majestosidade. A madeira rústica parecia impecável, os escudos com desenhos das constelações nas laterais. Até mesmo o torso da Cão Maior na proa estava perfeitamente esculpida.

Como esperado, nenhum mortal parecia notar Argo ali - pelo menos não em sua forma verdadeira. Ab se perguntou o que eles enxergavam. Um cruzeiro imenso, talvez. Qualquer que fosse a resposta, pouco lhe importava. Uma movimentação suspeita próxima ao navio deixou o rapaz alerta, mas, ao contrário do que imaginou, Jasão não estava ali. Ou se estava não irradiava energia intimidadora; na verdade, não emitia energia alguma.

— Ele não tá aqui — deixou escapar o óbvio.

— Não faz sentido — Pietro pareceu mais surpreso ainda.

A dor de cabeça alcançou seu ápice quando uma pontada forte fez com que o jovem adulto fraquejasse e caísse para trás. Nisso, a voz de Tavy ressoou na mente dos dois ali presentes, graças ao elmo que permitia a comunicação entre os membros do grupo, avisando do que estava acontecendo. Mover Abramov e Pietro para lá havia sido uma jogada de Igor para ter total controle sobre os argonautas que ficaram para trás. Sem nenhuma das figuras mentoras por perto, o rapaz do sorriso maldoso conseguiu influenciar os outros a seguir as ordens do primeiro argonauta. Isto porque antes de Hera apadrinhar o grupo, os argonautas eram uma trupe até então independente e Jasão foi seu real fundador.

— Ab, temos que sair daqui — Di Giorgio apontou para os homens que os observavam à frente do navio - eles perceberam a dupla quando o maior caiu.

— Quem são eles? — mesmo debilitado sem explicação, ele conseguiu se levantar. Todavia, antes que pudessem tentar sair dali, os dois se viram tendo de lidar com uma manada de indivíduos que corria em direção a eles.

Cerca de quinze homens armados com espadas e outros utensílios avançaram pelo porto como em um arrastão. Provavelmente foi isso que os mortais viram, pois saíram correndo com tudo. Obviamente a dupla de semideuses não podia apenas dar as costas para a ameaça, então, sem escolha, um combate inesperado foi iniciado.

— Os da direita são meus — Pietro gritou antes de sacar o machado de adamantina.

Abramov sentia um zumbido estranho em ambos os ouvidos, o que fazia com que sua concentração ficasse prejudicada. Em fato, a sensação lhe lembrou da tortura onde acabou perdendo a audição. Pensar nisso fez com que o semideus ficasse parado quase em estado catatônico enquanto observava os inimigos se aproximando. Não fosse o derramamento de sangue por parte do filho de Marte, ele provavelmente teria sido atropelado pela confusão.

— Quem são vocês? — tentou perguntar em um ato inocente, mas nenhum de seus adversários responderam.

Com Inquisidora, sua lança, em mãos o filho de Zeus deu início aos ataques em área junto à eletricidade gerada por ele. Era fácil afastar os oponentes com os poderes elementais, mas nem todos temiam os raios. Inclusive, um homem alto também armado de uma lança deu uma carreira em direção ao semideus e quase o furou na altura do ombro. Em um giro rápido, Levitz conseguiu perfurar o indivíduo à sua frente e com a força dos ventos o jogar para cima dos outros.

— Sem piedade — Pietro bradou em um canto oposto ao mesmo tempo em que arrancava braços com o machado. O romano fazia aquilo parecer fácil demais, mas pelo menos serviu de incentivo.

Não havia necessidade em entender quem eram aquelas pessoas e tampouco importava, aquilo era um ataque direto e eles estavam sem tempo. Com isso em mente, Abramov ascendeu aos céus para começar os ataques à longa distância. Graças à comunicação mental, os argonautas conseguiam coordenar seus golpes de maneira a cobrirem sua retaguarda. De cima o mais velho avisava o outro para onde se mover e, de baixo, este interceptava os projéteis que iam em direção a seu aliado.

A maioria dos adversários já tinha sido derrotada quando o moreno desceu. Ainda com a lança, ele se meteu no meio do restante e finalizou o que o filho de Marte praticamente tinha iniciado: uma chacina. Golpes precisos e rápidos destroçaram os inimigos em uma dança com as lâminas. Se Pietro decepava membros facilmente, Abramov perfurava a carne humana com ainda facilidade.

— Fim da linha — encostou a ponta da lança no pescoço do último homem de pé. Os cortes no corpo do argonauta devido aos arranhões do combate iam se fechando com o céu estrelado da noite, tornando suportável para ele continuar inabalável mesmo após ter dançando em meio a um grupo de lutadores.

— Você acha mesmo que pode ir contra o primeiro e maior argonauta de todos os tempos, usurpador? — o homem cuspiu o sangue que escorria da boca no pé do interrogador, nada abalado com a ameaça.

— Temos que voltar — Pietro disse em meio aos corpos.

— Onde ele tá — apertou a lâmina com mais força no pescoço, já sem paciência.

— Tolo, a união sempre foi nossa força. Engana-se você que acha que o poder manteve os argonautas juntos — e então com a mão direita ele puxou a arma contra si e se matou.

Sem tempo para processar o que havia acontecido, o navio começou a desaparecer no cenário até revelar ser apenas uma miragem. Os mortais que haviam fugido começaram a retornar pouco a pouco ao local para ver o que tinha acontecido, e a sirene da polícia preencheu a atmosfera antes silenciosa. Os dois sabiam que não podiam ficar - e nem tinham o que fazer ali, pois todos estavam mortos e o navio desparecido. Um completo beco sem saída, como aquelas armadilhas que outrora significaram o fim da linha para alguns grandes heróis da história.

— Espero que ainda tenha alguém para nos recepcionar — confessou nada animado, ao passo em que abriu o buraco negro de volta para a Ilha.

— Eu não contaria com isso — respondeu seu comparsa antes dos dois sumirem de cena.

(...)

De volta à Ilha, a recém-chegada dupla de argonautas se deparou com corredores devastados, dormitórios abandonados e vandalismo pelas paredes. Para todo lugar que olhavam, ninguém encontravam. Era como se de uma hora para a outra toda a central do grupo tivesse virado uma grande ilha fantasma. Em passos apressados, eles se moveram até a sala principal e acabaram se deparando com a pessoa mais improvável - ao mesmo tempo provável -, de encontrarem ali.

— Como pude ter sido tão cega — Hera estava sentada em um trono que até então não existia naquela sala, olhando o vazio do cômodo como se estivesse olhando para o céu.

Os dois seguidores da deusa se ajoelharam em sinal de respeito, mas somente Abramov se pronunciou. — Sinto muito, minha senhora. Fomos enganados.

— Foi culpa minha. Eu confiei em Igor, dei a ele um lugar dentre vocês — o pesar em sua voz era mais de raiva do que tristeza, como se estivesse furiosa por ter sido traída e ter cometido um erro consigo mesma. — E agora ele navega junto dos meus seguidores em direção ao acampamento de vocês.

A notícia atingiu o helênico como um soco no estômago. "O sonho", pensou.

— Ele levou todos para a tripulação do Jasão? — questionou Pietro, também irritado com a traição.

— Eles foram ludibriados, pobres inocentes. Estão sob o feitiço de Nyx e sequer percebem de que lado estão — lamentou.

— Então não são traidores — suspirou aliviado, pois detestava ter de banir todos os seus companheiros... caso vencessem a batalha, obviamente.

— Vocês precisam pará-los antes que seja tarde demais — subitamente seu olhar recaiu sobre os dois últimos aliados que tinha. — Façam eles enxergarem a verdade, mostre-os quem ele realmente é — aquilo não era um pedido e tampouco uma ordem, mas sim uma tímida súplica. — Somente um herói para substituir o outro. Ele não é seu inimigo, meu escolhido — disse exclusivamente para Abramov através dos pensamentos.

— O faremos, minha senhora — o filho de Marte respondeu, seguido por um aceno positivo e acanhado por parte do outro.

— A essa hora eles já devem estar na metade do mar que banha o estado de Nova York — com um estalar de dedos uma maleta apareceu sobre a mesa no centro do recinto. — Isso é seu, Abramov. O ar ainda é mais rápido que o mar, no fim das contas— sorriu de maneira orgulhosa - talvez em uma leve referência sobre seu marido e cunhado. — Não me decepcione — o timbre autoritário teria sido o pior, não fosse o fato dela ter dito aquilo no singular sendo que havia duas pessoas ali.

— Que isso? — ele se levantou para se aproximar da mesa e checar o item.

— Isso, meu irmão, é nossa carona — sorriu em um breve momento de felicidade.

(...)

A ventania que batia contra os rostos dos dois semideuses nos céus era provocada pelo bater de asas dracônicas. Grizfolk, o dragão de bronze adulto que vivia dentro da maleta mágica de Abramov, carregava em suas costas a destemida dupla de argonautas. Poder voar junto de seu melhor amigo deixou o coração do rapaz apertado com saudades de dias mais tranquilos e simples. Os pensamentos, levemente despreocupados, dele reviviam momentos agradáveis ao lado da besta alada. Era incrível como mesmo tecnicamente sendo uma mascote, Ab não tinha Griz como uma e sim como um amigo. No início da relação a impressão que tinha era de que aquele monstrinho era seu filho, mas com o passar dos meses foi percebendo que na verdade havia criado um amigo. Talvez em mais alguns anos dali em diante a fera adquiriria ainda mais sabedoria para se tornar um guia, no entanto por hora a função de ajudante e carona já era mais que suficiente.

Mesmo com a velocidade impressionante
Kyra

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Stepping out of body, no matter what you call it
KAMIKAZE
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