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 Missão liderança

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Abramov Levitz

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Mensagens : 43
Data de inscrição : 23/11/2017

MensagemAssunto: Missão liderança   Qui Jun 14, 2018 4:35 am







SUSSURROS NA NOITE DO SOLSTÍCIO DE INVERNO
Parte II
A tempestade que se aproximava da praia do Acampamento Meio-Sangue era assustadoramente real. Os ventos castigavam os grãos de areia os jogando contra o verde na divisa do terreno. O recuo da maré anunciava que uma onda de proporções titânicas estava se formando e, a julgar pelo tempo em que tudo acontecia, pouco mais de dois minutos mantinham o lar dos semideuses gregos a salvo da destruição. Mesmo com toda a dificuldade de se enxergar em meio à ventania, Abramov conseguia manter os olhos bem abertos para observar a cena. Ele não fazia ideia de como tinha ido parar ali, muito menos quando isso tinha acontecido. Sabia, por outro lado, que se tratava de mais um daqueles sonhos típicos da prole dos deuses.

— É pior do que imaginei — uma voz familiar chamou a atenção do filho de Zeus.

— O que é isso? — ele se virou de supetão, apenas para flagrar o rosto da legítima esposa de seu pai.

Hera estava de pé a poucos metros de distância do campista. Uma expressão severa estampava sua face e sua imagem parecia borrada, como se estivesse fraca demais para manter a conexão divina que os deuses sempre utilizavam para contatar seus filhos. Alguns meses atrás o simples vislumbre da deusa do matrimônio teria causado arrepios no californiano, mas, desde que havia se tornado um ávido seguidor seu, a presença dela na verdade lhe passava segurança. Só que não apenas isso. Quando a matrona entrava em contato direto com algum dos argonautas, é porque algo sério estava acontecendo.

— Um sonho, como bem deve ter notado — respondeu em tom rude e direto. — Minha inimiga fez outro movimento — a escolha do pronome possessivo "minha" foi intencional, pois ela tratava Nyx como sua arquirrival - ainda que na verdade esta fosse inimiga de muitos, inclusive seu marido Zeus.  

— Essa tempestade? Isso é coisa dela? — questionou atônito.

— Sim, mas o problema maior é o que a está causando — apontou para o centro de onde a onda se formava. Lá, a sombra de uma figura se movia e crescia a cada instante que se passava. Com alguns segundos de atenção, pôde-se identificar a forma de um navio. — Dessa vez ela foi baixa demais.

— Eu não entendo. O que é aquele navio? — coçou a cabeça.

— Aquele poderá ser seu pior inimigo, mas também ser seu maior aliado — respondeu de maneira profunda o suficiente para se fazer valer a atenção, mas vaga demais para se entender.

— E ele está do lado de Nyx? — engoliu em seco.

— Sim. Ele já foi meu protegido um dia. Eram épocas diferentes, criança — o tom novamente mudou, assumindo algo mais melancólico. — Não nos importávamos com guerras entre divindades. Nossas preocupações eram tão simples que podíamos nos dar ao luxo de intervir em assuntos mortais por puro prazer.

— Bons tempos — fez uma pausa breve. — Eu acho.

— Prepare-se, meu escolhido. Mais do que nunca precisarei de sua ajuda — a onda gigantesca começou a cair sobre a praia e então a cena mudou.

(...)

Mesmo tendo aberto os olhos após o choque que poderia ter significado sua morte, Abramov sabia que ainda estava sonhando. Contudo, diferente dos momentos anteriores àquele, não estava mais na praia. Para todo lado que olhava, tudo que via era mar. Embora fosse capaz de se encontrar em qualquer coordenada marítima por ser um argonauta, ele não teve ideia de onde estava ou para qual sentido estava navegando. Na verdade, pensar nisso fez com que enfim percebesse que estava na proa de um navio e foi aí que ouviu as vozes.

Uma gritaria típica daqueles momentos que antecedem uma guerra se fez ouvir no ambiente, o que forçou o meio-sangue a se virar para ver do que se tratava. Inúmeros homens levantavam suas armas e as chocavam umas contras as outras em uníssono. Eles não pareciam capazes de enxergar o jovem ali, mas isso pouco importava. Ab sabia que aquilo era uma visão do futuro, como muitas que já tinha tido antes, então precisava entender do que se tratava.

Afobado, o outrora líder do chalé 1 correu em direção à tripulação a meio-navio, todavia acabou sendo parado por uma aura de temor. Seu corpo não parecia reagir e um nervosismo tomou conta de seus ânimos. Todo a barulheira foi interrompida e substituída por sons de passos a estibordo. Alguém caminhava em sua direção vindo da proa - o que era estranho já que ele estivera ali segundos antes -, e esta pessoa parecia ser a responsável pela aura intimidadora.

"Aquele poderá ser seu pior inimigo, mas também ser seu maior aliado", a voz de Hera ecoou em sua mente como uma memória recente. Flashes de lembranças começaram a perturbar os pensamentos do semideus, momentos dele na escola aprendendo sobre história e alguns no próprio acampamento durante as aulas de mitologia. "Ele já foi meu protegido um dia", recordou.

— Ao nosso líder, que nos guiará em direção à glória e sucesso — bradou um dos tripulantes, o que deu seguimento novamente à gritaria e às honrarias.

O coração de Abramov parou por um instante. Ele sabia muito bem quem estava atrás dele e, se estivesse mesmo certo, implorava aos céus para que aquilo não fosse um sonho profético e sim uma alucinação. "Nyx, isso é obra dela", acabou se lembrando de todas as pessoas que a deusa da noite havia recrutado do além para atazanar a vida de seus inimigos. Porém, aquilo era tão absurdo que mesmo para ela parecia impossível. Ainda assim, suas fracas esperanças se esvaíram quando o nome de seu, nem tão novo assim, inimigo foi gritado.

— Viva Jasão! — o coro à alto-mar repetiu o nome mais vezes. — Viva Jasão! — foi nessa hora que Levitz conseguiu vencer a paralisia e se virar, mas não teve tempo de visualizar a figura imponente às suas costas pois foi acordado à força.

(...)

— Ab! — Selena, a filha de Afrodite que desde a chegada do rapaz no acampamento se mostrara uma de suas melhores amigas, o acordou.

Abramov ficou confuso ao se visualizar no chalé de seu pai, mas logo recordou que estava no acampamento à pedido de Quíron para ajudar em um impasse antigo. O sono interrompido fez com que o semideus acordasse de maneira tonta e dispersa, demorando até que ele focasse no que a campista tinha a dizer.

— Eu — levantou-se rapidamente ao recobrar os sentidos.

— Uma mensagem de Íris chegou, você precisa partir — disse sem rodeios ao mesmo tempo em que jogou uma camisa para o meio-sangue quase desnudo.

Aparentemente as coisas estavam saindo do controle na Ilha de Argos e somente ele, como membro mais antigo do grupo, podia dar um jeito. De acordo com a garota, um outro argonauta havia contatado o acampamento em busca do filho de Zeus pois seus irmãos em serviço estavam brigando entre si. Pietro, quem avisara através da mensagem de Íris, estava tentando acalmar os ânimos, mas era difícil para ele que enquanto filho de Marte não tinha um temperamento dos mais calmos.

Sem perder tempo, o herói recolheu suas coisas e abriu um buraco negro que daria exatamente na central do grupo extra. Esse tipo de transporte era arriscado para a maioria, porém para ele que detinha muita experiência e, de quebra, estava indo para um lugar que conhecia bem, foi fácil. Não foi fácil, por outro lado, não se irritar com a gritaria que tomou conta dos corredores da construção principal. Sua chegada, no entanto, foi um divisor de águas. Os olhares recaíram sobre o semideus de duas maneiras: ou em suspeita ou como forma de alívio.

Mesmo com os murmúrios, era complicado entender o que de fato estava acontecendo. Tanto é que ele mesmo não ousou parar para falar com ninguém, tendo seu trajeto interrompido somente ao chegar no salão principal onde um grupo seleto de argonautas o esperava. O grupo era composto pelos membros mais antigos ou então responsáveis dentre os seguidores de Hera. Não era nada oficial, mas servia como maneira de organizar as ordens ou repassá-las - já que a deusa nem sempre avisava todos do que queria.

— Abramov — Pietro adiantou-se em meio à reunião. — Tá atrasado.

— O que tá pegando? — no fundo ele sabia bem o que estava acontecendo, só desejava ouvir uma outra verdade por parte de seus companheiros.

— Suspeitamos que Nyx tenha arrumado um de nós pro exército dela... um dos antigos — Tavy respondeu.

— Não suspeitamos de nada não. É certeza! — Igor Stanus, um dos mais novos argonautas que tinha rapidamente conquistado respeito em meio ao grupo, continuou. — Jasão está de volta.

— Ótimo, Igor, acho que Zeus não te ouviu lá na Sala do Trono, fala mais alto — ironizou Arthur.

— Eu sei — sua voz soou mais sombria do que pretendia e isso fez com que todos ali se calassem. As expressões de "se você sabe, por que perguntou" foram várias, mas isso não afetou nada. — O que pretendem fazer quanto a isso?

— No caso, hm, achamos que você é quem deveria dizer — Aiden enfim se pronunciou.

— Como assim? — franziu o cenho em surpresa.

— Hera disse que você iria resolver a confusão — Igor tomou a frente novamente, notavelmente incomodado com o pequeno detalhe proferido por ele mesmo. — Você foi o primeiro escolhido dela dessa nova geração, só o novo primeiro escolhido pra parar o velho primeiro escolhido.

Abramov ficou em silêncio por quase um minuto enquanto tentava processar a informação. Em momento algum lhe ocorrera que a conversa no sonho significava aquilo. A verdade é que o tanto de informações recebidas por ele durante os sonhos acabou afetando seu raciocínio ao ponto de esquecer que teria de lidar com o fantasma do passado.

— Ok. Quantos dos outros já sabem da volta dele? — encarou Igor.

— A essa altura, todos — Pietro parecia nada contente com o desenrolar da cena, mas continha-se por algum motivo particular.

— Tem gente... você sabe, querendo ir pro lado dele — Aiden falou como se aquele fosse o maior pecado da história - o que não deixava de ser uma verdade.

— Traidores em potencial, melhor dizendo — Arthur acrescentou em forma de brincadeira.

— Temos que neutralizar essa ameaça. Não dá pra competir com aquele cara em respeito, mas podemos apelar pra razão — levou as mãos à cintura. — Ele tá do lado de Nyx, ninguém é doido de seguir ele — apesar disso ser uma verdade, ninguém pareceu concordar.

— Informações já chegaram, Jasão está reunindo seu pessoal em um porto mais ao sul de Maine, em Portland — Tavy parecia o único menos tenso de todos, como se soubesse que no fim tudo daria certo.

— Se atacarmos ele ainda no recrutamento podemos acabar com isso logo — Pietro voltou a dizer.

— Não dá pra todo mundo ir, temos que evitar que ele consiga converter os outros — Abramov estava realmente tentando se concentrar, contudo uma forte dor de cabeça repentina o impedia.

— Eu fico — Igor logo se prontificou. O sorriso malicioso dele parecia mais afiado naquele dia, como se estivesse satisfeito com a situação de alguma forma.

Uma suspeita deixou Ab inquieto, mas após muita relutância ele enfim concordou. — Tavy e Arthur ficam e te ajudam a conter qualquer confusão — decretou. — Pietro e eu vamos tentar acabar com isso antes que a situação piore.

Apesar de não ter agradado todos no recinto, a ordem do líder interino foi acatada e as preparações feitas. Devidamente equipados, Di Giorgio e Levitz se preparam para abrir o buraco negro - com um esforço conjunto, era mais fácil utilizar o transporte inusitado. Até porque, graças ao trabalho de inteligência do grupo, encontraram o tal porto facilmente. Assim, em um piscar de olhos, muitos comentários pelas costas e uma sensação de que algo estava errado, os dois apareceram no centro de Portland.

O clima ameno para frio deixava a cidade cinzenta aconchegante naquela época do ano. Pessoas andavam de um lado para o outro entretidas nos seus afazeres mortais. O final de tarde americano sempre foi agitado, com trânsito aflorado e muita barulheira nas avenidas principais. O mais velho dentre os dois argonautas tinha aquela metrópole como desconhecida, então para todo lugar que olhava sentia-se perdido e aflito. Sabia para onde tinha de ir, no entanto como chegar lá parecia uma daquelas perguntas de mau gosto.

— Só ir para o sul que chegamos no mar — Pietro comentou por notar a expressão de "perdido" estampada na face daquele que deveria liderar a missão.

— Isso — a dor de cabeça estava beirando o insuportável, só que ele não podia deixar transparecer, não na frente daquele que lhe salvara anteriormente.

Pietro Di Giorgio havia conquistado a confiança e respeito de Abramov quando literalmente lhe resgatara do cativeiro durante a última empreitada da Seita. Apesar de não serem próximos, sempre que o assunto envolvia as responsabilidades como argonauta, Levitz confiava no outro como seu braço direito. A confiança parecia ser mútua pois, como tinha acontecido horas atrás, o outro rapidamente lhe contatara para voltar até a Ilha. Assim, ainda que não soubesse ao certo o que enfrentaria, o ex ceifador estava confiante em seu aliado.

— Você não fica tentado? — quebrou o silêncio durante a caminhada apressada. — Sabe, de seguir ele. Jasão foi um dos maiores heróis e líder dos argonautas, até eu fico perturbado.

— É alguém a se respeitar e temer — respondeu o outro. — Mas não como um aliado de Nyx. Ele perdeu todo o respeito aí.

— Faz sentido — ponderou.

Após minutos de pressa, a dupla enfim alcançou o tal porto da cidade. A lua já banhava a baía de Portland e a movimentação pelo local não era tão pequena assim. Embarcações de todos os tipos e tamanhos encontravam-se atracadas nos diversos píeres, mas uma delas chamava toda a atenção: um navio imenso parecido com aqueles da franquia Piratas do Caribe. Mesmo tendo ouvido várias histórias sobre a lendária embarcação, Abramov ficou embasbacado com sua majestosidade. A madeira rústica parecia impecável, os escudos com desenhos das constelações nas laterais davam um ar mais despojado e diverto. Até mesmo o torso da Cão Maior na proa estava perfeitamente esculpida.

Como esperado, nenhum mortal parecia notar Argo ali - pelo menos não em sua forma verdadeira. Ab se perguntou o que eles enxergavam. Um cruzeiro imenso, talvez. Qualquer que fosse a resposta, pouco lhe importava. Uma movimentação suspeita próxima ao navio deixou o rapaz alerta, mas, ao contrário do que imaginou, Jasão não estava ali. Ou se estava não irradiava energia intimidadora; na verdade, não emitia energia alguma.

— Ele não tá aqui — deixou escapar o óbvio.

— Não faz sentido — Pietro pareceu mais surpreso ainda.

A dor de cabeça alcançou seu ápice quando uma pontada forte fez com que o jovem adulto fraquejasse e caísse para trás. Nisso, a voz de Tavy ressoou na mente dos dois ali presentes, graças ao elmo que permitia a comunicação entre os membros do grupo, avisando do que estava acontecendo. Mover Abramov e Pietro para lá havia sido uma jogada de Igor para ter total controle sobre os argonautas que ficaram para trás. Sem nenhuma das figuras mentoras por perto, o rapaz do sorriso maldoso conseguiu influenciar os outros a seguir as ordens do primeiro argonauta. Isto porque antes de Hera apadrinhar o grupo, os argonautas eram uma trupe até então independente e Jasão foi seu real fundador.

— Ab, temos que sair daqui — Di Giorgio apontou para os homens que os observavam à frente do navio - eles perceberam a dupla quando o maior caiu.

— Quem são eles? — mesmo debilitado sem explicação, ele conseguiu se levantar. Todavia, antes que pudessem tentar sair dali, os dois se viram tendo de lidar com uma manada de indivíduos que corria em direção a eles.

Cerca de quinze homens armados com espadas e outros utensílios avançaram pelo porto como em um arrastão. Provavelmente foi isso que os mortais viram, pois saíram correndo com tudo. Obviamente a dupla de semideuses não podia apenas dar as costas para a ameaça, então, sem escolha, um combate inesperado foi iniciado.

— Os da direita são meus — Pietro gritou antes de sacar o machado de adamantina.

Abramov sentia um zumbido estranho em ambos os ouvidos, o que fazia com que sua concentração ficasse prejudicada. Em fato, a sensação lhe lembrou da tortura onde acabou perdendo a audição. Pensar nisso fez com que o semideus ficasse parado quase em estado catatônico enquanto observava os inimigos se aproximando. Não fosse o derramamento de sangue por parte do filho de Marte, ele provavelmente teria sido atropelado pela confusão.

— Quem são vocês? — tentou perguntar em um ato inocente, mas nenhum de seus adversários responderam.

Com Inquisidora, sua lança, em mãos o filho de Zeus deu início aos ataques em área junto à eletricidade gerada por ele. Era fácil afastar os oponentes com os poderes elementais, mas nem todos temiam os raios. Inclusive, um homem alto também armado de uma lança deu uma carreira em direção ao semideus e quase o furou na altura do ombro. Em um giro rápido, Levitz conseguiu perfurar o indivíduo à sua frente e com a força dos ventos o jogar para cima dos outros.

— Sem piedade — Pietro bradou em um canto oposto ao mesmo tempo em que arrancava braços com o machado. O romano fazia aquilo parecer fácil demais, mas pelo menos serviu de incentivo.

Não havia necessidade em entender quem eram aquelas pessoas e tampouco importava, aquilo era um ataque direto e eles estavam sem tempo. Com isso em mente, Abramov ascendeu aos céus para começar os ataques à longa distância. Graças à comunicação mental, os argonautas conseguiam coordenar seus golpes de maneira a cobrirem sua retaguarda. De cima o mais velho avisava o outro para onde se mover e, de baixo, este interceptava os projéteis que iam em direção a seu aliado.

A maioria dos adversários já tinha sido derrotada quando o moreno desceu. Ainda com a lança, ele se meteu no meio do restante e finalizou o que o filho de Marte praticamente tinha iniciado: uma chacina. Golpes precisos e rápidos destroçaram os inimigos em uma dança com as lâminas. Se Pietro decepava membros facilmente, Abramov perfurava a carne humana com ainda mais facilidade.

— Fim da linha — encostou a ponta da lança no pescoço do último homem de pé. Os cortes no corpo do argonauta devido aos arranhões do combate iam se fechando com o céu estrelado da noite, tornando suportável para ele continuar inabalável mesmo após ter dançando em meio a um grupo de lutadores.

— Você acha mesmo que pode ir contra o primeiro e maior argonauta de todos os tempos, usurpador? — o homem cuspiu o sangue que escorria da boca no pé do interrogador, nada abalado com a ameaça.

— Temos que voltar — Pietro disse em meio aos corpos.

— Onde ele tá — apertou a lâmina com mais força no pescoço, já sem paciência.

— Tolo, a união sempre foi nossa força. Engana-se você que acha que o poder manteve os argonautas juntos — e então com a mão direita ele puxou a arma contra si e se matou.

Sem tempo para processar o que havia acontecido, o navio começou a desaparecer no cenário até revelar ser apenas uma miragem. Os mortais que haviam fugido começaram a retornar pouco a pouco ao local para ver o que tinha acontecido, e a sirene da polícia preencheu a atmosfera antes silenciosa. Os dois sabiam que não podiam ficar - e nem tinham o que fazer ali, pois todos estavam mortos e o navio desparecido. Um completo beco sem saída, como aquelas armadilhas que outrora significaram o fim da linha para alguns grandes heróis da história.

— Espero que ainda tenha alguém para nos recepcionar — confessou nada animado, ao passo em que abriu o buraco negro de volta para a Ilha.

— Eu não contaria com isso — respondeu seu comparsa antes dos dois sumirem de cena.

(...)

De volta à Ilha, a recém-chegada dupla de argonautas se deparou com corredores devastados, dormitórios abandonados e vandalismo pelas paredes. Para todo lugar que olhavam, ninguém encontravam. Era como se de uma hora para a outra toda a central do grupo tivesse virado uma grande ilha fantasma. Em passos apressados, eles se moveram até a sala principal e acabaram se deparando com a pessoa mais improvável - ao mesmo tempo provável -, de encontrarem ali.

— Como pude ter sido tão cega — Hera estava sentada em um trono que até então não existia naquela sala, olhando o vazio do cômodo como se estivesse olhando para o céu.

Os dois seguidores da deusa se ajoelharam em sinal de respeito, mas somente Abramov se pronunciou. — Sinto muito, minha senhora. Fomos enganados.

— Foi culpa minha. Eu confiei em Igor, dei a ele um lugar entre vocês — o pesar em sua voz era mais de raiva do que tristeza, como se estivesse furiosa por ter sido traída e ter cometido um erro consigo mesma. — E agora ele navega junto dos meus seguidores em direção ao acampamento de vocês.

A notícia atingiu o helênico como um soco no estômago. "O sonho", pensou.

— Ele levou todos para a tripulação do Jasão? — questionou Pietro, também irritado com a traição.

— Eles foram ludibriados, pobres inocentes. Estão sob o feitiço de Nyx e sequer percebem de que lado estão — lamentou.

— Então não são traidores — suspirou aliviado, pois detestava ter de banir todos os seus companheiros... caso vencessem a batalha, obviamente.

— Vocês precisam pará-los antes que seja tarde demais — subitamente seu olhar recaiu sobre os dois últimos aliados que tinha. — Façam eles enxergarem a verdade, mostre-os quem ele realmente é — aquilo não era um pedido e tampouco uma ordem, mas sim uma tímida súplica. — Somente um herói para substituir o outro. Ele não é seu inimigo, meu escolhido — disse exclusivamente para Abramov através dos pensamentos.

— O faremos, minha senhora — o filho de Marte respondeu, seguido por um aceno positivo e acanhado por parte do outro.

— A essa hora eles já devem estar na metade do mar que banha o estado de Nova York — com um estalar de dedos uma maleta apareceu sobre a mesa no centro do recinto. — Isso é seu, Abramov. O ar ainda é mais rápido que o mar, no fim das contas— sorriu de maneira orgulhosa - talvez em uma leve referência sobre seu marido e cunhado. — Não me decepcione — o timbre autoritário teria sido o pior, não fosse o fato dela ter dito aquilo no singular sendo que havia duas pessoas ali.

— Que isso? — ele se levantou para se aproximar da mesa e checar o item.

— Isso, meu irmão, é nossa carona — sorriu em um breve momento de felicidade.

(...)

A ventania que batia contra os rostos dos dois semideuses nos céus era provocada pelo bater de asas dracônicas. Grizfolk, o dragão de bronze adulto que vivia dentro da maleta mágica de Abramov, carregava em suas costas a destemida dupla de argonautas. Poder voar junto de seu melhor amigo deixou o coração do rapaz apertado com saudades de dias mais tranquilos e simples. Os pensamentos, levemente despreocupados, dele reviviam momentos agradáveis ao lado da besta alada. Era incrível como mesmo tecnicamente sendo uma mascote, Ab não tinha Griz como uma e sim como um amigo.

No início da relação a impressão que tinha era de que aquele monstrinho era seu filho, mas com o passar dos meses foi percebendo que na verdade havia criado um amigo. Talvez em mais alguns anos dali em diante a fera adquiriria ainda mais sabedoria para se tornar um guia, no entanto por hora a função de ajudante e carona já era mais que suficiente.

Mesmo com a velocidade impressionante, os três ainda estavam muito atrás do navio mágico. Pietro, inquieto como só, passava o tempo inteiro comentando sobre táticas de guerrilha e assalto para os dois usarem durante o ataque. Muitas delas envolviam estratégias de batalha entre piratas em alto mar, algo que Abramov com toda certeza nunca ouvira falar em vida. Este, por outro lado, questionava o tempo inteiro se Grizfolk deveria se envolver ou não pois julgava os poderes do dragão extremos demais. A intenção era resgatar seus colegas e não simplesmente cair matando.

Quando olhava para um lado, Ab era capaz de ver a imensidão do Oceano Atlântico, enquanto que para o outro lado a vastidão do litoral norte-americano o aguardava. Mesmo com a vista incrível e montado em seu dragão a caminho de uma batalha sem precedentes, ele ainda continuava a pensar em seus problemas pessoais. Na verdade, um em específico ainda lhe tirava o foco: Beau G. Edmond. O recente e conturbado término com o filho de Eros com certeza abalava seu espírito e, mesmo ali quando não deveria se dispersar com outros assuntos, se pegava remoendo sobre o que havia acontecido. Ainda era meio-humano, no fim das contas.

— Como a gente vai fazer eles pararem? — Di Giorgio chegou a questionar em determinado momento.

— O quê? — de tão distraído sequer entendeu o que o outro queria dizer.

— Hera disse que eles foram enganados, provavelmente é algum tipo de truque que Nox tá usando — ele mexia de maneira estranha na aliança, como se estivesse tentando fazer algo.

Pietro provavelmente estava certo e admitir isso fez com que o filho de Zeus se irritasse. Não porque aceitar que seu aliado havia sido mais esperto era uma dificuldade para ele, mas sim por se tocar de que desde antes da confusão no porto não estava agindo como um bom líder. As outras preocupações e dilemas afetavam tanto o semideus que ele já não conseguia estar 100% em lugar nenhum. E isso já era de tempos. Às vezes enxergar um problema não basta para neutralizá-lo, contudo isso nunca se aplicou ao membro da família Maciej. Estar frente a frente ao problema significava poder socá-lo, e foi isso que Ab fez.

— Faz sentido. Precisaríamos de algum tipo de magia pra reverter o que quer que seja isso — acrescentou.

— É exatamente isso que tô fazendo — sorriu. — Nosso reforço deve chegar em breve, avisei Eleonor do que tá rolando.

— Leo — repetiu automaticamente. Se recordava muito bem da filha de Hefesto com a qual estivera preso durante o sequestro. Era uma excelente ajuda, de fato. — Tá legal, só espero que ela seja rápida, porque estamos chegando — apontou para o horizonte à frente onde finalmente o navio entrou em seu campo de visão.

Toda a confusão desde o início da missão fez com que Abramov se esquecesse de um nem tão pequeno mas com certeza curioso detalhe: Argo, o navio, era capaz de flutuar e viajar no ar. Então o tempo inteiro Ab esteve esperando pelo choque que aconteceria no mar, não contando que a batalha seria em pleno céu. "Isso explica porque eles também foram mega rápidos", refletiu. Infelizmente sua reflexão foi interrompida por outra visão: a praia do Acampamento Meio-Sangue.

Um desespero começou a borbulhar no estômago do meio-sangue, mas ele logo tratou de respirar fundo e se concentrar. Em toda sua carreira como semideus já tinha lidado com incontáveis números de situações até então impossíveis. Se tinha uma coisa que ele não podia fazer ali, essa coisa era duvidar de si mesmo. E foi com isso em mente que deu início à operação de resgate.

Conforme acordado entre os dois, Grizfolk voaria mais alto para deixa que ambos caíssem sobre o navio. A intenção era chamar a atenção de todos, inclusive do líder da missão inimiga. Nisso, Eleonor já teria aparecido na parte interna da embarcação e preparado algum tipo de feitiço para quebrar a magia que influenciava os argonautas. Tudo teria corrido bem, não fosse o fato de que nada correu bem. Igor sabia muito bem que os dois apareceriam então se adiantou junto a Jasão.

Quando a dupla destemida pisou no casco de madeira, foi surpreendida por toda a tripulação aguardando por ela. Tantos rostos conhecidos misturados a outros nunca antes vistos por eles. Abramov ficou furioso ao ver que seus irmãos estavam sendo usados naquele ato imoral e revoltante, mas mais ainda com Igor - o verdadeiro traidor. A face naturalmente irônica e de traços élficos deste sempre tiraram Ab do sério, porém naquela ocasião o ranço era obviamente muito maior. Mesmo com tudo isso, o que mais chamou a atenção foi a sensação de estar diante de uma figura importante - igual um deus, mas não exatamente em mesma intensidade. Era uma energia intimidadora e ao mesmo tempo boa, como estar diante de uma figura... heroica.

— Então você finalmente chegou — todos abriram espaço para a passagem dele no convés. — É uma honra conhecer o atual líder dos argonautas.

Em toda sua vida o filho de Zeus nunca imaginou que conheceria uma figura histórica tão importante assim. Na verdade, mesmo já tendo papeado com seu meio-irmão famoso que curiosamente vem a ser seu ídolo, Hércules, não estava de fato preparado para encarar um outro herói. Um verdadeiro herói. Um que carregava o título com orgulho e motivos, pois havia de fato feito por merecer e não somente conquistado por pura fama e status histórico. O homem era poucos centímetros mais alto que seu concorrente mais novo. Seus fios negros jaziam em um corte pequeno sobre sua cabeça. Os olhos, tão pretos quanto as madeixas, detinham um formato meigo e bonito - como de um jovem inocente. Por outro lado, a barba e as cicatrizes de batalha denunciavam sua idade nem tão pouca.

— Jasão — ousou dizer, sem saber como se sentir com relação ao tão ansiado encontro. — É uma honra também te conhecer — apesar de realmente lisonjeado com o momento, estava ciente do que precisava fazer então a todo instante sua atenção era mais redobrada. — Infelizmente não podemos só apertar mãos e compartilhar experiências como líderes.

— Receio que não — a armadura dourada que vestia vez ou outra brilhava com os primeiros raios de Sol do dia. Mas o mais impactante de fato eram a espada e escudo que ele tinha consigo. — Podemos facilitar nossas vidas com você se rendendo.

— Eu juro que faria isso, se não fosse o fato de você estar sendo CONTROLADO POR NYX — gritou a última parte na esperança de alguma forma acordar seus colegas do transe, mas ninguém pareceu se importar.

— Você não entende. Eu que estive ausente por tanto tempo percebi tudo de errado que há com esse novo mundo — suas palavras realmente seriam capazes de convencer qualquer um. Ele não parecia estar mentindo ou falando aquilo apenas como uma desculpa qualquer. — Nyx é a esperança de um recomeço, de uma vida desprendida de valores vazios e estúpidos que os deuses nos imporam.

— E como atacar o Acampamento com um bando de semideuses ajuda a mudar isso? — ironizou.

— Sacrifícios precisam ser feitos. É com pesar que terei o sangue desses inocentes em mãos, mas só assim para poupar a vida de muito mais inocentes — foi aí que Ab finalmente percebeu que na verdade Jasão também estava sendo enganado por Nyx.

— Espera, acho que tem algum mal-entendido acontecendo — todavia, antes que pudesse dar continuidade ao diálogo, Igor gritou que Pietro estava armado e isso deu início à confusão.

Os argonautas que estavam ao redor dos dois sacaram suas armas e começaram o processo de intimidação e rendição. Sem outra alternativa, caso contrário morreriam ou matariam os aliados, Pietro e Abramov aceitaram a rendição. Estavam, inclusive, a ponto de serem amarrados por cordas quando Eleonor enfim deu início ao plano. Graças à possibilidade de criar portais e aparecer em praticamente qualquer lugar, a feiticeira havia surgido no porão do navio onde ninguém supostamente deveria estar. Ciente de que algum tipo de magia estava influenciando os argonautas, ela tentou quebrar o efeito com um feitiço reverso, mas seus esforços foram inúteis pois não tinha como afetar seus alvos sem os ter em seu campo de visão.

A filha de Hefesto resolveu tentar subir de maneira furtiva, mas foi impossível dada a situação. Tendo sido notada por um soldado alerta, foi igualmente rendida e isso despertou a fúria de seu amante. Temendo o pior, Levitz abusou de toda sua lábia como legado de Baco para tentar enrolar o público. De acordo com ele, a fim de evitar mais derramamento de sangue desnecessário, os dois líderes poderiam se enfrentar em uma disputa honesta e rápida. Passado contra presente; os dois lados da guerra.

— Parece justo e correto. Façamos isso então — concordou o herói que ainda carregava os valores antigos.

Aparentemente nenhum herói era capaz de recusar um desafio, talvez algum tipo de código de honra ou lei heroica. Em qualquer que fosse o caso, Ab deu graças a seu pai por ter dado certo.

— Ab — Pietro claramente não estava satisfeito com aquilo, mas sabia que tentar qualquer coisa arriscada poderia por a vida de Eleonor em risco e por isso confiou em seu superior.

O espaço central do Argo foi reservado para os dois campeões se enfrentarem. Todo o restante da tripulação rodeou a arena improvisada para assistir ao combate. Eleonor e Pietro foram mantidos amarrados perto do mastro principal, também forçados a assistir ao espetáculo. Acima do navio flutuante, o dragão imenso batia suas asas e observava o desenrolar da cena. Os ventos agitados daquela expedição deixavam o oceano abaixo deles ainda mais turbulento. A praia do acampamento se aproximava cada vez mais e em talvez em uma hora enfim chegariam ao destino final. E isso era tudo o que Ab menos queria.

— Apenas uma arma, certo? — comentou ao sacar a lança e se alongar.

— Mais do que certo, Abramov — Jasão girou a espada com a mão direita e se posicionou para dar início ao duelo.

Um silêncio tomou conta da cena e somente os assovios dos ventos foram ouvidos por longos segundos. O argonauta da atualidade empunhava Inquisidora, a lança, enquanto que o outro tinha uma espada também de ouro imperial como arma. O primeiro movimento foi feito por parte de Jasão, que rapidamente cortou o espaço entre ambos e desferiu uma estocada com a lâmina. O semideus não imaginou que um mortal, ainda que revivido, seria tão rápido e habilidoso assim, então acabou tendo tempo apenas de girar o corpo para evitar ser perfurado - e ainda assim sofreu um corte na lateral da costela direita.

O tal silêncio foi cortado pela gritaria dos argonautas que torciam para aquele que detinha a vantagem da luta. Ab nunca imaginou que se veria em uma situação como aquelas, portanto sentiu a pressão que há éons não sentia. Sem saber que estratégia de batalha adotar, o meio-sangue abusou do amplo meio do navio para se manter distante. Precisava comprar tempo até poder pensar em uma saída, já que a vida de Eleonor e Pietro também dependiam de seu sucesso. Cada passo dado era com o intuito de se safar da espada dourada, mas em um lance acabou tentando um furo na coxa de seu inimigo e este literalmente pulou por cima da lança.

— Movimento arriscado, argonauta — falou ao usar o próprio peso para por a lança no chão e desarmar Abramov.

A vaia coletiva que sucedeu o ocorrido fez com que o líder interino ruborescesse. Estava envergonhado, mas mais do que isso: irritado. Suas capacidades eram muito maiores que aquilo, pensou. As palavras de Hera ecoavam em sua mente e de alguma maneira ele sabia que não podia fazer o que estava prestes a fazer, contudo o orgulho e ira de ambos os seus padrinhos falaram mais algo. Seu corpo começou a incandescer anunciando o que estava por vir.

— Ele vai usar os raios, matem-no antes! — Igor gritou de outro canto do navio, o que instantaneamente ativou o modo soldado dos argonautas ali presentes.

Ele estava certo, um raio rasgou as nuvens do início da manhã e acertou Argo em cheio. Alguns foram atingidos pela descarga, incluindo Jasão, e caíram para trás. A maioria, por outro lado, terminou intacta e pronta para matar o responsável pela confusão. Abramov teve de derrubar alguns irmãos no soco e uns desconhecidos com a lança mesmo. Não havia intenção alguma de matar alguém - mesmo ainda irritado -, então evitar explodir foi o maior problema.

— Jasão, precisamos conversar — bradou em meio à batalha, mas sua voz era abafada pelos gritos de guerra e os sons da luta.

Com o canto dos olhos, Ab flagrou Pietro derrubando todos que iam para cima dele e Eleonor. O filho de Marte escolhia antecipadamente o que fazer: os argonautas que faziam parte do grupo eram apenas empurrados por seu machado; os que tinham se juntado em nome de Jasão e, consequentemente, Nyx eram arremessados para longe sem a preocupação de que cairiam lá de cima ou não. A feiticeira, por sua vez, fazia aqueles que ousavam se aproximar dela vomitarem pequenos moluscos. Nojento mas muito útil.

— Não há o que conversar, Abramov. Você traiu um ritual de disputa antigo e sagrado — o herói respondeu de algum canto impossível de se definir.

"Mas a gente nem combinou de não poder usar pode", refletiu consigo mesmo. Obviamente em meio a confusão, argumentar seria apenas perda de tempo e tempo era algo que não podiam desperdiçar.

— Abramov, estamos chegando! — Pietro bradou de outro lugar, alternando entre prestar atenção no cenário ao seu redor e os inimigos que tentam lhe pegar.

Grizfolk, contrariando as ordens de seu dono, perdeu altitude e começou a usar seus membros gigantes para pegar alguns oponentes e os jogar lá embaixo. Por sorte o dragão conhecia todos os companheiros de seu amigo graças ao elo que ambos tinham, caso contrário teria pego inocentes com suas garras imensas. Ao mesmo tempo em que a besta alada fazia isso, Igor continuava a articular suas tropas para tentar derrotar o quarteto fantástico. Todavia, seus números não adiantavam muito pois o trio era mais poderoso - e o dragão, bem, era um dragão.

— Pare com essa estupidez enquanto ainda há tempo — disse ao orador do caos.

— Nyx me prometeu a glória eterna e o título de herói da atualidade — Stanus respondeu enraivecido e com o mesmo sorriso traiçoeiro no rosto. — Você não vai me impedir agora, Abramov. Você nunca nem prestou pra liderar nada. Sempre tão preocupado com seus próprios problemas, nunca pensou nos outros antes de si mesmo, egoísta.

As palavras surtiram como um soco bem dado no estômago. Abramov ficou sem reação por longos segundos, sem saber como se sentir quanto aquilo. Em partes queria apenas socar Igor para fazê-lo parar com aquilo, mas ao mesmo tempo sentia como se fosse verdade. Porque era. Há muito tinha noção de que seus problemas pessoais tinham tomado conta de toda sua atenção. Era como se sua vida particular fosse muito mais importante que todo o resto, sendo que fazer parte de um grupo acolhido por uma divindade pregava justamente o contrário disso. E como suposto líder então, era puro egoísmo notar isso e não fazer nada para mudar.

— CHEGA — outro trovão rugiu no céu e todos pararam para lhe encarar. — Você tá certo, eu tenho sido mesmo muito egoísta — olhou para quase todos ali presentes. — Mas isso não justifica seguir Nyx e aceitar fazer parte de algo como isso — Jasão observou atentamente e pela primeira vez desde que tudo tinha começado fez com que o navio parasse. — Você mais do que ninguém deveria perceber isso, Igor, já que vendeu seus amigos por puro interesse. Nyx não é a salvadora que diz ser, irmão — seus olhos cravaram sobre o herói revivido, direcionando todo seu discurso para ele. Como uma súplica. — Ela matou vários de nós e muito mais inocentes, tudo o que toca apodrece e usou vários como você para seus planos malignos.

— Você está cego pelas palavras de seu próprio pai — o orador das trevas rebateu. — Acabem com eles, é uma ordem!

A ordem serviu como um estimulante, pois os argonautas partiram com tudo para cima dos três de novo. Entretanto, diferente da primeira vez eles pareciam mais fortes e atentos, pois não atacavam em bandos como zumbis e sim alternadamente como soldados de verdade. Ab tentou usar de sua influência para parar o ataque, mas não havia muito o que fazer. Suas palavras não pareciam mais alcançar o restante dos guerreiros, ao passo em que Igor detinha total controle sobre eles. "É isso!" Um estalo fez com que o campista ascendesse aos céus - o que é irônico, já que já estavam voando.

— Leo, desfaça a magia quando for a hora — vociferou para a filha de Hefesto.

— E quando vai ser isso? — a feiticeira questionou em voz alta enquanto usava seus poderes para se manter a salvo.

— Você vai ver — em um rasante, Ab pegou Igor pelos ombros e saiu do navio com ele.

— O que está fazendo? Me coloque no chão agora mesmo, imbecil — Stanus sibilou enquanto se debatia no ar.

— Com prazer — soltou o refém de leve.

— Espera! Espera! — era possível sentir o cheiro do medo. — Não me mata, você não pode fazer isso.

— Você não deveria trair sua matrona também — comentou. — Mas aqui estamos nós — os dois sobrevoavam o mar já quase na costa da praia, centenas de metros separavam ambos da água que, àquela altura, podia ser considerada concreto. — Não sei o que Nyx te deu pra conseguir tamanha façanha, mas interrompa a magia e eu te não te solto.

— Não posso, está em mim, não consigo reverter — choramingou.

— Imaginei — um sorriso de satisfação foi estampado em seu rosto, conforme voltou para a embarcação e largou a "carga" no convés. — Leo, é ele! — não sabia se a garota entenderia, mas não tinha tempo de explicar tudo com detalhes.

Eleonor ficou perdida por alguns instantes, tendo sido protegida por Pietro que, incessavelmente, brandia o machado para proteger os dois. Porém, talvez como algum tipo de habilidade passiva das aprendizes de Circe, ela enfim sentiu o que estava acontecendo. O tempo inteiro esteve à procura da aura invisível que afetava os argonautas, mas em momento algum parou para pensar que seja lá que poder fosse aquele ele vinha de um lugar. E que, naquele caso, o lugar na verdade era uma pessoa.

— Igor — seu olhar focou no adolescente e então entendeu o que tinha de fazer. — Amor, me dê cobertura.

Enquanto a feiticeira fazia seu trabalho e era auxiliada pelo companheiro, Abramov travava sua própria luta tentando comandar os ventos para atrasar Argo que havia voltado a voar em direção ao acampamento. Ao fazer isso, não percebeu que na verdade estava apenas agitando ainda mais o mar e as ondas que eram formadas por conta da alteração já alcançavam a casa dos dez metros. Grizfolk tentou avisar isso, mas nem mesmo sua voz conseguia superar o barulho da ventania. Jasão estava no topo do mastro observando a situação. Sua tripulação havia acordado do transe e derrotado os mercenários novos que tinham se juntado à tropa. Ab conseguiu ver, ainda que com dificuldade, o exato momento em que os olhos do herói se tornaram completamente pretos.

Um calafrio percorreu todo o corpo do filho de Zeus. O mesmo calafrio que o perturbou durante o sonho junto a Hera. Tudo ao seu redor pareceu entrar em câmera lenta e mesmo ele largou o controle que exercia sobre os ventos. Ele enxergou com clareza o exato momento em que Jasão saltou do mastro e, com uma força e ímpeto nunca antes vistos, cravou a espada na barriga do dragão. O som estridente e perturbador da fera grunhindo de dor ensurdeceu todos na cena. O coração de Abramov parou por dois segundos e sua visão escureceu. Inconsciente, seu corpo caiu sobre o casco do navio e acima dele veio o monstro.

Argo, o maior navio da mitologia grega, podia ser poderoso e mágico, mas nem mesmo ele foi capaz de aguentar o peso de um dragão imenso sobre si. Os gritos começaram quando viram o corpo gigantesco da fera cair. Alguns argonautas ousaram pular no oceano, no entanto todo o restante rezou ao deus que lhe serviu pela própria salvação. A embarcação lendária, no mesmo instante em que teve o peso de Grizfolk somado, começou a cair e rapidamente atingiu o mar. A queda foi rápida, desesperadora e nada tranquila. Partes da madeira especial quebraram e isso serviu para lentamente afundar o barco.

Àquela altura vários campistas já se encontravam reunidos na praia para entender o que estava acontecendo. Dentre eles, o próprio Quíron já estava preparado para o resgate. A gritaria tomou conta do momento e um esforço conjunto foi iniciado. Os argonautas que conseguiam sair do navio tentavam ajudar os outros, mas retirar o corpo do dragão ferido e evitar que Argo se quebrasse completamente era o mais difícil. Pietro e Eleonor estavam tentando por ordem na embarcação quase à deriva, mas mesmo eles não sabiam bem o que fazer além de esperar que o resgate do acampamento chegasse. Igor, tonto e com a perna quebrada, gritou por Jasão enquanto boiava em um pedaço de maneira, mas este não apareceu.

— Cadê o Ab? — Leo questionou ao companheiro.

— Não sei, ele caiu perto do mastro antes do dragão — Pietro respondeu. — Não vi ele depois disso.

(...)

O som das ondas se chocando contra a praia acordaram Abramov do estado de inconsciência. Ele estava largado na areia próximo ao mar sozinho e sem nada aparentemente por perto. Não estava cansado, mas uma tontura estranha fez com que tivesse dificuldades em levantar imediatamente. Na verdade, a vontade de ficar deitado olhando para o céu azul e belo era tentadora. Mais ainda por poder sentir o terreno arenoso úmido em contato com sua pele. Além disso tudo, o clima quente era agradável e piorava a preguiça.

Por um longo momento o semideus se esqueceu de tudo o que tinha acontecido. Ele era apenas o filho de Katya Levitz, o herdeiro da fortuna do pai e socialite em ascensão. Talvez em uma ilha paradisíaca na Ásia curtindo suas férias sem fim, pronto para gravar vários stories no instagram. Se seu celular não descarregasse antes e ele precisasse correr para o hotel novamente. "Gosto dessa ideia", acabou sorrindo sozinho. Era óbvio que nada daquilo era real.

Uma pena.

Seus olhos piscaram com força e então uma outra leva da água do mar o despertou de vez. De pé, Ab finalmente percebeu que estava morrendo de sede. Foi penando nisso que enfim se tocou de que não sabia onde estava. Esse tempo inteiro imaginou que tinha naufragado em algum canto da Praia dos Fogos, mas aquela ilha definitivamente não era o Acampamento Meio-Sangue. Um desespero tomou conta de âmago e o fez perder o ar por breves instantes. A lembrança de Grizfolk sendo ferido e caindo dos céus voltou com tudo à sua cabeça e isso fez com que ele se afobasse. Perder o dragão estava fora de cogitação para ele, principalmente depois de tudo que tinha passado juntos.

— Ele está bem, garanto isso a você — uma voz familiar surgiu vindo de um coqueiro mais ao centro da ilha.

— Q-quem — engoliu em seco, mais tranquilo pela simples presença do ser.

— Grizfolk, ele não está morto — Thanatos se revelou para o semideus quando este se virou para olhar.

— S-senhor — se ajoelhou em respeito. Há muito não devia respeito à divindade por não mais ser um de seus ceifadores, mas ainda nutria o sentimento em nome de tudo o que deus fez por ele.

— Sabes que não há necessidade para tal — com um aceno de cabeça. o deus saudou o rapaz de volta e jogou um coco para ele. — Beba, vai te fazer bem.

O campista pegou o coco e o abriu sem muita dificuldade para beber a água. — Eu morri? É isso? — era a única explicação que podia achar para aquilo. Talvez tivesse ido parar nos Elísios e Thanatos estava ali para o recepcionar pessoalmente, considerou.

— Também não. Estou aqui apenas para pagar uma dívida que tenho para contigo — o deus abriu suas asas e planou sem motivo aparente. — Essa é Ogígia, a ilha perdida.

Levitz quase engasgou com a resposta. Ele já tinha ouvido falar daquele lugar antes e de quem morou ali por muitos e muitos anos. — E como eu vim parar aqui?

— Minha mãe tentou tirar você do caminho dela, meu caro — as asas foram fechadas e, caminhando lentamente, o filho de Nyx andou até a água. — Eu tenho o costume de vir aqui nas horas vagas. O que, infelizmente, não é agora. Você precisa voltar, Abramov. Seus aliados dependem de você mais do que nunca.

A água de coco, claramente mágica, ajudou a revitalizar o meio-sangue, mas isto não o preparou para o que estava por vir.

— Nyx assumiu o controle do herói e agora ele tem um novo exército sob seu comando. O acampamento está sob ataque.

— Como eu volto? — questionou. Não podia mentir quanto ao medo de não saber contra o que estaria lidando, mas seu senso de responsabilidade falou mais alto e afastou qualquer pensamento negativo.

— Sua carona já está arranjada — apontou para a jangada que vinha lentamente em direção à ilha.

— Vai dar tempo? — tentou não soar grosseiro, dada a situação.

— Claro, semideus. A Morte sempre cumpre com sua palavra — Ab não poderia afirmar com certeza, mas jurou ter visto o outro sorrir. — Isso é pelo favor que me fez mesmo quando já não me devia seus serviços — levantou voo novamente, afastando-se cada vez mais da ilha. — Guiarei um dos heróis para seu verdadeiro lar ao fim de tudo — sussurrou.

— Obrigado — disse, ao pular na jangada. O semideus observou seu ex mestre sumir no céu enquanto ele mesmo se afastava da ilha.

Refletindo sobre o encontro, Abramov notou que a Morte esteve por perto em todos os momentos decisivos de sua vida. Desde seu primeiro ano como campista, Thanatos lhe guiou como um tutor durante os momentos mais difíceis. Foi com a benção dele, inclusive, que se tornou líder do chalé de Zeus. Esses detalhes fizeram com que o jovem adulto questionasse o futuro depois daquele dia. Estaria ele frente a frente novamente com alguma mudança drástica em sua vida? Ou seria aquele apenas seu fim? Qualquer que fosse a resposta, ela ficou esquecida junto à ilha onde muitos heróis um dia já se perderam...
Kyra


Última edição por Abramov Levitz em Ter Jun 26, 2018 9:04 pm, editado 1 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: Missão liderança   Ter Jun 26, 2018 7:58 pm







SUSSURROS NA NOITE DO SOLSTÍCIO DE INVERNO
Parte II
A viagem de volta acabou não sendo uma viagem de fato. Obviamente devido a algum efeito mágico que somente os deuses controlavam, em questão de segundos Abramov avistou a praia do acampamento. Só tinha um porém, ou melhor, vários poréns: criaturas estranhas e pequenas embarcações se aglomeravam perto da praia. Era um ataque de criaturas marinhas e piratas, logo percebeu. Acima dos inimigos, estava Jasão montado em um tipo de raia voadora gigante. O bicho suportava facilmente o herói e ainda sobrava uns poucos metros - o que era muito, comparado à maioria de mesma espécie. Porém, por menos intimidador que isso possa parecer, o monstro era completamente preto e tinha uma boca grande e estranha na frente. A impressão que dava era que a coisa poderia engolir e arrancar a cabeça de alguém em uma só mordida.

Mesmo preocupado com as pessoas, seu coração ficou mais sossegado ao ver Grizfolk jogado na areia próximo à floresta. O dragão estava inconsciente mas seu peito mexia, denunciando sua respiração. Alguns semideuses estavam ao seu redor para prestar auxilio e servir de defesa. "Ok, preciso agir". Os campistas estavam dispostos em linhas de guerra na praia. A linha de frente era composta pelos argonautas, logo atrás deles vinham os filhos de Artes e em seguida uma mistura dos de Apolo e outros suportes. Quíron gritava as ordens, mas não havia uma estratégia de fato. A maioria dos semideuses estava fora em missão ou nas centrais de seus grupos secundários. Se aquilo havia sido intencional, Nyx escolhera um excelente momento para atacar.

— Jasão! — gritou quando finalmente alcançou os inimigos. A jangada ficou para trás no minuto em que começou a voar. Seu brinco mágico novamente deu vida à lança de ouro imperial, declarando estar pronto para a batalha.

— Você! — o herói encarou o recém-chegado e virou a cabeça para o lado em noventa graus, como se estivesse possuído por algo. Sua voz não era a mesma, soava mais demoníaca e profunda. — Como você...

— Longa história, meu camarada — sem perder tempo, Ab canalizou um raio na lança e a utilizou como intermédio para lançar o ataque elemental em seu adversário.

O ataque não atingiu o homem pois a raia voou para o lado, o que fez o projétil de energia atingir um dos barcos menores. Abramov deu um rasante em direção ao seu alvo, determinado a levar o combate para a curta distância. Sabia que não importando que aura demoníaca fosse aquela, Jasão ainda era um mortal no fim das contas - então a vantagem era do semideus. Ou pelo menos foi isso que este último pensou, tendo seu pré-julgamento estraçalhado ao não conseguir acertar o indivíduo mesmo sem ele ter para onde ir.

Irritado por não conseguir conectar nenhuma estocada, o filho de Zeus tentou derrubar o outro com os ventos, mas nem mesmo isso bastou para jogar o herói de cima da raia. Jasão, por sua vez, literalmente surfava em cima do monstro tentando atingir o meio-sangue no ar com sua espada. O trabalho de tentar não ser atingido enquanto voava não era dos mais fáceis, principalmente que vez ou outra os dois perdiam altitude e se aproximavam da batalha na praia.

Falando nesta, os piratas desembarcavam na areia mas eram logo afastados pelos semideuses. Os monstros, por outro lado, eram mais poderosos e não tão facilmente derrotados. Telquines conseguiam chegar até a terra firme para quebrar as linhas semidivinas, enquanto que os tritões lançavam poderes de água ao longe ou pegavam aqueles que ousavam se aproximar do mar. A batalha mais parecia uma disputa de lados: toda vez que os semideuses recuavam por qualquer motivo que fosse, os soldados de Nyx avançavam; o contrário também se aplicava. A única diferença eram os arpões que os piratas tinham, os quais eram atirados dos barcos e acertavam os campistas no continente.

Abramov tentou interceptar alguns dos arpões, mas não conseguia se concentrar nisso e na tarefa de derrotar o líder inimigo encharcado de trevas.

— Jasão, você precisa acordar! — suas palavras eram inúteis, assim como as tentativas de acertar com a lança, mas ele não desistia.

O fato de haver muita água ao redor e aliados em contato com a mesma fez com que o argonauta temesse recorrer aos raios. A batalha já estava tensa demais para ele eletrocutar algum amigo sem querer. Porém, ao passo em que o filho de Zeus não podia usar todo seu potencial, Jasão não ligava para nada e apenas avançava com tudo. A raia gigante esbarrava nos barcos quando desciam muito, mostrando uma grande resistência física. "Eu preciso matar essa coisa", raciocinou. Uma ideia brilhou em sua cabeça e então ele avançou novamente para perto do homem.

Em uma finta aérea, Levitz fingiu uma estocada apenas para levantar a guarda do outro. Nisso, ativou seus campos magnéticos ao redor de ambos para jogar a espada longe. A ideia era usar o impulso do voo para intensificar a força das ondas e isso acabou dando certo - por pouco. Jasão mostrou sua força sobrenatural ao resistir com a arma em mãos por mais tempo que o esperado. No fim, o item acabou caindo no mar ou então ele teria caído da montaria.

— Vai se arrepender disso, semideus — o revivido sibilou com a voz enraivecida e estranha.

Uma aura preta começou a ser expelida pela boca da raia. Algum tipo de névoa mágica e estranha circulou o monstro e o herói, até que quando ela sumiu, Jasão apareceu transmutado em algum tipo de híbrido estranho. Ainda era ele, só que asas demoníacas saíam de suas costas e suas mãos tinham sido substituídas por garras afiadas como de pássaro. Todo o seu corpo era preenchido por marcas tribais, como se este estivesse sob o efeito de alguma maldição.

— O sangue de um herói novo pelo do velho me parece uma boa barganha, filho de Zeus — Nyx falou através de seu hospedeiro.

Ab apenas engoliu em seco e se preparou para o pior. Jasão disparou com tudo para cima do semideus e este teve tempo apenas de colocar os braços na frente para se defender do chute. Ainda assim, o impacto da pancada foi suficiente para arremessar o seguidor de Hera com tudo no bosque perto da praia. Os semideuses observaram atônitos o desenrolar da cena, mas ninguém teve tempo ou reação para tentar fazer algo a respeito. A queda foi dolorosa, mas não tanto quanto o braço esquerdo quebrado. Abramov sentiu a costela doer, mas felizmente teve forças para se levantar a tempo de evitar outra pancada.

— O que você quer? Sabe que logo logo nós teremos vencido. Esse ataque é uma perda de tempo — resmungou, tentando se afastar enquanto dava passos para trás em busca de uma árvore para se apoiar.

— Isso se chama minar forças, insolente. Atingi Hera em seu ego ao usar seu herói predileto e agora vou matar seu herói mais recente.

As palavras de Hera sobre salvar Jasão retornaram à cabeça de Abramov. Ele sabia o que ela queria dizer com aquilo, mas foi somente naquele momento que sua ficha de fato caiu. — Sinto muito em te dizer isso, mas não vai rolar — comentou ao mesmo tempo em que arremessou Inquisidora como um dardo.

A arma voou contra o homem e este desviou com facilidade. No entanto, a intenção era apenas de comprar tempo. Ab ativou sua benção estelar de Apus nesse intervalo de tempo e então despareceu da vista do demônio. Aquele poder em específico representava seu ápice de força enquanto argonauta, então nada mais simbólico do que recorrer a ele durante a batalha final.

— Acorda pra cuspir, desgraçado — surgiu nas costas do herói graças a tatuagem de teletransporte e desferiu um soco com toda a sua força.

O golpe jogou o ser híbrido de trevas em uma árvore e a quebrou com tamanha força. Sem dar chances para que seu oponente reagisse, o semi-mortal disparou, novamente armado após pegar a lança no chão, contra Jasão. Sua intenção era perfurar uma das asas com a lança, mas seu oponente ergueu uma das garras em resposta e segurou a arma.

— Vou sugar sua energia e alma pra fora do seu corpo, semideus estúpido — ameaçou tentando puxar a lança em uma disputa de força.

— Tenta. Garanto que não vai ser nada fácil — puxou de volta e acabou vencendo a disputa.

Com ambos de pé, a luta continuou. Toda maestria empunhando uma arma de corpo longo foi posta em cheque conforme o bastardo olimpiano desferia seus golpes. O peão da noite tinha as garras como lâminas para contrapor a ausência de uma arma e isso parecia mais que suficiente. Os sons dos metais se chocando ecoavam na noite que já havia caído. Era uma batalha simbólica, pois ao mesmo tempo em que Nyx era a própria noite, o céu estrelado abençoado por Hera tomava conta de seus escolhidos. Ab já estava em suas últimas forças quando foi atingido no braço lesionado. A dor de ser ferido onde mais doía fez com que ele tombasse para trás.

— Farei questão de mandar sua cabeça para o Olimpo. Que presente mais agradável para seu pai — a coisa bateu as garras umas contras as outras enquanto se aproximava do jovem caído.

Ab sentiu a energia de Apus se esvair. Em outra situação teria aceitado a morte por não ter recursos aos quais recorrer, todavia diante da luz estelar que o banhava, a salvação veio através da bestialidade. Um poder que jurou usar apenas em último caso, para proteger aqueles que ama e não por qualquer motivo fútil. De olhos fechados, ele se concentrou nos genes especiais que carregava dentro de si próprio. Sua intenção? Trazê-los à tona.

— Eu vou arrancar suas pálpebras e fazer você encarar a morte — riu de maneira diabólica. — Quando encontrarem seu corpo, verão a expressão de terror em seu rosto mas nunca entenderão. Nunca entenderão que você morreu de medo. Nunca saberão o que você viu ou sentiu em sua última hora. Vão abrir seu corpo, investigar o que tiverem de investigar, descobrirem o que tiverem de descobrir. Decretar a causa da morte como algum órgão ferido ou algo do tipo. Mas lá no fundo, eu e você saberemos que seu último suspiro foi de pânico — usou a garra direita para tentar furar o braço já ferido do semideus, mas ele ergueu a outra mão e segurou o ataque.

— Errado. Eu já encarei a morte antes — cuspiu um pouco de sangue. — E você não chega aos pés dela.

A pele de Abramov assumiu uma textura quadricular, com escamas preenchendo todo o corpo. Seus dentes ficaram afiados e as unhas se transformaram em garras. Por fim, um rabo de dois metros surgiu em suas costas. Estava feito. A Apoteose estava completa e não havia volta. Enfurecido, o semideus dracônico aproveitou que segurava a mão do outro monstro para puxá-lo para perto. Com isso, emendou uma joelhada no estômago do herói corrompido e abocanhou a asa esquerda.

— Você não é puro, aberração! — grunhiu em protesto ao tentar se soltar da armadilha de duas pernas e rabo.

— Nunca disse que não era — sua garganta ficou vermelha e logo em seguida a bola de fogo veio.

As chamas rapidamente se espalharam pelo corpo da ser de trevas. Junto a elas, uma gota do sangue híbrido de Abramov acabou caindo. O fogo se espalhou por Jasão conforme ele se afastou do meio-sangue. Gritos perturbadores foram emitidos por sua traqueia, mas não eram do herói e sim da entidade demoníaca que o tinha possuído.

— Derrotado por um... monstro — conseguiu dizer ao cair no chão de terra da floresta. — Sua matrona sabe disso, sabe que você é tão monstro quanto meus servos?

— Todo mundo tem um lado monstruoso dentro de si. O que fazer com ele é que dita quem nós somos — se sentou novamente, exausto por conta da missão.

O farfalhar do fogo brilhou nos olhos do campista conforme ele assistiu toda a energia das trevas ser expurgada do corpo do outrora herói mitológico. Sabia que a tarefa ordenada por Hera não tinha acabado pois ainda podia ouvir os gritos da batalha na praia. Portanto, tratou de se recompor para ajudar seus amigos. Não obstante, ao se levantar, Jasão enfim se pronunciou.

— Então esse é o céu dos tempos atuais — deitado como estava, ele podia observar o céu estrelado da noite com facilidade. — Não é tão limpo como o antigo, mas continua tão belo quanto.

— Muitas coisas mudaram desde sua morte — suspirou profundamente.

— Imagino que sim. Fui tolo em ter acreditado nas palavras dela, mas me alivia saber que os argonautas estão em boas mãos — o fogo mágico já tinha se apagado àquela altura e mesmo assim seu corpo parecia intacto, da mesma forma como um dia o primeiro argonauta da história fora. — Sabe, antigamente éramos capazes de visualizar todas as constelações de qualquer ponto. Era como nos guiávamos no mar durante as viagens — fez uma pausa dramática. — Você tem meu respeito e admiração, Abramov. Só não seja tolo como fui e tudo ficará bem. Assim, um dia quando nos encontrarmos novamente, poderemos compartilhar nossas histórias a bordo do Argo.

— Tenho certeza que sim, líder — sorriu em um misto de lisonja e alívio. Ab fez uma reverência ao herói caído e antes de se virar para partir, teve um vislumbre da figura de Thanatos de pé em frente de Jasão. O deus meneou a cabeça em um adeus e então os dois desapareceram na floresta.

O herói corrompido havia sido salvo, restava apenas concluir a missão.

Passos cambaleados guiaram o argonauta pela floresta de volta à praia. Quanto mais próximo ele chegava, maior era o barulho da batalha. A luz das estrelas o ajudava a se recuperar, mas foi ver Grizfolk de perto e com vida que o revitalizou por completo. Em uma corrida quase tropega, ele se aproximou do dragão e tocou suas escamas. O toque lhe permitiu sentir o coração do dragão que, ainda que desacordado, iria sobreviver. "Ok, buddy, isso é por você", pensou antes de ascender aos céus novamente. Pelo tamanho da mascote, ninguém tinha notado o filho de Zeus até que ele se fez notar.

— Gregos, se afastem da água! — não havia motivo para discursos ou enrolação, sabia o que tinha de ser feito e não perderia tempo com inutilidades.

Todos ali presentes se viraram para observar o semideus voador disparar em direção ao mar. Mesmo com a clara vantagem do acampamento e sem seu líder, os monstros não pararam o ataque. Ab usou as forças dos ventos para ajudar os campistas que tentavam se afastar da água. Mesmo que seu plano desse certo, ainda precisaria de mais homens para o que tinha em mente. Por isso, gritou aos argonautas de Jasão, que antes eram inimigos, as palavras de seu novamente falecido chefe. Não proferiu ordens ou ameaças, pelo contrário. Seu ato mais pareceu uma súplica sincera, traduzindo como de fato se sentia.

Relatos posteriores ao episódio contaram que uma aura brilhante e incrível circulou Abramov Levitz durante aquele ato. Ninguém saberia descrever com precisão o que foi aquilo, mas todos sentiram seu poder. Poder este que espelhou em seus aliados e conquistou até mesmo os argonautas que antes seguiam Jasão, fazendo-os se virarem contra as criaturas. Juntos, argonautas e campistas terminaram de empurrar as tropas inimigas até o oceano. Quando a façanha foi feita, os outros membros do chalé 1 se juntaram ao seu ex líder de chalé para disparar várias descargas elétricas.

O choque conjunto neutralizou os tritões e telquines, além de ter rendido os piratas que desapareceram em névoa preta - revelando-se construtos de trevas também. Os gritos de alegria com a vitória na batalha da Praia dos Fogos ecoaram durante todo o restante da noite. Grande parte em animação por terem superado uma ameaça inesperada, uma vez que a maioria nunca tinha estado em uma batalha de verdade, mas ao mesmo tempo em alívio.


Durante aquela madrugada, cremações e lamentos foram feitos em nome dous poucos que pereceram em batalha. Um discurso foi feito por Quíron e todos ouviram em silêncio e respeito. Nomes foram citados como destaques durante a defesa, dentre eles o de Eleonor, Pietro e, obviamente, Abramov. Contudo, estes dois últimos não estavam presentes na hora para as honras. Isto porque estavam juntos dos argonautas no chalé 2.

— Tivemos grandes perdas nesses últimos dois dias — Hera começou dizendo. Ela não estava de fato ali, mas sua presença podia ser sentida por todos dentro da construção. — Mas me alegra saber que no fim nossas forças prevaleceram — continuou o discurso. — Nyx tentou me atingir em um ponto fraco e quase conseguiu. Vocês, meus queridos escolhidos, provaram mais uma vez que eu nunca erro. Me sinto gratificada em vos ter ao meu lado — sua voz soou calma como em muito não era ouvida. — No entanto, meu agradecimento especial vai ao nomeado oficial líder dos argonautas: Abramov, meu mais novo herói.

Ab se levantou em resposta à nomeação, mais como obrigação do que vontade própria. O sangue de seu pai era forte e predominante em suas veias e com ele o orgulho em carregar o título. Entretanto, seu lado mortal ainda o deixava meio embasbacado com esse tipo de coisa. Se havia algo que o fazia aceitar aquilo de bom grado, era saber que aquele era apenas mais um capítulo de sua vida e, como Thanatos um dia lhe dissera, ela estava apenas começando...

(...)

O restante da noite fora longo e tenso. A animação da vitória acabou sumindo e dando lugar ao medo do desconhecido. O Acampamento Meio-Sangue tinha sofrido um ataque breve, mas significativo. Carcaças de barcos estavam jogadas pela Praia dos Fogos. Argo, o navio, ainda estava parcialmente afundado próximo a esta. Igor aguardava seu julgamento na Ilha de Argos e Abramov, bem, despareceu pelo restante do dia seguinte.

Não importava onde fosse lhe procurar, jamais o encontrariam. Em sua cama, apenas a maleta mágica continuava jogada em desdém...
Kyra

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MensagemAssunto: Re: Missão liderança   Qui Jul 26, 2018 5:42 am

Código:
<center><div style="width:350px;height:200px;background-image:url(https://imgur.com/3NW7AEo.gif);"><br><br><br><div style="margin-left:73px;width:189px;height:45px;background-color:#fff;opacity:0.2;margin-top:50px;padding:15px;"></div><table><td><div style="padding:10px;width:150px;font-family:times;text-transform:uppercase;font-size:40px;line-height:11px;color:white;text-align:justify;margin-top:-58px;letter-spacing:2px;margin-left:70px;">a</div></td><td><div style="padding:5px;width:150px;font-family:times;text-transform:lowercase;font-size:11px;line-height:11px;color:white;text-align:justify;margin-top:-77px;letter-spacing:2px;margin-left:-125px;">Man, I know that it is hard to digest, I know it seems wrong to accept but you've got your demons, and he's got his regrets...</div></td></table></div></center>

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MensagemAssunto: Re: Missão liderança   Sex Jul 27, 2018 12:21 am

Abramov Levitz escreveu:

Habilidades Adquiridas

Nome: Panic
Descrição: O semideus que porta de tal habilidade é neutralizado de qualquer ataque referente ao pânico quando está em batalha. Sua mente torna-se impenetrável, impossibilitando a manipulação de tal emoção quando está em campo de guerra, seja lá para qual for a situação, tornando-o mais preciso, utilizando o pânico como arma para efetivar ataques ao transformá-lo em incentivo para lutar, aumentando o dano causado pelo golpe escolhido tanto por habilidade, como por elemento de combate físico corpo-a-corpo. (2x por turno)
Gasto de Mp: 15mp.
Gasto de Hp: 10hp.
Bônus: +20% de assertividade na tentativa de bloqueio.
Dano: +20% de dano com o uso da habilidade.
Extra: Nenhum.

Nome: Perícia Corporal I
Descrição: Treinar o corpo e a mente para tornar-se um melhor guerreiro é quase que uma obrigação de cada meio-sangue, caso ele deseje sobreviver nesse mundo louco. Assim sendo, depois de uma aula de perícias, o corpo do semideus foi condicionado e treinado para melhorar a agilidade, a esquiva e o reflexo.
Gasto de Mp: Nenhum
Gasto de Hp: Nenhum
Bônus: +30% em agilidade, esquiva e reflexo.
Dano: Nenhum

Nome: Rastreadores
Descrição: Habilidade que permite ao semideus encontrar e localizar monstros ou criaturas – como animais e até semideuses – através de rastros, pistas, odores, pegadas ou qualquer coisa que pode ser deixada para trás. Isso também permite encontras rastros que foram apagados, afinal, existem criaturas que conseguem mesclar seus rastros e até mesmo apaga-los ou disfarça-los. Semideuses com essa habilidade dificilmente serão enganados por pistas falsas, tendo mais chance de seguir um caminho certeiro, pois, sabem identificar o que foi forjado e criado do que realmente foi deixado para trás.
Gasto de Mp: Nenhum
Gasto de Hp: Nenhum.
Bônus: +40% de chance de descobrir alguma coisa deixada para trás. + 30% de percepção. +50% de chance de não ser enganado por armadilhas ou rastros falsos deixados por terceiros para desvia-lo do caminho certo. Pode solicitar ao narrador que indiquem pistas do caminho certo a ser seguido.
Dano: Nenhum.

Nome: Afinidade
Descrição: Cuidados podem criar ligação entre semideuses e mascotes, mas para isso, é necessário técnica. Conforme o semideus vai aprendendo a lidar com seu bichinho, também ganha certa afinidade com ele, aprende a ler seus movimentos, seus gestos, a forma com que ele expressa, acaba refletindo em seu dono, que mesmo imperceptivelmente pode descobrir se algo está certo ou errado. É como a lei de Newton: para toda reação, existe uma reação. Neste caso, os cuidados criam ligações, o mascote, acaba se afeiçoando mais rapidamente ao seu dono, pois, sabe que nele, poderá ver uma segurança única.
Gasto de MP: Nenhum
Gasto de HP: Nenhum
Bônus: +50% de percepção em reações relacionadas ao mascote, saberá distinguir quando este está com raiva, com fome, confuso, arisco, entre outras coisas. Tais demonstrações também podem alertá-lo do perigo, afinal, quando o animal se sente ameaçado tende a demonstrar mais facilmente, além de perceber antes mesmo dos humanos, eles sentem quando algo está errado.
Dano: Nenhum
Extra: Nenhum

Nome: Perícia Corporal II
Descrição: Treinar o corpo e a mente para tornar-se um melhor guerreiro é quase que uma obrigação de cada meio-sangue, caso ele deseje sobreviver nesse mundo louco. Assim sendo, depois de uma aula de perícias, o corpo do semideus foi condicionado e treinado para melhorar a resistência corporal. Irá se cansar mais dificilmente, estando preparado para realizar exercícios físicos mais complexos. Assim, possui um melhor desempenho em combate, podendo permanecer lutando mais tempo que outros.
Gasto de Mp: Nenhum
Gasto de Hp: Nenhum
Bônus: +30% em resistência física.
Dano: Nenhum

Nome: Pericia Militar em Lanças
Descrição: Essa pericia consiste em aprendizado rápido do semideus com um armamento especifico, ao derrotar o fantasma militar no acampamento, esse acabou desenvolvendo estratégias em batalha com esse tipo de armamento, de forma que, tornou-se perito ao usar essa arma. Agora, tem certa noção em combate, pode atacar e se defender mais precisamente, além de conseguir manusear a arma de forma mais elaborada.
Gasto de MP: Nenhum
Gasto de HP: Nenhum
Bônus: +30% de assertividade no manuseio de lanças.
Dano: +15% de dano se a arma do semideus atingir seu oponente.

Nome do poder: Resiliência Semidivina
Descrição: Resiliência, dentre seus variados sentidos, pode significar a capacidade de se adaptar a diversas situações. Aqui, ela representa a habilidade dos filhos dos deuses de se adaptarem aos seus inimigos em combate, funcionando especificamente contra monstros. Enquanto em batalha, a cada turno que se passar, o semideus terá mais e mais vantagens contra seu oponente. Os bônus se explicam através do estudo da movimentação inimiga, além da observação de seus pontos fracos e identificação de áreas menos resistentes ou sensíveis em seus corpos.
Gasto de MP: Nenhum.
Gasto de HP: Nenhum.
Bônus: 20% de chance de acerto e esquiva quando enfrentando uma única criatura.
Dano: +20% de qualquer dano causado, se acertar em um dos pontos fracos identificados do monstro.
Extra: A cada turno, o bônus aumenta em 5%, podendo chegar no máximo a 40%.

Nome da habilidade:  Oponente
Descrição:  Ao lutar com uma espécie completamente diferente do que é comum encontrar, o semideus consegue identificar os padrões de movimentação do monstro com mais facilidade, o raciocínio lógico dele tornou-se um pouco mais rápido e prático.
Gasto de HP:  Nenhum.
Gasto de MP:  Nenhum.
Bônus:  20% de raciocínio e estratégia ao lutar com monstros.
Extra:  Funciona apenas com espécies que não estão na sessão de bestiário na biblioteca sagrada.

Nome da habilidade: Dosador habilidoso
Descrição: Vivendo e aprendendo, após o desafio de “uma gota, ou duas?” e “frasco azul ou vermelho?” o semideus agora consegue distinguir sozinho para o que serve cada antídoto ou remédio que não contenha rótulos, além de também conseguir definir por si só a quantidade que seria necessário para se curar sem ter efeito reverso.
Gasto de HP: Nenhum.
Gasto de MP: Nenhum.
Bônus: 20% de chances de não ser enganado por frascos sem rótulos sabendo a quantidade necessária para não causar efeitos reversos, impedindo também a confusão deste com venenos.
Extra: Dá a oportunidade de pedir ao narrador as propriedades de cada frasco oferecido durante missões ou eventos, devendo ser enviado por MP para que somente o semideus que possui esta habilidade, saiba do que se trata.

Bençãos

Nome do Poder:  Eletromagnetismo I
Descrição:  Uma habilidade adquirida sem querer por um raio de Zeus. Através dela, Abramov consegue gerar campos magnéticos ao seu redor dada a afinidade entre eletricidade e magnetismo pela teoria unificada do eletromagnetismo. Diferente do magnetismo, ele não exatamente exerce um controle direto sobre metais, mas pode afetar negativamente todos ao seu redor que estiverem portando metais. Pessoas que estiverem segurando objetos desse material, ou em suas vestes, em qualquer forma e quantidade encontram extrema dificuldade ao lutar contra este filho de Zeus. É como se o metal tentasse escapulir de seu controle, indomável e selvagem, o que prejudica seus movimentos. Opostamente, objetos metálicos em suas mãos são melhor manobráveis de forma positiva contra seus inimigos, já que ele tem controle sobre a energia. Nesse nível o garoto ainda não tem muito controle dessa habilidade e portando, não causa um dano muito grande.
Gasto de Mp:  20 MP para ativar o campo Magnético e +10 MP por turno que ele permanecer ativo.
Gasto de Hp:  Nenhum
Bônus:  Inimigos em posse de arma perdem 30% de assertividade em seu manuseio.
Dano:  +25% de dano ao ser acertado pela arma do semideus quando os campos estiverem ao redor.
Extra:  Necessário nível 79 para domínio dessa habilidade.

Nome do Poder:  Eletromagnetismo II
Descrição:  Agora o semideus consegue criar pulsos magnéticos. Ativamente, Abramov pode utilizar a habilidade para criar um campo eletromagnético ao seu redor a fim de repelir objetos, obstáculos e pessoas carregando metal. O efeito repulsivo é tão grande que pode jogar, dependendo da quantidade de metal, os afetados à metros de distância, causando dano por impacto.
Gasto de Mp:  40 MP + 10 MP por turno que o campo permanecer ativo.
Gasto de Hp:  Nenhum
Bônus:  Nenhum
Dano:  A critério do narrador.
Extra:  Necessário nível 82 para domínio dessa habilidade.

Nome do Poder:  Eletromagnetismo III
Descrição: O semideus dominou a habilidade por completo e agora seus campos magnéticos ganham mais força, além disso, o dano causado por ela também acaba sendo muito maior. Agora, ao afetar os metais a sua volta, seus inimigos acabam perdendo uma grande parte do controle de suas armas, além disso, o poder pulso magnético, ganha +10% de impacto, aumentando seu dano.
Gasto de Mp:  60 MP para ativar o poder + 15 MP por turno que o campo permanecer ativo.
Gasto de Hp:  Nenhum
Bônus:  Inimigos em posse de arma perdem 50% de assertividade em seu manuseio.
Dano:  +60 HP de dano ao ser acertado pela arma do semideus quando os campos estiverem ao redor.
Extra:  Necessário nível 90 para domínio dessa habilidade.

Nome da benção:  Cópia
Descrição: Uma vez por missão, evento, pvp, mvp o semideus pode dividir-se em dois, criando um clone exatamente igual e tendo o mesmo hp/mp e poderes. Porém o clone irá durar apenas dois turnos antes de desaparecer.
Gasto de MP:  -40% da MP total.
Gasto de HP:  Nenhum.
Bônus:  Nenhum.
Dano:  De acordo com o narrador.

Nome do poder: Fisiologia Dracônica I: Grandiosidade Inerente
Descrição: Ao ter derrotado o dragão encantado por Trevas, um resquício da magia negra e maléfica ficou em Abramov, o que lhe ajudou no fim da batalha contra o Cabeça de Leão. Ela acabou alterando seus genes mágicos e deixando efeitos colaterais após a luta: sua força é passivamente maior que a da maioria como parte do poder do dragão vermelho. Além disso, seu espírito se torna incorruptível pela purificação na água sagrada do templo de dragões, a qual purificou, inclusive, a parte maligna da energia absorvida.
Gasto de Mp: Nenhum.
Gasto de Hp: Nenhum.
Bônus: 30% em força e não pode ser afetado por nada que vise corromper seu espírito/alma (como ilusões maléficas, possessões e etc);
Dano: Nenhum.
Extra: Necessário nível 95 para domínio dessa habilidade.

Nome do poder: Fisiologia Dracônica II: Apoteose
Descrição: Com essa habilidade Abramov pode ativar os genes dracônicos adormecidos dentro de si e alterar parcialmente sua aparência. Escamas nascem sobre sua pele, lhe conferindo resistência física extra, além de um rabo de dois metros que é completamente funcional. Seus dentes se tornam mais afiados e garras também aparecem. Por fim, ele pode lançar chamas pela boca como uma ação extra rápida por turno com custo. É uma forma bestial hedionda para aqueles que o observam.
Gasto de Mp: 175 MP; 50 MP cada vez que usar o fogo;
Gasto de Hp: Nenhum.
Bônus: 30% resistência física;
Dano: As chamas lançadas por sua boca dão 60 de dano; Seus ataques físicos desarmados, com o rabo, dentes ou garras/punhos, dão 40 de dano base.
Extras: Essa habilidade fica ativa por 4 turnos e só pode ser usada 1 vez por tópico/missão. Necessário nível 105 para domínio dessa habilidade.

Nome do poder: Bênção Estelar de Apus
Descrição: Abramov acabou absorvendo parte dos poderes da constelação da ave-do-paraíso, Apus, ao lutar ao lado e sob influência dela no espaço. A benção funciona como um resquício da energia da ave espacial, que pode ser utilizado pelo argonauta como uma habilidade ativa. Neste caso, assim como na missão, um manto de energia verde escuro fluorescente passa a envolver o semideus, protegendo-o de ataques mágicos e físicos, e dando-lhe mais força para lutar. Além disso, enquanto envolto por essa energia, todas as passivas dos argonautas podem ser utilizadas, como se os requisitos para elas estivessem sendo cumpridos (como determinado momento do ano, horário do dia, etc). É o ápice de poder de um seguidor de Hera, após provar seu valor perante a deusa.
Gasto de Mp: 200 MP
Gasto de Hp: 30 HP
Bônus: +30% em força e protege dos ataques descritos acima. Libera o acesso a todas as passivas, quebrando os pré-requisitos que possuam temporariamente.
Dano: Nenhum
Extra: Dura 3 turnos e só pode ser usado duas vezes por narrativa.

Maldições

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MensagemAssunto: Re: Missão liderança   Dom Jul 29, 2018 4:40 am

overprotected
to: Theo Reese Champoudry
O sabor do álcool pareceu antecipar o paladar do semideus que o sentiu ainda no canudo. Estava acostumado àquela bebida, no entanto, ainda se arrepiava com o quão pura ela era - e por pura implica-se gosto de álcool. Dry Martini é, sem dúvidas alguma, um drink clássico e por isso tem seu valor, no entanto, dentre todos os Martini, é o pior. Na opinião de Abramov, a bebida nunca seria capaz de chegar aos pés de um Negroni feito com Martini Rosso.

— Não diga — respondeu ao comentário irônico do rapaz com outra ironia. Obviamente guardou todas as observações sobre o que bebia para si, ainda que estivesse interessado no desconhecido tanto quanto no drink - ou talvez um pouquinho mais que esta última. — Eu adoraria — deu um segundo gole na taça e se ajeitou na cadeira.

Frente a frente ao meio-sangue, o líder dos argonautas pôde enfim apreciar sua figura com mais precisão. Em uma observação rápida, vasculhou todo o corpo quase desnudo do indivíduo e gostou do que viu. Ele parecia ser mais novo, todavia não tanto assim. Até porque, Ab mesmo não era tão velho quanto aparentava. De qualquer forma, por mais belo que o outro fosse, ainda havia algo nele que despertava o interesse no herói. Uma aura estranha e familiar ao mesmo tempo. Como um velho conhecido distante...

— Uau, você é bom — sorriu mesmo não tendo recebido um sorriso antes. — O que me denunciou? — colocou a bebida no balcão e abriu os braços para olhar a própria fantasia.

— Agente secreto 007 — estendeu a mão direita em um cumprimento. — Ou, pra você, Abramov Levitz.
vitu


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MensagemAssunto: Re: Missão liderança   Qua Ago 15, 2018 5:36 am



capítulo II
Aqueles que vivem sob a luz...
Os ventos gelados batiam contra o rosto de Abramov conforme ele rasgava os céus montado em Grizfolk, seu dragão. Não havia nada passando pela cabeça no semideus naquele momento. Na verdade, de tão sonolento que estava, seus olhos apenas observavam as ondas do Oceano Atlântico metros abaixo deles. O jovem adulto se esforçava ao máximo para não cair no sono, mas era apenas questão de minutos até que isso se tornasse inevitável. Ainda assim, antes de suas pálpebras pesarem demais, murmurou para seu companheiro:

— O que ela quis dizer com aquilo? — sua voz soou manhosa, algo raro até mesmo para os mais íntimos. Referia-se à profecia proferida por Rachel horas atrás quando ele estava partindo do Acampamento Meio-Sangue.

— Não sei, não posso prever o futuro — o dragão respondeu de maneira ríspida como sempre fazia. A resposta, claro, fez com que Ab risse por adorar o comportamento abrupto da mascote e isso encerrou sua noite por ali mesmo.

Quando o meio-sangue acordou, ainda estavam sobrevoando o oceano a caminho da Europa, no entanto já era manhã e um sol forte os esquentava ali em cima. Levitz esfregou os olhos ardidos pela luminosidade e bocejou de maneira longa. Apesar de Griz ser sua companhia favorita, era inegável que dormir em suas costas doía - e como doía. O pescoço do rapaz por pouco não estava em um estado de torcicolo; a coluna parecia estalar ao menor movimento e seu braço direito estava dormente. Além disso, ainda tinha o hálito ruim que o incomodava seriamente.

— Onde estamos? — questionou ao coçar a cabeça.

— Acredito que estamos nos aproximando da França, a julgar pelo meu senso de direção — sorte de ambos a criatura mágica ser sábia e inteligente, ou então estariam encrencados naquilo.

— Voamos a noite inteira, precisamos parar — comentou o óbvio. Mesmo o tempo da viagem tendo sido menor graças à velocidade de locomoção da criatura mágica, o cansaço não diminuíra em mesma proporção - ao contrário, aumentara.

Cerca de mais uma hora se passou até que enfim avistaram o continente. Grizfolk retornou para a maleta mágica ainda no céu de onde Abramov continuou sozinho. Não queriam correr risco de chamar a atenção, principalmente por terem feito uma viagem rápida e segura sobre o oceano e não quererem encrenca justo na parte fácil. Era de conhecimento geral que semideuses fora do território dos deuses corriam ainda mais perigo e, os sete escolhidos da última grande profecia mais do que ninguém serviam de exemplo para aquilo. Ou seja, a dupla alada já tivera sorte em passar pelo mar em paz, não podiam abusar ainda mais.

Foi com isso em mente que o rapaz pousou na praia cedo demais para que alguém o notasse. A areia era escassa e o próprio espaço dos banhistas limitado. Havia mais concreto do que qualquer outra coisa ali e não precisou de muito para que ele percebesse que se tratava de um porto. Um não, vários. Seus olhos fitaram a imensidão do lugar e, ao mesmo tempo, a beleza. Aquela era sua primeira vez em território europeu e de quebra logo na tão inspiradora França. Restava saber onde exatamente estava.

Não bastou muito para que sua caminhada apressada o levasse até a cidade. Todavia, o filho de Zeus acabou se encontrando em uma situação que há tempos não lhe era comum: perdido. Tentou se comunicar com um casal de senhores que andava pelo asfalto próximo a praia, mas nenhum dos dois parecia entender o que ele falava e ele, por sua vez, não sabia falar francês. Morto de fome, continuou andando pela cidade em busca de algum hotel ou hostel. Do que sabia de viagens, aqueles eram os melhores lugares para estrangeiros procurarem por informações. Contudo, para sua surpresa, em uma padaria bastante bonita e claramente francesa - pela varandinha e detalhes antigos -, um homem acenou para ele.

Abramov piscou os olhos com força sem acreditar no que via. A mesma barba para fazer em comunhão com os fios finos e castanhos do cabelo meio longo. A jaqueta militar surrada ainda cobria seu tronco e os jeans surrados e vans preto completavam o visual. Baco estava bebendo café preto acompanhado de um pão tão quente que fumaça saía dele.

— Você — disse atônito.

— Batmov, como é bom te ver — a divindade romana cumprimentou o bisneto quando este se sentou à mesa. — Como foi de viagem? Não que eu me importe — deu outro gole no café.

— Bem, eu acho — sentiu o pescoço doer da posição e fez uma careta. A verdade é que estava mais interessado no café da manhã do que qualquer outra coisa. — Como eu peço um chocolate quente em francês?

— Sei lá, eu tenho cara de quem fala francês? — continuou tomando o café.

Com muita dificuldade, Ab chamou o garçom e conseguiu com que ele entendesse o que queria. — Você não é de muita ajuda, sabia?

— Meu pai costuma dizer isso pra mim quase todo dia — respondeu levando um dos pães à boca. — O que me lembra que somos irmãos, de uma linhagem diferente, mas muito irmãos.

O semideus revirou os olhos. Estava de mau humor por conta da fome e cansaço. — Estou aqui a trabalho. Você disse que era urgente e que era a única forma de eu rever minha avó... — engoliu em seco — pelo menos mais uma vez.

— Sim, sim, a missão — o deus se arrumou na cadeira e coçou a barba rala. — Seu destino, como bem sabe, é a Eslovênia. Mas preciso que pare em um lugar antes para resolver uma pendência.

— O acordo foi terminar a tarefa da minha bisavó, não inventa de coisa extra — rebateu notavelmente irritado.

— É algo útil para você mesmo, cabeça de pilha — Há um velho conhecido meu em Paris que preciso que entregue algo para mim — empurrou um envelope sobre a mesa.

O estadunidense pegou o item e o guardou na mochila que carregava consigo. — E como eu encontro ele lá sendo que não conheço nada nem ninguém? — indagou.

— Ele vai te achar, relaxa — disse ao terminar de comer o pão. — Te encontro lá depois para passar o restante das instruções — comentou quando o pedido do semideus chegou. — E eu não vou pagar por isso.

(...)

Foi difícil para o jovem adulto apelar para sua lábia enquanto legado de Baco para enrolar o garçom já que não tinha dinheiro. Só que foi ainda mais difícil para ele achar a estação de trem que o levaria até Paris - e ainda teve de dar um jeito para pagar a passagem novamente. Grizfolk estava inquieto dentro da maleta mágica que se encontrava ainda dentro da mochila. Abramov mais parecia um mochileiro sem grana do que um filho do rei do Olimpo e potencial causa de tragédias e mortes envolvendo ataques de monstros. Ainda assim, ele conseguiu um lugar no trem e dormiu o restante da viagem. Ou pelo menos o máximo que pôde.

Não havia nada de interessante para o campista observar durante o trajeto, mas em determinado momento sua presença em território europeu foi demais para sair impune. Por conta disto, subitamente algo literalmente pousou no topo do trem o que levou todos ali dentro a se agitarem. O herói, de tão exausto e naturalmente tendo um sono pesado, só percebeu o que estava acontecendo quando a criatura já tinha adentrado o veículo e jogado vários passageiros janela afora.

Em um pulo mais engraçado do que sério, Ab se levantou e observou seu oponente. Ele sabia que as coisas seriam mais difíceis por ali, porém não imaginou que teria de lidar com uma harpia halterofilista. Sim, a harpia parecia pesar o dobro do normal e tinha músculos tão sobressaltantes que parecia impossível ela voar.

— Quanto tempo não sinto um cheiro como o seu — a criatura sibilou de outra extremidade do corredor. Os mortais que ainda estavam por ali se agacharam nos vãos entre os assentos para se protegerem. Por sorte aquele era um trem ao estilo europeu: cheio de espaços entre as poltronas acolchoadas.

— Você tá se referindo ao fato de eu ser cheiroso? Porque já estive em dias melhores — olhou pela janela para se situar no cenário. Aparentemente estavam em um planalto cercado de gramados, talvez no interior de algum estado.

— Cheiro de semideus. Vocês são raros por essas bandas — fungou o nariz. — E pelo seu tipo já vi que é filho de algum grandão. Deve valer um mês inteiro de carne — abriu um sorriso amarelo e prepotente.

— Sinto em te desapontar, mas não vai rolar não — usou toda sua força e corpo para forçar o vidro da janela ao lado e pulou para fora dos trilhos.

Lutar com um monstro dentro de um trem em pleno movimento estava fora da lista de coisas a se fazer na França para Abramov. Só que se ralar e machucar todo ao pular deste mesmo trem também não - e mesmo assim isso aconteceu. A mochila chegou a rasgar uma das alças e rolar para longe do semideus durante a queda. Além disso, antes mesmo que esta tivesse um fim, a harpia já estava na cola do filho de Zeus. Não muito afetado pelos danos do movimento, ele - ainda caído no chão - invocou Aégis, seu escudo, a tempo apenas de defender o rasante da fera.

— De onde surgiu isso? — a besta grunhiu em desaprovação.

— Do mesmo lugar que veio isso aqui — e arremessou o escudo já eletrificado contra sua adversária.

O disco atingiu o alvo em cheio e fez um corte feio e fundo na barriga da harpia antes de retornar para seu dono. O descendente olimpiano voou em direção à inimiga e, em uma distância média desta, usou seu combo de raio para realizar três ataques físicos com os punhos em uma velocidade impossível de se acompanhar. Tudo isso não bastou para transformar o monstro em pó.

— Desgraçado — ela foi perdendo altitude pouco a pouco.

— Como você ainda tá viva? — arqueou a sobrancelha.

Sem uma reposta de fato, a harpia usou o restante de suas energias para tentar outro ataque direto ao semideus, mas o mesmo apenas lançou o o escudo outra vez e a fez explodir pó dourado. A batalha havia sido rápida e simples, custando apenas uma dor no ombro e alguns arranhões pelo rolamento. Em fato, custou também o restante da viagem em paz pois sem o trem, ele não teve escolha senão ir voando seguindo os trilhos. Precisava ser rápido, pois não sabia se estariam à sua procura junto do restante dos passageiros que foram jogados do trem. Foi, inclusive, nesse momento em que considerou pedir por uma carona a Grizfolk - só não o fazendo por ainda querer manter a discrição.

Abramov seguiu viagem por mais duas horas, aguentando o cansaço de toda aquela jornada e a fome que havia voltado ao máximo. Estava com frio e uma baita dor de cabeça, mas bastou um vislumbre dela para que todo seu humor mudasse. Nada melhor que a grande e triunfal Torre Eiffel para denunciar em que cidade o aventureiro havia chegado.

— Paris — sussurrou para si mesmo, em um mix de emoções por conta momento.

Já era meado de noite quando o helênico enfim chegou na famosa Cidade Luz. Esta, por sua vez, era uma forte defensora do título pois sua iluminação e aparência eram de fato memoráveis. Perdido em tantas sinalizações e informações, Ab vagou pelas ruas de cabeça baixa. Não queria ser notado por ninguém, contudo procurava desesperadamente por um lugar para comer. Não se importava em enrolar algum atendente novamente, só precisava desesperadamente encher a barriga.

Movido por isso, o americano entrou na primeira lanchonete furreca que viu e se sentou ao balcão. Ali dentro, somente um casal e dois estranhos encontravam-se sentados. A mulher discutia com o namorado algo indecifrável para o não falante de francês. Um dos homens que estava sentado sozinho lia um jornal e o outro conversava com único atendente da loja. Ao fundo disso, o noticiário local anunciava algum evento musical que aconteceria na cidade no dia seguinte. Todo o ambiente parecia normal e cotidiano demais, exceto pela sensação estranha de que algo estava errado.

Tendo a sorte de ter o inglês como língua nativa, Abramov conseguiu pedir um dos pratos simples e uma água. Quando seu pedido chegou, tentou comer da maneira mais lenta e educada possível, mas desistiu da postura no meio da ação. Ninguém ali dentro parecia se importar com ele, com exceção do homem do jornal. Tendo percebido isso, o meio-sangue tratou de terminar a refeição para escapulir sem pagar a conta, mas foi nessa hora que as coisas desandaram.

Na verdade, o tempo que desandou. Melhor, parou.

Toda a cena ao redor do semideus congelou como se alguém tivesse dado pausa nela. O filho de Zeus arregalou os olhos e quase cuspiu o último gole d'água. Ao se virar, notou que o homem do jornal havia se levantado e o encarava diretamente. Preparado para o pior, Ab ajeitou a mochila nas costas e assumiu uma postura defensiva.

— Não tema, não sou um inimigo — o desconhecido avisou. — Ainda.

— Como fez isso? — perguntou antes mesmo de querer saber quem ele era.

— Todos temos nossos truques — ele sorriu com o canto da boca. Ainda mais alto que o estrangeiro, coberto por uma roupa social preta e um chapéu de mafioso, o homem de pele alva e cabelos grisalhos parecia familiar. — Você deve ser Abramov, enviado de Baco.

— Sim — respondeu de maneira incerta. — E você é?

— Senhor P, se assim preferir — disse, como se houvesse alguma outra opção além dessa. — E então, onde está?

— Onde está o quê? — piscou os olhos sem entender por um instante, até que lembrou da carta entregue pelo bisavô - e irmão. — Ah, isso — buscou pelo item na mochila. — Ele disse mesmo que você me acharia, mas não achei que seria tão rápido assim.

— Digamos que estive esperando isso por muito tempo — suspirou com pesar antes de estender a mão para receber o envelope.

Abramov andou até o outro para entregar a encomenda, não obstante o efeito da magia temporal acabou e toda a cena voltou ao normal.

— Por que fez isso? — indagou, confuso.

— Não fui eu, eles te acharam — disse, em um tom desesperado. — Ande, não temos muito tempo — apertou a mão do semideus com força ao pegar a carta e faíscas saíram do encontro.

Levitz sentiu uma pontada forte no braço, como se algo o estivesse queimando, e rapidamente se desvencilhou do desconhecido. — O que foi isso?

— A Marca do Tempo — respondeu. — Ela permitirá que entre em seu destino — olhou pelos janelões da lanchonete. — Não é quem pensei, mas ainda é uma ameaça. Se apresse, ainda há muito o que fazer — e então desapareceu.

O olimpiano olhou para o próprio braço em busca de algo, mas nada encontrou. Nisso, ao levantar o olhar, percebeu que as pessoas ali dentro olhavam para ele como se fosse algum maluco. Talvez tudo tivesse acontecido apenas em sua cabeça, o que duvidava pois a dor fora real demais. Embora curioso com a verdade, ele notou a chegada de dois indivíduos e se distraiu novamente. Isto porque os indivíduos eram, na realidade, dois minotauros chifrudos. Chifres estes que chegaram a danificar a parte de cima da porta quando adentraram a lanchonete.

A névoa com certeza era bastante poderosa, pois mesmo a chegada de dois bichões como aqueles não bastou para alarmar os mortais completamente. O semideus, por outro lado, logo transformou seu pingente em uma lança e atacou. Não estava com tempo ou paciência para conversa, entretanto seus adversários pareciam estar.

— Ei, vamos com calma — um deles disse, o que fez com que Ab parasse de avançar.

— Quanta agressividade — o outro complementou.

— O que querem? — inqueriu.

— Você — respondeu o maior dos dois, o qual tinha um dos chifres quebrado. — Somos veganos, mas sua carne deve ter um preço alto no mercado.

— Sim, ele tem cheiro de céu — o menor, que vestia uma camisa da banda Twenty One Pilots, assentiu

— Que raios de preço é esse que tanto falam — perguntou.

— Semideuses são raros por esses lados do mundo. Então vendemos eles no mercado em troca de outras coisas, ou semideuses mesmo — o de chifre quebrado voltou a dizer.

— Um mercado negro de semideuses? — indagou, surpreso.

— Sim! Poderíamos até mesmo te trocar por uns cinco semideuses filhos de deuses menores, por exemplo. Não é o máximo? — acrescentou o monstro vestido.

— E onde eu acho esse mercado negro? Quer dizer, se eu fosse um monstro, claro — enrolou.

— É fácil, a entrada é pelo subterrâneo da Torre Eiffel — respondeu o menor.

— Tom, não seja burro, você não pode dizer essas coisas — o outro repreendeu. — Não temos escolha, vamos ter que matar esse aqui antes — e então os dois assumiram uma postura ofensiva.

Já com as informações que precisava, Abramov deu continuidade - e meio que início -, ao combate. Os mortais, que até então tinham se escondido atrás do balcão, levantaram as cabeças para olharem o desenrolara da confusão. E que confusão. O meio-sangue tentou desferir um ataque com a lança, mas o minotauro maior usou o chifre sem ponta para parar a estocada. Nisso, o outro monstro saiu levando as mesas com tudo na lateral e tentou agarrar o lanceiro.

O começo da destruição bastou para chamar a atenção de todos que passavam por perto, conforme os três se digladiavam dentro do recinto. O filho de Zeus temia atingir os humanos, devido a isto ele evitou usar seus poderes elementais e especiais. Estava determinado a derrubar seus inimigos apenas com a arma e, para azar destes, ele era ótimo com ela. Com a ponta da lança, Ab espetou um vidro de ketchup e espalhou o molho por todo o chão. Isso fez com que o minotauro que vestia a camisa da banda escorregasse e caísse. Esperto como só, o semideus saltou por cima do inimigo caído e fincou Gunir, a lança, na perna do outro.

— Fred! — Tom gritou.

Fred, o minotauro maior, se aproveitou da proximidade para dar um belo de um soco no semideus. A pancada fez o ex ceifador largar o item e ser jogado para longe o que o fez bater contra a parede. Zonzo, ele viu quando Tom se recompôs e avançou em sua direção com o corpo inclinado e os chifres na frente. Com uma reação rápida e afiada, Levitz se abaixou e escapou da estocada. Os chifres de Fred perfuraram a parede e o prenderam ali. Agachado, o campista soltou uma descarga elétrica forte no corpo do bicho e o paralisou. Depois, desferiu vários socos com toda a sua força no corpo do mesmo. Era como se a besta tivesse se tornado um grande e peludo saco de pancada. Saco este que teve seu uso encerrado quando explodiu em pó dourado.

— Tom! Você matou meu namorado! — o monstrengo restante vociferou. — Sabe quão difícil foi achar um outro minotauro vegano?

Mais espero que o primeiro, Fred jogou todas as coisas que encontrou em sua frente contra o meio-sangue. Graças à cúpula de vento, o herói conseguiu se proteger de todos os ataques e, quando não havia mais nada a ser jogado, usou a tatuagem para se teletransportar para outro lugar.

— Cadê você? — Fred gritou.

— Aqui! — Ab surgiu de trás do balcão saltando pelo lado de seu inimigo.

Em um assalto surpresa, o filho de Zeus conseguiu melhorar sua força e derrubar seu inimigo. Em seguida, repetiu o mesmo truque da descarga elétrica para paralisar o monstro e garantir a vitória. Bastou que recuperasse a arma para poder finalizar o segundo dos híbridos. Com uma dor na costela e ainda tonto, ele enfim notou que tinha destruído todo o estabelecimento e que várias pessoas filmavam tudo lá de fora. Isso, claro, sem contar o barulho das viaturas que estavam chegando.

— Ah, merda.

(...)

Fugir da polícia de Paris entrou para o top cinco de coisas mais loucas que Abramov Levitz já tinha feito. Se seu rosto já era conhecido na América, depois daquilo tinha atingido um nível internacional ao estampar os noticiários franceses. De acordo com as notas da imprensa, ele tinha se envolvido em uma briga de gangue dentro da lanchonete e matado os dois outros bandidos. "Como se eu tivesse tempo pra fazer parte de uma gangue", pensou consigo mesmo.

Escondido em um beco escuro, o americano recuperou o fôlego e tentou pensar no que fazer. Já tinha entregue o bilhete e recebido a tal marca, precisava apenas encontrar o responsável pela missão e seguir caminho. Entretanto, estava incomodado com algo e indeciso sobre seguir a pista ou não. Em partes sabia que poderia ser uma armadilha, mas por outro lado nunca conseguiria viver em paz sabendo que talvez tivesse deixado passar a chance de salvar inocentes. "É isso ou é isso", decidiu. Uma parada obrigatória havia acabado de surgir em seu caminho antes da Eslovênia: a Torre Luz.

Não era necessário conhecer a cidade para saber como chegar ao monumento triunfal e carro chefe do turismo. O problema de fato foi não ser parado por alguém no meio do caminho. Sem poder largar a mochila, já que ela guardava a maleta, Ab andou de cabeça baixa pelas ruas menos movimentadas até chegar à praça. Ali, notou que o fluxo de pessoas perto da torre era grande o que era bom para se misturar. Porém, havia muito policiamento justamente por conta do vai e vem de turistas.

Disposto a ir até o fim com aquilo, ele estava para dar início ao seu plano maluco quando Baco surgiu novamente.

— O que está fazendo? Isso não faz parte da missão — o deus se alarmou atrás dele.

— Eu sei que não, mas não posso ignorar o que rola aqui — disse, já impaciente.

— Quem se importa com eles? Temos assuntos mais importantes pra tratar — articulou. — Evitar o fim do mundo em trevas graças a Nox, por exemplo.

— Bom ponto. Mas posso fazer isso depois. Prometo não demorar — argumentou dando passos em direção à multidão.

— Deuses, Batmov. Ok, vai e faz seu trabalho como mocinho do filme. Eu vou continuar aqui degustando um belo vinho e pensando em como minha vida teria sido em uma realidade alternativa onde a França fosse a Itália.

— Você é engraçado. Vai ver é legal te ter como irmão mesmo — sorriu de maneira rápida antes de avançar.

Com seus poderes elétricos, Abramov intensificou as correntes elétricas dos postes e dos fios da torre ao ponto de pequenos estouros nos fios comprometerem toda a iluminação da área. Aquilo pareceu um ataque terrorista, algo bastante comum na atualidade, o que fez com que todos começassem a correr desesperados. Se aproveitando disso, ele marchou firmemente até a entrada principal da atração e pulou uma das grades que dividiam as áreas.

Um dos guardinhas locais tentou parar o semideus, mas este apenas o nocauteou com o cotovelo. Em passos rápidos, Levitz entrou na primeira porta de serviço que viu. Não sabia por onde desceria, apenas que havia uma entrada por ali. O primeiro ambiente que achou foi uma sala de monitoramento simples. Uma grande tela, que provavelmente mostrava as imagens das câmeras da região, era a única coisa ali além de uma mesa abaixo desta. A cadeira do guarda responsável pelo local estava quebrada e não parecia confortável. Quem quer que ficasse de vigia ali provavelmente morria de tédio.

Uma outra porta dentro da sala deu em um corredor estranho e, ao fim dele, uma escadaria descia sem sinal de fim. Abramov só conseguia enxergar naqueles ambientes graças à iluminação das bolas de energia que ele criava com as mãos. Inclusive, teve tempo de se arrepender de não ter trago uma lanterna em sua mochila - ela estava cheia de roupas e itens inúteis.

— Wow — ficou impressionado ao chegar na sala de energia da torre.

Aquele era o único lugar da construção que ainda tinha energia graças ao gerador reserva. Fios e mais fios encontravam-se jogados pelo chão interligados por aparelhos e motores gigantescos. Mesmo parecendo um grande labirinto caótico e elétrico, era claro que a arrumação bagunçada tinha um motivo e que era entendida por seus técnicos. Pensar nisso fez com que ele se lembrasse de que era apenas uma questão de tempo até estes mesmos técnicos darem um jeito no problema e se apressou.

Sobrevoando a área, Ab encontrou uma outra porta. Esta, diferente da anterior, era feita de madeira - o que destoava de todo o ambiente -, e tinha um entalho estranho em vermelho. Com toda a certeza aquilo não era visto pelos mortais, considerou. Sem medo por conta de toda a experiência de vida, ele empurrou o objeto e seguiu o caminho. O barulho dos fios elétricos estalando foi ficando para trás conforme seu corpo foi saindo da luz da última sala para a escuridão do corredor.

Um silêncio apreensivo tomou conta do momento e, após alguns minutos de caminhada, o meio-sangue chegou em uma nova sala. Na verdade, em um grande galpão. Um grito abafado escapuliu pelos lábios dele ao ver a grande movimentação de monstros para todos os lados. Eles não estavam em um nível tão abaixo do solo pois feixes de luz entravam por buracos na terra que era o teto. Todo o lugar parecia um grande acampamento de moradores de rua, com barracas velhas e lixo jogado pelos lados. As criaturas transitavam de um lado para o outro levando consigo coisas estranhas como peles de animais, objetos de mortais e, claro, semideuses.

Os filhos dos deuses não eram muitos - o que já foi explicado pela raridade deles por aquelas bandas do mundo -, mas estavam em mais que dez pelas contas rápidas do herói. Seu plano seria se infiltrar no lugar e resgatar os reféns, mas seu cheiro era tão forte que assim que respirou melhor ali dentro todos notaram sua presença. Então a situação que era para ser mais calma, acabou virando um 100 x 1.

— Hey, estou atrasado para a convenção de monstrengos? — riu de nervoso.

Os monstros se eriçaram e rapidamente correram na direção do campista. Abramov sacou a lança e escudo, pronto para a batalha, mas preferiu voar alto para ganhar vantagem de terreno. Estava limitado quanto à altitude possível naquele espaço, no entanto ainda era capaz de se manter distante de seus inimigos. Com os raios, derrubou vários dos mais fracos de primeira. Os maiores e mais resistentes não foram vencidos pelo ataque elemental. Estes arremessaram objetos e caixas no semideus voador na tentativa de o derrubar.

— A cabeça dele é minha! — uma das harpias do bando que voou em direção a Ab gritou.

Aégis fez a festa ricocheteando nos alvos no ar enquanto o lanceiro finalizava as bestas aladas com a lança. Após isso, percebendo que os semideuses reféns estavam revidando, ele desceu para se juntar à mini-guerra no solo.

— Vou tirar vocês daqui com vida, tentem fugir para o corredor! — gritou sem saber se o entenderiam. Afinal, os monstros compartilhavam a mesma origem dele e, portanto, conseguiam se comunicar de alguma maneira. Agora, quanto aos outros meio-sangue, não tinha tanta certeza.

— Eles são muitos, preciso de uma arma! — um rapaz gritou de volta em meio à multidão.

Abramov não conseguiu identificar de onde veio aquele pedido e acabou não o atendendo. Até porque, estava ocupado demais tentando não ser morto por vários monstros ao mesmo tempo em que os matava. Não fosse sua tremenda habilidade de combate e destreza, teria sucumbido rapidamente. Ainda assim, foi capaz de sobreviver e matar a maioria dos inimigos sem esgotar mais da metade das energias. Todavia, dois semideuses já tinham se ferido na batalha e morreriam em pouco tempo.

Transtornado, o ex líder de chalé usou um de seus truques para soltar um grito ensurdecedor e atrapalhar todos ali presentes - sem distinção. Se aproveitando disso, ele desviou por pouco de um arranhão de uma dracaenae e usou a força dos ventos para empurrar todos ao seu redor para longe. Tendo ganhado espaço, fincou a lança no chão e espalhou uma grande descarga elétrica pelo terreno. Aquele ataque não causaria dano propriamente dito, o que impossibilitaria ferir algum dos inocentes, mas serviu para paralisar a grande maioria dos inimigos.

Com os monstros indefesos, foi muito mais fácil para o lutador ir matando um por um com a arma de ouro imperial. Ainda assim, alguns minotauros mais resistentes demoraram até serem mortos. No fim, bastante ferido e exausto, o grego foi capaz de derrotar todo o mini exército de criaturas. Grizfolk se agitou na maleta que havia caído sem o dono perceber no chão indicando que queria sair.

— O que tem aí dentro? — a mesma voz do grito pedindo por uma arma voltou a falar.

— Nada — recuperou o item mágico e o guardou na mochila toda retalhada como pôde.

— Obrigado por ajudar a gente, mas eu já tinha tudo sob controle — o rapaz falou novamente. Ele parecia ter recém alcançado a maioridade. Possuía uma barba rala e cheia de falhas. Seus fios louros estavam aparados em um corte militar e seu porte parecia o de um. A pele era tão clara que parecia que há muito ele não pegava sol. Por fim, sua traje era o de um cigano europeu - se é que isso existe.

— Tô vendo que sim — franziu o cenho em descrença.

Os semideuses feridos se reuniram na saída daquele lugar em silêncio. Nenhum deles, com exceção do falastrão, sequer disse um obrigado. Provavelmente eles não entendiam o que o semideus grego falava, ou talvez apenas estivessem exaustos demais para conversar. Em qualquer que fosse o caso, o grupo especial evacuou o calabouço a tempo de evitar ser pego quando a luz da torre voltou. Lá fora, Ab viu cada um dos resgatados ir para um lado e sentiu um pesar no coração. Não pretendia virar melhor amigo de nenhum deles, mas esperou pelo menos um momento mais interessante do que aquele.

— Eles estavam aqui há mais de um mês, não viam a hora de voltar pra casa —  falastrão foi o único a continuar ali.

— Faz sentido — suspirou um pouco aliviado. O cansaço da batalha fez com que Ab sentisse dor até mesmo para andar. — Preciso sair daqui antes que me notem — reparou que a poeira estava baixando e que logo seria percebido em meio à multidão.

— Relaxa, não sei o que você fez, mas eles aqui tudo acham que é ataque terrorista e toda a atenção é voltada a isso — o semideus estranho riu. — Meu nome é Jake, por sinal — estendeu a mão para um cumprimento.

— Abramov — apertou a mão do rapaz. — Foi um prazer, mas tenho uma longa viagem até a Eslovênia ainda.

— Jura? Eu também — fingiu surpresa. — Brincadeira, eu já sabia. Meu pai me enviou pra te ajudar.

— Seu pai? — arqueou as duas sobrancelhas, confuso. — Baco te enviou?

— Baco? Não, não mesmo — voltou a rir. — Panteão errado, meu amigo. Um país pro lado, na real. Sou filho de Perun, deus dos trovões e tempestades da mitologia eslava.

Itens Utilizados:
 

Habilidades Passivas - Filho de Zeus:
 

Habilidades Ativas - Filho de Zeus:
 

Habilidades Passivas - Legado de Baco:
 


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MensagemAssunto: Re: Missão liderança   Seg Ago 20, 2018 2:05 am

Deceiver of fools
Ainda pela cidade que abrigava o Olimpo, também conhecido como Empire State pelos mortais, Gideon estava investigando outro membro da Seita a mando de Nyx. Suas últimas semanas tinham se resumido àquilo. Tanto é que há muito não se lembrava de parar para conversar com alguém que não um de seus aliados. Talvez fosse sua carência, mas sentia uma necessidade em sentar para papear sobre algo além de suas tarefas.

Obviamente isso não era possível.

Todo instante em que considerava parar em algum dinner apenas para comer e apreciar o momento, algo lhe acontecia. Na tarde seguinte ao seu duelo contra o lestrigão, o demônio se viu cercado em um beco sem saída por uma harpia. A criatura estava no encalço do semideus há algumas horas esperando apenas pelo momento certo.

A criatura deu um rasante e arranhou as costas do rapaz. Um filete de sangue escorreu pela ferida e manchou a seda da camisa branca. Giddy se virou com Desespero ainda em forma de pulseira e a transformou em espada. Sem uma chance de resposta apropriada, ele foi acuado mediante outro avanço da besta alada. Com a arma em mãos, ergueu o cabo para usar a lâmina como defesa e se safou das garras afiadas.

— Sua carne deve ser deliciosa — a harpia falou com sua voz monstruosa.

— Não conte com isso, criatura asquerosa — respondeu ao correr em direção à inimiga.

No momento do choque entre ambos, a fera ganhou altitude com as asas e escapou. Cox aproveitou a brecha para correr e voltar para as ruas de Nova York. Sabendo que estava sendo seguido de perto pela meia-mulher voadora, alternava entre olhar para frente por cima dos ombros. Em determinado momento, tropeçou em um hidrante e caiu. As pessoas que passavam por ali olharam assustadas. Alguns até se ofereceram a ajudar o distraído, mas este se recompôs e entrou em outro beco aleatório.

O seguidor da noite não conhecia aquela área direito, então quando se deparou com outro beco sem saída percebeu a enrascada na qual tinha se metido. Desesperado, o não muito experiente em combates francos tentou procurar por algo no cenário para usar, mas nada encontrou. Sua adversária, por outro lado, realizou outro bote e arrancou mais gotas de sangue com um arranhão.

Recuado, o legado de Hades usou as sombras das paredes para se recuperar um pouco enquanto esperava por outro bote. Quando este veio, rolou para o lado e desviou. Era ruim lutar em um lugar apertado como aquele, no entanto era se virar ou morrer. E ele não estava no clima para a morte. Assim sendo, o demônio de Nyx rapidamente se levantou e desferiu um ataque ascendente com a espada. O corte pegou em cheio em uma das asas da harpia e prejudicou seu voo.

Aproveitando-se do ferimento, o jovem adulto lançou três discos de energia contra a harpia e a fez cair de vez. Ainda com as pernas funcionando, a mulher-pássaro cravou as garras do pé na perna de Gideon, mas este não recuou. Pelo contrário, com seu instinto de sobrevivência aflorado, o filho de Eros fez força para frente (o que afundou ainda mais as garras em sua coxa) e cravou o ferro estígio no peito do monstro.

O pó dourado da explosão chegou a incomodar os olhos do demônio. Medianamente ferido, ele se sentou novamente nas sombras e respirou um pouco aliviado. Tinha sobrevivido a outra batalha, todavia não sabia até quando conseguiria se manter por ali sem a ajuda de alguém ou descanso. Quiçá fosse hora de finalmente conhecer a base do grupo secundário...




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MensagemAssunto: Re: Missão liderança   Ter Ago 21, 2018 6:20 am

House of Memories
"O efeito da memória é levar-nos aos ausentes, para que estejamos com eles, e trazê-los a eles a nós, para que estejam conosco."
— António Vieira


A noite parecia mais longa que o normal. A chuva forte havia expulsado todos os nova-iorquinos da tumultuada madrugada de sábado, menos um cidadão deslocado. Gideon estava sentado no terraço de um prédio em Hell's Kitchen, Manhattan. Os pingos fortes que caíam dos céus não incomodavam em nada o semideus, pelo contrário. Às vezes tudo o que um indivíduo precisa é de um belo banho para lavar a alma. E ele, mais do que ninguém, estava com a alma manchada.

Estúpido, demônios não possuem almas murmurou para si mesmo.

Por mais que fosse difícil para ele admitir, ainda tinha problemas com o fato de ter se tornado quem era. Uma parte de seu âmago o repreendia por ter se tornado aquilo que repreendeu a vida inteira. Enquanto que a outra aceitava que aquela era a única maneira de fazer justiça aos injustiçados. Dentre eles, sua mãe. Mas, se dividido entre duas vertentes opostas, como poderia ficar em paz como um todo?

Aquela era uma pergunta que há muito atormentava seus momentos pré-sono. Isto porque, durante o descanso, tinha o privilégio de não sonhar com nada. Aquele tinha sido um presente de sua mais nova matrona. Um muito bem-vindo, se pudesse comentar. Dormir era uma das poucas alternativas que o meio-sangue tinha de se desligar de tudo e esquecer suas aflições. Dormir era de fato convidativo para ele, mas não naquela noite.

Naquela específica madrugada, havia algo que o seguidor de Nyx deveria fazer. Uma missão especial designada pela própria deusa. Cox tinha algo que seus servos não tinham: o carisma natural. O jovem era seu melhor diplomata e, portanto, enviado sempre para resolver situações em que diálogos eram necessários. Só que aquela não seria uma simples tarefa diplomática. Zero, como gostava de ser chamado, teria de provar sua eficiência ao conquistar um importante aliado para a deusa.

O outdoor brilhante com o símbolo do Ziza Cucina, um restaurante italiano novo no bairro, apagou subitamente atrás do semideus e então ele desapareceu de cena. Estava na hora de fazer sua investida. Giddy estava há cerca de um mês em Nova York envolvido em pequenas atividades a mando da deusa. Nesse meio tempo, ele não parou um minuto sequer para fazer algo além das obrigações. Como já dizia aquela antiga canção: "ain't no rest for the wicked". E o menino perverso, além disso, reafirmava na própria cabeça que teria a aprovação da mãe naquilo, caso ela estivesse viva.

Pensar na mulher fez com que o meio-grego andasse mais rápido pelos becos e ruas escuras da cidade. Ela era seu combustível quando precisava fazer algo e estava fraquejando. Sabendo exatamente para onde ir, em pouco tempo alcançou um museu antigo e abandonado nos confins da região intitulado de: A Casa das Memórias.

Já de fora era possível notar claramente o porquê do status "abandonado" pelo lado de fora. Não havia mais vogais no letreiro que carregava o nome do local, o que tornava engraçado e um tanto quanto difícil de se ler. A tinta amarela das pares externas estava descascada e cheia de lodo e sujeira nos pontos sobreviventes. A construção era tão alta quanto uma casa de dois andares podia ser, mas não era tão larga quanto deveria. Uma pequena sacada com dois pilares gregos na entrada davam um ar, ironicamente, caseiro à espelunca. Por fim, as duas portas de dois metros estavam quebradas e caídas, de maneira que para entrar bastava atravessar as fitas isolantes com avisos de "área de risco".

Nada temoroso com o aviso, Gideon pisou no asfalto molhado pela chuva que não parava cair e adentrou o recinto. Lá dentro, reparou que não fosse sua capacidade de enxergar mesmo no escuro, não veria nem um palmo à sua frente. O ar era quente e abafado, o que quebrou o clima gélido do exterior úmido. A poeira do lugar era tanta que fez ele espirrar pela irritação das narinas. Aproveitando o gesto involuntário, sacudiu a cabeça primeiro e depois o corpo como um cachorro tentando se secar.

— Que falta de modos, garoto — uma voz feminina ecoou no cenário.

Não havia nada dentro do museu que o caracterizasse como um museu. Nada de esculturas, quadros ou qualquer outro tipo de atração nesse segmento. Na verdade, a única coisa no centro da construção era um espelho imenso quase três metros de altura que ia até o limite do teto. Ele era um pouco largo, o que cobria grande parte do que quer que estivesse atrás dele.

Quem disse isso? questionou o semideus.

— Eu — ela respondeu seguido de uma risada.

O reflexo do jovem adulto no espelho tremeluziu e mudou. Ariel, sua mãe, apareceu frente a ele como um fantasma do passado. Gideon tremeu na base por um rápido segundo e engoliu em seco. Estava nervoso, pois aquela era a figura que usava como desculpa para todos os seus atos pecaminosos. Mas, ao mesmo tempo, aquela que mais sentia falta e amava.

— O que foi, Giddy, o gato comeu sua língua? — a filha de Hades provocou.

O apelido de infância fez com que ele ficasse ainda mais aflito.

Mãe conseguiu falar. As palmas de suas mãos estavam molhadas por conta do suor. Não é você afirmou, lembrando-se de que aquilo era algum tipo de truque.

— Sim, sou eu — ela sorriu como sempre fazia quando o filho aprontava alguma. — Ou melhor, uma lembrança sua de mim. Uma recordação. Uma parte de sua memória.

As palavras ecoaram novamente no cenário e então o reflexo sumiu. Não havia mais nada no espelho, como se o semideus tivesse desaparecido do lugar - o que não tinha acontecido. Foi nesse momento em que ele enfim percebeu o que estava acontecendo. Nyx lhe alertara de que seu alvo era ardiloso e inteligente. Aquilo era algum tipo de teste ou intimidação, considerou.

Moros ao pronunciar o nome do deus em voz alta, sentiu toda a estrutura do museu estremecer.

Moros, na mitologia grega, era o deus da sorte e do destino, da morte e das criaturas do Tártaro. Filho de Nyx, era considerado um daemon o que explicava de onde viera a ideia dos membros do grupo da deusa serem apelidados de demônios. A própria fatalidade, o "destino" que ditava os acontecimentos e estava acima de tudo e todos, deuses e mortais. Isso, claro, antes de ser esquecido e se retirar para seu exílio.

Por séculos a divindade esteve escondida em seu canto, alheia aos acontecimentos mundanos devido à troca de responsabilidades (algo comum entre a transação de civilizações, assim como o que houve com Hélio e Apolo). No entanto, a deusa primordial tinha planos para seu filho e precisava atraí-lo para seu lado novamente. Assim, enviou seu agente até o encontro do deus para o convencer a repensar em seu afastamento.

— Você ainda ressente a partida de sua mãe, criança — a divindade respondeu de algum lugar indistinto. — Preso nas lembranças dela e em seu julgamento.

Um pouco respondeu, sem hesitar ou considerar mentir. Todos temos aquilo do que nos ressentimos. Até mesmo o senhor continuou.

— Até mesmo eu — repetiu alterando o sujeito. — Quanto atrevimento em vir até minha casa e usar minhas palavras contra minha existência — apesar da resposta, ele não soou ofendido ou algo do tipo.

Sua mãe me enviou até aqui. Ela precisa de você disparou, sem rodeios. Com passos lentos e cuidadosos, Gideon passou pelo espelho e se deparou com uma escadaria do outro lado.

— Quão irônico é você vir aqui falar sobre uma mãe precisar do filho — Moros riu, como um idoso ri de maneira falhada e rouca.

Eu diria que, numa escala de zero a dez, dez brincou ao pisar nos degraus velhos que rangiam.

— Sei de quem você é filho, semideus. Já ajudei seu pai antes e ele estendeu minha benção aos filhos como uma fração do meu poder. É disso que veio atrás? Mais poder? — indagou.

Não, vim atrás do senhor. Precisamos de sua ajuda agora mais do que nunca seus passos o levaram até o segundo andar, que nada mais era que um sótão ainda mais empoeirado que o andar debaixo.

Aquele lugar definitivamente não era um museu - ou pelo menos não mais. O sótão estava entupido de caixas de papelão empilhadas umas sobre as outras. Parecia que alguma família imensa tinha se mudado para ali, guardado toda a mudança naquele espaço e morrido antes de desempacotar tudo. A luz da noite iluminava um pequeno espaço do lugar através de uma janela redonda na parede oposta à escada. Ali, uma cadeira de balanço também de madeira era ocupada por um esqueleto cheio de teias e fedorento.

— Não tema, criança, nem sempre aparentamos o que somos de fato — Moros disse, o que revelou que ele era o esqueleto sentado.

Não temo falou, de pé próximo ao deus.

— Você tem coragem, apesar de cheirar como um filhote de cachorro perdido da mamãe — riu novamente. — Admiro isso. Me diga, o que minha mãe deseja?

Que tudo volte a ser como antes.

— Como na era do Caos? — ele teria arregalado os olhos se fosse possível.

Não, não tanto. Mas na época em que os deuses não tinham o poder sobre tudo. Quando ela e os mais antigos podiam colocar ordem no rumo das coisas umedeceu os lábios. Quando você regia acima até mesmo de Zeus.

As palavras do meio-sangue pegaram o deus de jeito e um silêncio estranho tomou conta do recinto.

— O destino é imutável, criança. Eu sei como tudo terminará e a verdade nunca será arrancada de mim, minha mãe sabe disso — Moros se agitou.

Ela não quer a verdade, ela quer você reafirmou. Cox não sabia exatamente o que Nyx pretendia já que o deus poderia saber de antemão que, não importando o que ela tentasse fazer, não daria certo. Ainda assim, continuou acreditando no discurso de sua matrona e se empenhando naquilo. Se há a remota possibilidade de mudar tudo de errado que está acontecendo com esse mundo, vamos nos agarrar a ela.

Novamente um silêncio.

— Suas palavras são inspiradoras, criança, mas as coisas não são tão simples quanto parecem — murmurou. — Estou enfraquecido e enferrujado. Eu precisaria de ajuda para voltar à velha forma. Veja, nem mesmo meu museu funciona mais.

Eu posso ajudá-lo prontamente se ofereceu.

— Assim como um dia ajudei seu pai, hm — ponderou. — Talvez seja possível, sim. Tenho um papel a desenvolver na trama do mundo — ao falar isso, ficou subentendido que no fundo ele mesmo estava ciente de que, qualquer que fosse o resultado daquilo, teria inevitavelmente que seguir com o próprio destino. O destino era tão poderoso que nem mesmo ele poderia escapar da própria influência.

O que eu preciso fazer? perguntou, como uma criança que pede instruções para receber a mesada dos pais.

— Meu poder foi difundido ao longo do tempo. Eu precisaria de um receptáculo para reacendê-lo — jogou a ideia no ar.

Posso ser esse receptáculo se ofereceu. Você agiria através de mim, certo? não era tão inocente quanto parecia, ciente de como aqueles acordos entre deuses e semideuses funcionavam.

— Sim, mas há uma porém — sua voz soou mais sombria do que o normal. — Um preço a se pagar, como tudo nessa vida, criança.

Eu pago afirmou com convicção.

Moros riu pela terceira vez. — Eu vi a sua chegada, criança de Eros. Eu sabia que esse dia chegaria, mas não imaginei que você estaria tão confiante quanto a isso — fez uma pausa dramática, mas Gideon nada disse. — Pois bem, posso te ajudar a dar à minha mãe o que ela quer, pela minha obrigação como personagem dessa história. Contudo, como pagamento por carregar consigo parte dos meus poderes, toda a memória de sua existência e, portanto, sua história até esse ponto, será esquecida.

Aquilo pegou Zero de jeito. Um calafrio percorreu toda sua espinha e uma tontura atrapalhou sua visão. Aquilo significava que ele mesmo esqueceria do próprio passado, o que incluía perder de vez Ariel, sua mãe. Se isso acontecesse, perderia todo seu propósito de vida e seus ideias se tornariam vazios, como se fosse apenas um peão de Nyx.

E ela, ela vai continuar sabendo quem eu sou? questionou, sem deixar claro a quem se referia.

— Minha mãe ou a sua? Se estiver falando da minha, ela é mais poderosa do que os deuses comuns, é claro que lembrará. Já a sua... — terminou a sentença com pesar.

O coração de Gideon começou a bater com força e em ritmo acelerado. Estava diante da decisão mais importante de sua vida e o único espectador do momento já sabia o que ele escolheria. E se esse tempo inteiro Moros soubesse que ele daria para trás e estivesse apenas se divertindo? A hipótese ficou em sua mente, assim como todas as lembranças sagradas que guardava da progenitora. Até onde valia ir com aquilo para fazer o certo?

De olhos fechados, Giddy controlou a respiração e clareou a mente. Sua mãe um dia lhe dissera que sacrifícios são necessários para se alcançar um objetivo. São eles que distinguem um verdadeiro herói de um covarde amedrontado. Em seu encontro com Nyx, o meio-sangue jurara para si mesmo que não seria mais um covarde. Aquela era sua hora de mudar as coisas, de se tornar o herói que sua mãe sempre quisera.

Eu aceito enfim concordou.

Uma energia verde começou a fluir da caveira através de sua boca e circulou o rapaz. Gideon fechou os olhos e abriu a boca ao ser subjugado pelo poder do deus. Uma dor forte fez com que ele estremecesse e caísse sobre os joelhos. Sangue escorreu de seu nariz; ele mais parecia estar tendo um AVC devido ao fato das órbitas oculares estarem para trás exibindo apenas a parte branca dos olhos. Toda sua memória foi varrida durante o processo até aquele encontro.

No que restou de suas lembranças, apenas a quem servia, quem era e o que havia acabado de acontecer prevaleceram. Mesmo o apelido que carregava consigo como algo que o representava foi perdido. E, claro, sua mãe. Cox se levantou e notou que a sala estava vazia. O esqueleto havia desaparecido e a sensação de estar sozinho tomou conta do seu estado de espírito.

Paz.

Pela primeira vez em muito tempo o garoto se sentiu em paz e isolado. Ou talvez não. Já não se lembrava de mais nada, logo poderia apenas estar delirando. Era estranho saber que tinha esquecido toda sua existência ao mesmo tempo em que realmente não se recordava de nada. Torturante, se pudesse comentar. Por sorte não era uma pessoa muito curiosa, caso contrário teria surtado ali mesmo.

Ainda um pouco tonto, o demônio desceu a escadaria novamente para sair daquele lugar. Precisava encontrar sua líder, contar o que havia acontecido. Todavia, um mal-estar forte e estômago embrulhado o fizeram cair dos degraus e rolar até o chão. Fraco, o meio-sangue se esforçou ao máximo para não apagar, mas acabou desmaiando. Não demorou muito e seus olhos se abriram para revelar que estava sendo arrastado por um terreno abandonado.

Uma voz estranha despertou o aliado da deusa primordial, alertando-o do que estava acontecendo.

Como eu consigo te ouvir? questionou em voz baixa, ainda tonto.

— Eu estou apenas na sua cabeça, meu estimado — o timbre era masculino e distorcido, como se estivesse falando através de um rádio velho à pilha. — Você foi capturado, reaja ou então morrerá e tudo terá sido em vão.

O filho de Eros levantou a cabeça com muito esforço e viu que um lestrigão maior que os que encontrara antes o puxava pelos pés. Não tinha sido pego por algum mortal, se aliviou. Entretanto, seu alívio desapareceu ao olhar melhor e visualizar uma fogueira imensa com mais criaturas ao redor dela. Estava sendo levado para um covil de monstros para, na melhor das hipóteses, ser servido de lanche da madrugada.

Ainda um pouco fraco, ele sentiu as pedrinhas na terra baterem em seu corpo enquanto era arrastado. Aquilo era dolorido e ao mesmo tempo prazeroso, como algum tipo de massagem maluca. Abusando do frio natural da noite chuvosa, o meio-sangue recorreu à criocinese e sua pele fria para fazer o lestrigão o soltar. Nisso, percebendo a surpresa do monstro, se arrastou para longe e conseguiu se levantar.

Estava fraco demais para lidar com aquela criatura sozinha, quem diria então com mais dois lestrigões ao longe próximos à fogueira. Todavia, não podia também simplesmente fugir. O que tinha de fazer era comprar tempo para que a escuridão fizesse o trabalho de o curar. Assim sendo, tirou as roupas e ficou completamente nu em meio ao campo de grama. Estavam nos fundos de um prédio aleatório de Manhattan, então quem quer que pudesse estar assistindo aquilo apenas confundiria a cena com alguma briga maluca entre homoafetivos, quem sabe.

Seu inimigo o observou confuso até que ele desapareceu em meio à noite.

— Oh! — a besta balbuciou, surpresa.

Camuflado, Gideon sabia que seus passos podiam ser ouvidos e, portanto, se moveu com cautela. Atento, reparou que o sequestrador havia chamado a atenção dos outros dois e então a batalha tinha assumido o caráter de três contra um. Aquele era um excelente momento para fugir, reconsiderou. Mas uma voz em sua cabeça, a mesma que o acordara instantes antes, o encorajou a encarar o desafio. Não sabia ao certo o que era aquela coisa se comunicando com ele, não obstante pouco ligava.

Pouco mais de um minuto bastou para que suas energias voltassem a si e então ele deu início ao combate. Ativando suas asas e ainda camuflado nas sombras do ambiente, o semideus invocou Destemor e fez com que as lâminas assumissem o aspecto de punhal -  aquele seria um ataque furtivo, no fim das contas. Flutuando para que seus passos não pudessem ser ouvidos, ele se posicionou atrás de um dos monstros e cravou as duas adagas em seu pescoço.

A explosão de pó dourado alertou sua posição para os outros dois e, pior, denunciou sua presença por grudar em seu corpo. Cox havia se tornado um homem invisível coberto por partículas douradas reluzentes. Quase uma aparição - ou super-herói, a depender da perspectiva.

— Leve sua angústia a esses seres menores e insolentes — a voz surgiu novamente.

Sem a possibilidade de continuar disfarçado, Giddy avançou com tudo para cima de um dos inimigos e esticou o tamanho das lâminas. Em um giro de última hora, fez dois cortes profundos na barriga do bicho. Este, por sua vez, conseguiu acertar o rapaz com a parte externa da mão direita e o jogou longe. O dano não foi tremendo, apesar da força, só que serviu para que o ferido largasse uma das armas que brandia.

A incitação de estar desarmado deu coragem aos aliados que correram para cima do meio-sangue. Fortalecido pela noite, o helênico se levantou em um salto e esquivou a tempo de um murro. Próximo demais dos bichos para elaborar uma ação composta, ele desferiu outro ataque com a espada longa em mãos e fez outro ferimento no mesmo lestrigão.

O ataque atingiu o braço do monstro e este caiu sobre um dos joelhos, fraco. O outro, no entanto, avançou novamente e agarrou o legado de Hades. Julgando estar no controle da situação, a besta não muito racional apertou sua presa com as duas mãos apenas para sentir o frio de sua pele se tornar insuportável. Tão insuportável que largou o jovem.

Aproveitando-se da brecha, Gideon ativou o bracelete e o transformou em Desespero. Juntas, as lâminas das duas armas foram enterradas no peito do monstro e o mataram. Dois a zero, pensou consigo mesmo. Animado, ele avançou novamente contra o inimigo previamente ferido e tentou uma estocada dupla, só que este último abriu os braços em um ato de ira e atingiu o rapaz.

O pseudo-soco atingiu Cox na altura do peito e o pôs ao chão. Ar faltou para o rapaz que agoniou no chão em busca deste. Ironicamente desesperado, tentou se arrastar para longe mas teve a perna direita agarrada pela criatura - a qual já estava acostumada ao frio. A dor das pancadas era forte e a dificuldade para respirar pior ainda.

— Você possui um dom, use-o — ouviu a mesma voz que parecia assistir ao combate.

Não entendeu o que ela quis dizer com aquilo, entretanto se recordou dos momentos anteriores àquela confusão - e únicos que tinha em sua memória -, no encontro com Moros. Desde aquele momento ele era seu casulo e, com isso, guardava consigo verdades e poderes que até então não conhecia.

Com exceção de um.

Aquilo que tinha abrido mão em troca do que Nyx queria. Aquilo que, se um dia recuperasse, poderia custar toda sua missão. Aquilo que todos tinham como as prováveis coisas mais sagradas:

As memórias.

Sagaz e esperto, o daemon focou na mesma energia estranha que tinha tomado conta de seu corpo e concentrou o poder nos membros deste. Não era tão estranho àquilo pelo conto de Eros, contudo aquela também era sua primeira vez. Assim sendo, teve dificuldades de conseguir o que queria e obteve sucesso apenas quando o lestrigão chegou perto de quebrar sua perna. Foi aí que exteriorizou toda sua raiva e a descontou no bicho.

Da mesma maneira como no sótão do museu, o monstrengo foi afetado pelo truque do deus por estar tocando no semideus e caiu para trás. O corpo do monstro tremeu sem controle e seus olhos reviraram, revelando o processo de destruição de lembranças. Intrigado em saber como funcionava aquilo, o seguidor da deusa primordial andou mancando até sua vítima. Quando esta abriu os olhos confusa, percebeu que obteve sua resposta naquele simples vislumbre e a matou com um furo na garganta.

— Muito bom, meu estimado — Giddy sentiu um calafrio percorrer seu corpo ao ouvir a voz de antes.

Quem é você? se sentou no gramado para sentir os chuviscos fracos que denunciavam o fim do temporal.

— Um aliado. Nyx precisa de sua pessoa inteira para terminar a grande missão e por isso me deixou contigo.

Exausto e sem muitas referências sobre o restante de seus aliados - nem quantos eram ou onde ficavam -, o adolescente apenas aceitou aquilo como uma verdade.

E como é seu nome? questionou, em um tom inocente.

— Você pode me chamar de Mister M, apreciado.

Notas:
 

Recompensa requerida:
 

Itens Utilizados:
 

Habilidades Passivas - Demônio de Nyx:
 

Habilidades Ativas - Demônio de Nyx:
 

Habilidades Ativas - Filho de Eros:
 

Habilidades Passivas - Legado de Hades:
 

Habilidades Ativas - Legado de Hades:
 



vitu



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